O ARQUIVAMENTO DO ESCRITOR
Reinaldo Marques
Encarregado por Abgar de receber de O Diário carioca os “caraminguás” devidos por duas colaborações anteriores, Drummond solicita do amigo de Belo Horizonte, em carta de 26-05-1953, a informação da data de publicação de um dos poemas — “Retorno de Pasárgada” —, a fim de agilizar o recebimento. E esclarece: “(Já vê você que eu recorto todos os seus poemas e os guardo; ponho mesmo as datas respectivas, mas no “Retorno” me esqueci disso).” Já Abgar, numa carta datada de 19-03-1959, após considerações sobre as causas de seu afastamento do cargo de Secretário de Estado da Educação de Minas Gerais, assim finaliza sua missiva ao amigo residente no Rio de Janeiro: “Mando-lhe mais alguns recortes para seu precioso arquivo. Constituem prova de que você está presente sempre, até nos meus silêncios infames.”
A leitura da correspondência recíproca entre Carlos Drummond de Andrade e Abgar Renault revela a existência neles de uma cumplicidade arquivística. Em ambos há uma compulsão para arquivar papéis, recortes de jornais, cartas, bilhetes, cartões postais, etc. Revelador de um desejo de memória, trata-se de hábito antigo, posto que, em outra carta de 30-04-1948, diz Drummond:
Remexendo papéis velhos, a fim de escrever alguma coisa sobre o Milton (...), encontrei uma carta de 1925 em que ele se queixa de você, por falta de notícias e diz textualmente: “Saberei não aproveitá-lo quando for governo, como disse o Nilo e ainda diz o João Pinheiro.” Achei uma delícia e apressei-me a levá-lo ao seu prezado conhecimento.[1]
É interessante observar aqui como um alimenta o arquivo do outro, enviando recortes dos jornais com as publicações do amigo, entre outras coisas. São várias as cartas em que acusam e agradecem o recebimento desses recortes. E tal envio constitui prova de apreço, de amizade, contrapondo-se aos períodos de silêncio, indiciador de esquecimento, quando prolongados. Assim, prover o arquivo do outro com tais recortes, e outros materiais, a par de afirmar a estima do amigo distante, suplementa uma memória alheia, de outrem. Trata-se de uma dupla operação de arquivamento, por meio da qual o escritor executa uma série de práticas arquivísticas, constituindo arquivos literários, e, ao mesmo tempo, se arquiva. Ou seja, constrói sua imagem de autor e preserva a memória de sua formação e relações afetivas e intelectuais. Nesse sentido, gostaria de lhes propor algumas breves reflexões e observações sobre o trabalho de arquivamento do escritor, com vistas a explicitar as motivações e funções do arquivo na vida dos escritores e a considerar nossas formas de lidar com essa prática arquivística, enquanto pesquisadores de arquivos literários.
Trata-se de reflexões e observações um tanto preliminares e de caráter genérico, fruto de anotações de leituras e conversas várias sobre a questão dos arquivos literários, da memória cultural. Mas que são respaldadas por um duplo envolvimento pessoal: com o Acervo de Escritores Mineiros e com a Comissão de Política de Acervos da UFMG.
Pertencente ao Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG, o Acervo de Escritores Mineiros abriga os fundos dos escritores Henriqueta Lisboa (1904-1985), Murilo Rubião (1916-1991), Oswaldo França Júnior (1936-1989), Abgar Renault (1901-1995), Cyro dos Anjos (1906-1994), além das coleções Alexandre Eulálio (1932-1988), Aníbal Machado (1894-1964), Octavio Dias Leite, Ana Hatherly e José Oswaldo de Araújo. Os referidos fundos compõem-se de biblioteca, correspondência, documentos pessoais, originais manuscritos e/ou datilografados, fotografias, esculturas, pinacoteca e mobiliário, que reconstituem a vida intelectual dos respectivos titulares. Já as coleções são formadas por conjuntos de documentos parciais dos titulares, tais como cartas, fotografias, manuscritos autógrafos, livros e outros.
Localizado na Biblioteca Central da UFMG, o Acervo de Escritores Mineiros tem se constituído num importante espaço de investigação de arquivos literários e pesquisa com fontes primárias. Sua formação, organização e preservação se deve ao empenho de um grupo de pesquisadores envolvidos com o projeto integrado de pesquisa “Acervo de Escritores Mineiros”, coordenado pelo Prof. Wander Melo Miranda. Apoiado pelo CNPq, o projeto conta também com a participação de vários estudantes bolsistas de Iniciação Científica, cumprindo assim um papel relevante de formação de futuros pesquisadores de arquivos literários. Como pesquisador participante da equipe do projeto, trabalhei na organização do volume das poesias traduzidas por Henriqueta Lisboa[2]. O que me levou a uma interessante pesquisa de sua correspondência, de inéditos e de questões relativas ao ato da tradução.
Passados já doze anos de sua criação, com a doação dos fundos de Henriqueta Lisboa ao Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1989, um exame mais rigoroso das pesquisas e atividades realizadas junto ao Acervo de Escritores Mineiros permite apreender, a esta altura dos trabalhos, uma expressiva mudança em termos qualitativos. Se, no momento inicial da organização dos fundos, eram mais prementes as questões técnicas e práticas, agora já se verifica um aprofundamento maior dos aspectos teóricos e conceituais atinentes quer à pesquisa da memória cultural e literária, da tradição, do cânone, quer à organização, descrição, referência e preservação dos arquivos, dos documentos. Tal deslocamento metodológico tem propiciado seja a (re)elaboração de alguns conceitos — modernidade tardia, tradição moderna, crítica biográfica, identidade, recepção crítica —, seja a discussão de categorias próprias da prática arquivística, como as da organização intelectual, da descrição e preservação documental, seja, enfim, a construção de biografias intelectuais e produção de edições críticas de obras e de correspondências entre os escritores.
Importa
ressaltar aqui que, ao longo desses anos de execução do Projeto Integrado de
Pesquisa “Acervo de Escritores Mineiros”, já foram obtidos alguns resultados
extremamente significativos no que tange à preservação da memória cultural e
literária brasileira, ao estabelecimento de políticas institucionais de
criação, avaliação, organização e conservação de acervos, ao desenvolvimento de
pesquisas e ao treinamento de mão de obra qualificada para lidar com arquivos
pessoais.
Em
seu caráter de certa forma pioneiro, na medida em que foi formando
pesquisadores e produzindo pesquisas, lidando com aspectos metodológicos e
técnicos de elaboração de inventários, organização de arquivos e conservação de
documentos, o trabalho com os fundos dos escritores mineiros, no âmbito da
UFMG, contribuiu para sensibilizar a comunidade acadêmica quanto ao problema
dos inúmeros acervos existentes na Universidade. Nesse sentido, a sua
administração central, na gestão 1998/2002, criou uma Comissão para estabelecer
a Política de Acervos da UFMG.
Dotada de caráter transdisciplinar,
constituída por representantes e especialistas de diversas áreas do
conhecimento, a referida Comissão elaborou e executou o projeto “Inventário de
Acervos da UFMG”, com o objetivo de mapear os acervos existentes, descrevendo o
estado atual de cada um deles, a fim de propor ações e instrumentos com vistas
à recuperação, conservação e organização. Tal inventário envolveu o mapeamento
de fundos, arquivos, coleções, museus, edificações, entre outras coisas,
colaborando para a consolidação de uma política de acervos. E resultou na
criação de uma Comissão Permanente de Acervos dentro da Universidade, com
vistas a assessorar as decisões da Reitoria. Nesse trabalho, constituíram-se em
aspectos bastante positivos a interlocução e o entrosamento maior entre agentes
culturais, pesquisadores e administradores ligados à questão dos acervos. Foi
possível refletir com colegas de várias outras áreas (Biblioteconomia, Belas
Artes, CECOR, História, Música, Arquitetura etc.) sobre diferentes problemas
relativos ao patrimônio histórico, à organização, descrição e conservação de
arquivos, coleções e fundos documentais.
Após explicitar o lugar a partir do qual estou enunciando essa fala, quero voltar ao tema do arquivamento do escritor.
Ao examinar a constituição pessoal de arquivos de vida, Philippe Artières ressalta três aspectos relacionados ao arquivamento do eu[3]. Trata-se, primeiramente, de uma injunção social; os indivíduos arquivam suas vidas como cumprimento de um mandamento social: “arquivarás tua vida”. Tal mandamento reflete, sobretudo nas sociedades letradas, o poder da escrita sobre o cotidiano. Afinal de contas, como lembra Artières, “para existir, é preciso inscrever-se: inscrever-se nos registros civis, nas fichas médicas, escolares, bancárias.”[4] Daí a necessidade de zelarmos pela boa organização de nossas vidas, eliminando suas lacunas; de uma gestão diferente de nossos papéis, mantendo arquivos domésticos, locus de uma escrita ordinária. Inescapável submissão ao controle gráfico, os arquivos nos provêem de recordações e lembranças, de um passado com que aprender, para melhor construir o futuro. Inserem-nos num espaço de normalidade, garantem-nos uma identidade.
Como segundo aspecto, a exigência da constituição de arquivos pessoais leva os indivíduos a desenvolverem práticas de arquivamento do eu. Para tanto, são acionadas práticas múltiplas de arquivamento: guardar papéis ou documentos em pastas, gavetas ou cofres; montar álbuns fotográficos; manter um diário ou, ainda, redigir uma autobiografia. São executadas diferentes operações intelectuais e manuais: analisar, selecionar, fazer triagem, manipular, omitir, sublinhar, rasurar, riscar, recortar etc. Nesses procedimentos importa salientar, a meu ver, tanto o gesto seletivo e classificatório quanto a intencionalidade por parte do indivíduo que constitui seu arquivo pessoal.
Por fim, as práticas de arquivamento do eu apresentam uma intenção autobiográfica, evidenciando um movimento de subjetivação. Prática mais refinada de arquivamento do eu, por meio da autobiografia certos acontecimentos de uma vida são selecionados e organizados numa forma narrativa. O que faz com que o sentido de nossas vidas resulte das operações de escolha, classificação e organização dos acontecimentos que a marcaram. Tanto quanto escrever um diário e guardar papéis, escrever uma autobiografia se insere no âmbito daquelas práticas que, segundo Foucault, revelam uma preocupação com o eu. Desse modo, arquivar a própria vida possibilita forjar uma imagem íntima de si mesmo, como contraponto à imagem social. Portanto, para Artières, “o arquivamento do eu é uma prática de construção de si mesmo e de resistência”[5].
No trabalho com os acervos dos escritores mineiros, logo o pesquisador se depara com aquela compulsão arquivística mencionada acima. Se não se pode dizer que se trata de característica exclusiva desses escritores, é possível afirmar, no entanto, que neles é um traço saliente. Diria até mesmo atávico, fruto de forte inclinação memorialística e autobiográfica, emblematizada por aquelas arcas e baús muito comuns nas fazendas coloniais mineiras, funcionando como arquivos de uma Minas arcaica e ancestral. E dessa inclinação própria dos autores mineiros já tratou, por sinal, Antonio Candido[6]. Com efeito, percebe-se nos nossos escritores um empenho zeloso para guardar papéis e documentos, armazenar recortes de jornais, arquivar e ordenar originais manuscritos ou datiloscritos, correspondências (cartas, bilhetes, cartões postais, telegramas), acumular fotografias, montar bibliotecas, preservar objetos pessoais. E também a prática do colecionar: revistas, suplementos literários, obras de artes, obras de artesanato. Disso dão testemunho, por exemplo, os álbuns fotográficos de Abgar Renault, registrando sobretudo a trajetória do homem público, ocupado e preocupado com os rumos da educação no país; a correspondência de Henriqueta Lisboa, evidenciando uma rede de relações literárias e afinidades intelectuais e afetivas; a coleção de peças de artesanato popular, de Oswaldo França Júnior, figurando nádegas femininas e cenas eróticas; a coleção do Suplemento Literário de Murilo Rubião, sua biblioteca pessoal. Este talvez o escritor mais atacado pela prática arquivística, marcada pelo rigor na ordenação e classificação dos materiais, pelo cuidado com sua conservação e preservação, como indica seu hábito de colocar capa dura em todos os livros.
Retomando aqueles aspectos apontados por Philippe Artières na constituição de arquivos pessoais, gostaria de assinalar algumas semelhanças e diferenças no caso dos escritores mineiros, dos arquivos literários. As práticas de arquivamento dos escritores, menos que fruto de uma injunção meramente social, resultam de uma rede de relações literárias e afinidades intelectuais na qual se inscrevem. Revelam um cuidado com a memória do escritor, com sua formação intelectual, que vai possibilitar a construção de sua imagem enquanto autor significativo. Ao arquivar correspondências de amigos e críticos que tratam de seus textos, artigos em jornais contendo críticas sobre seus livros, o escritor preserva uma fonte inesgotável de paratextos, que ajudam a entender a produção e recepção de sua obra.
Mas importa anotar uma diferença, a meu ver, no caso dos nossos escritores: na tarefa com que se põem a arquivar, percebe-se como que um ganho de prazer, como se pode apreender da correspondência entre Drummond e Abgar. Talvez isso se explique pelo importância que o outro assume no processo, evidenciando se tratar a prática arquivística desses escritores de uma ação compartilhada. Esse olhar de outrem que perpassa a construção dos arquivos literários destaca o papel do destinatário, ao zelar pelas memórias e lembranças alheias, suplementando a memória do outro. Indica que os arquivos dos escritores tendem a extrapolar o domínio do propriamente privado, ganhando a cena pública e solicitando a atenção de leitores e pesquisadores. Pesquisadores estes aos quais, como destinatários virtuais dos arquivos literários, caberá continuar cuidando da memória do escritor, preservando sua obra e vivendo uma memória vicária.
Nessa direção, pode-se afirmar que está presente no arquivamento do escritor uma clara intenção autobiográfica, voltada especialmente para os aspectos intelectuais e culturais de sua trajetória de vida. Ao recorrer a múltiplas e incessantes práticas de arquivo, ele parece manifestar o desejo de distanciar-se de si mesmo, tornando-se um personagem — o autor. O que permite compor outra imagem de si, neutralizando de certa maneira o eu biográfico, sua precariedade e imprevisibilidade. Arquivando, o escritor deseja escrever o livro da própria vida, da sua formação intelectual; quer testemunhar, se insurgir contra a ordem das coisas, afirmando o valor cultural dos arquivos. Mas como é impossível arquivar nossas vidas de uma vez por todas, e em sua totalidade, os arquivos apresentam um caráter lacunar, de inacabamento. Conservando seus papéis e documentos, funcionam como suplementos da memória e da obra do escritor. Com seu poder de rasurar, intervir, modificar e suplementar, afirmam o caráter também inacabado não somente de sua autobiografia, mas também da obra do escritor, problematizando a noção de texto último, definitivo.
Ao recorrer a práticas inúmeras de arquivamento de seus papéis, documentos e materiais, organizando-os e intencionando-os de certo modo, o escritor realiza uma segunda operação inerente à primeira: ele também se arquiva. Vale dizer, ele se desvencilha da natureza evanescente da experiência cotidiana, escapa do fluxo incessante e imprevisível do tempo presente; estanca-o, ao intervir e articular o seu passado. Torna o seu passado significativo, em termos de sua formação como escritor, ao selecionar e preservar certos detalhes, passagens, acontecimentos, atestados por um documento, um registro qualquer. Afirma-se como ausência no mundo visível, do presente, e como presença no mundo invisível, do passado. Desvencilha-se do presente, a fim de se perpetuar no passado, pela memória. Como alguém digno de vir a ser lembrado pela obra literária e intelectual que construiu. Ao se arquivar, o escritor manifesta o desejo de vencer o tempo, permanecendo na memória de um povo ou de um país. Confronta-se, enfrentando à sua maneira, com aquele “mal de arquivo”, aquela força destruidora de todo arquivo, que Derrida identifica com a pulsão de morte[7].
Arquivando-se, o escritor procura estabelecer nexos e conexões não apenas com seu passado pessoal, mas com o passado de toda sua comunidade. Sugere possibilidades para sua representação e conhecimento. E talvez o faça por desconfiar que a natureza do passado não seja nada transparente; ao contrário, é opaca. Uma história de vida não se dá de forma linear e progressiva no tempo, como sucessão harmônica e natural de momentos, fases; é marcada, antes, por descontinuidades e rupturas. Nesse sentido, como forma de intervenção e articulação do passado, de construção da memória, os arquivos dos escritores são marcados pelo artifício, por uma intencionalidade.
Trata-se de um passado, de uma memória que atuam no presente, pavoneando o imaginário do escritor. A propósito, lembro aqui que Murilo Rubião mantinha em seu escritório, bem à vista, uma foto de seu batizado, em que se vê ele ainda bebê com sua roupa branca de batismo. Essa indumentária, ele preservou cuidadosamente e se encontra também no seu acervo.
Assim, os arquivos literários resultam do cruzamento daqueles princípios examinados por Derrida em sua descrição arqueológica da própria noção do “arquivo”, ao tomá-la a partir da sua raiz grega — Arkhê. Um princípio topológico, de natureza física, relativo a começo e que remete ao lugar, ao suporte do arquivo; e um princípio nomológico, da lei, relativo a comando, implicando um direito, exercício de autoridade[8]. No caso dos arquivos literários, cabe destacar, quanto ao aspecto topológico, uma operação de localização, de domiciliação, em que a casa, a morada do escritor torna-se o depósito/suporte de seu arquivo. Em relação ao segundo aspecto, o nomológico, remete à forma como o escritor ordena, organiza o seu arquivo, revelando uma intencionalidade, garantindo certa autoridade hermenêutica. Outro ponto importante reside naquela passagem — de natureza complexa — do privado ao público apontada anteriormente, em que a casa do escritor torna-se um museu, um arquivo, aberto ao público. Ou em que seu acervo é confiado à guarda de uma instituição pública e de seus arcontes, os guardiões dos arquivos — universidade, centro de memória, de documentação, biblioteca, etc.
* * * *
À guisa de conclusão, queria chamar a atenção para dois aspectos do trabalho do pesquisador de arquivos literários, que se vê freqüentemente desempenhando uma função arcôntica, investido do poder de interpretação desses arquivos[9]. Um primeiro relacionado ao papel do arquivista; o outro, ao caráter transdisciplinar da pesquisa com arquivos.
1) Na busca de informações especializadas junto aos centros de documentação, aos arquivos literários, nos vimos muitas vezes desempenhando, por várias razões, as funções de arquivistas. Por isso precisamos tomar consciência das transformações que estão ocorrendo nesse campo. Cabe destacar aqui a passagem de uma compreensão moderna do trabalho arquivístico para uma compreensão pós-moderna. Conforme evidenciou Terry Cook[10], a visão moderna atribuía à atuação do arquivista uma função de neutralidade e imparcialidade, tendo em vista o princípio de respeito à proveniência dos fundos e à ordem original, capaz de preservar o contexto da criação do documento. Tal função estava ligada a uma perspectiva de administração weberiana, mono-hierárquica e centralizadora. Dentro de tal compreensão, operou-se uma distinção entre arquivos públicos, vistos estes como resultados de uma acumulação natural e orgânica de órgãos da administração pública, enquanto que aqueles seriam de caráter mais artificial e artificioso, construídos por certa intencionalidade de seus organizadores.
Ocorre que, com o desenvolvimento da informática, dos arquivos eletrônicos, das novas formas de organização administrativa, levando à construção de redes hipertextuais de informação, aquela perspectiva mono-hierárquica e centralizadora da modernidade foi substituída por uma perspectiva descentrada e fragmentada de arquivamento da informação e dos documentos, colocando em cheque diversos procedimentos e tradições, como a criação de séries e subséries. Sem um centro hierárquico de controle, o que prevalece é a idéia de função, de navegação e associação na rede hipertextual, caracterizando uma existência de nós e nódulos intercomunicantes de informação.
Mais ainda, com as novas tecnologias eletrônicas de arquivamento, a possibilidade de estocagem de informação tornou-se espantosa. Com isso, ante o número quase infinito de dados, informações e documentos, o trabalho do arquivo não pode mais se reduzir a uma mera manutenção dos fundos. Como bem demonstra Terry Cook, ele deve também selecionar, interpretar e deliberar sobre quais documentos devem ser memorizados, guardados, e quais não. Daí que Cook defenda uma atitude de intervenção ativa do arquivista, deixando de lado a antiga postura de imparcialidade e neutralidade. Assim, o arquivista se torna um “agente de formação da memória”. Cabe a ele desnaturalizar o que se toma como natural, orgânico, desconstruindo a intenção que totalizou um arquivo, e desvelando o seu caráter de universo fragmentário, de artifício, de construção social, numa atitude típica da pós-modernidade, que desconfia do que se presume natural, da verdade absoluta. Dessa forma, para Cook se desfaz a oposição entre arquivistas de arquivos públicos e arquivistas de arquivos pessoais, possibilitando uma visão de trabalho mais integrada, uma vez que ambos criam, conformam, filtram e distorcem os arquivos.
Acho interessante na formulação de Cook o fato de que, na medida em que se rompe com a visão de imparcialidade e neutralidade do trabalho arquivístico, e na medida em que se assuma a dimensão subjetiva e de intervenção do arquivista, seus critérios de seleção, seus procedimentos técnicos de arquivamento possam ser discutidos, debatidos e se tornarem mais transparentes. O que, a meu ver, tornaria o exercício e a construção da memória coletiva, bem como o acesso a ela, mais aberto e democrático.
Por fim, seria importante assinalar, conforme mostrou Renato Janine Ribeiro[11], que se queremos deslocar a história, operando outras análises e interpretações, cabe descontruir a ordem original, a intencionalidade que erigiu os arquivos, afirmando outras possibilidades de ordenamento e de articulação. Tal desconstrução não implica obviamente desfazer a organização original de um acervo, alterar a ordem dos arquivos que a intencionalidade do escritor previamente estabeleceu; deve-se dar antes no âmbito do trabalho do pesquisador, na sua maneira de percorrer e apreender o arquivo, na forma de ler e interpretar seus documentos, seus signos.
2) O trabalho com arquivos e acervos literários exige cada vez mais uma perspectiva transdisciplinar, de colaboração entre diversos saberes. Transdisciplinar tanto no sentido de demandar a confluência de disciplinas afins quanto de um diálogo interartístico. A coexistência, nos acervos literários, de fotos, pinturas e esculturas juntamente com textos verbais poéticos e ficcionais já aponta para um efetivo diálogo entre as artes. Compreender tal diálogo se torna mais fácil se adotamos uma atitude comparatista e transdisciplinar.
Mas há também outras implicações em termos de diálogo entre os saberes que gostaria de apontar brevemente. Uma delas diz respeito à interface entre a pesquisa em acervos e a arquivística. Como pesquisadores de arquivos literários, devemos nos interessar mais pelos problemas dos arquivos pessoais, dialogando e interagindo com os arquivistas. Muitas vezes nos surpreendemos agindo como eles, selecionando quais documentos e materiais serão arquivados e farão parte da memória cultural e literária. Somos também importantes agentes formadores da memória.
Outra interface importante se dá com os especialistas da informática, da computação. A difusão digital de acervos literários passa necessariamente por uma aproximação produtiva entre pesquisadores da literatura e webmasters, por exemplo. É o que estamos experimentando, nesse momento, com a construção do site da Henriqueta Lisboa na Internet.
O cuidado com a preservação dos arquivos dos escritores implica ainda um diálogo com os especialistas da conservação preventiva. Ao manejar documentos valiosos, não podemos continuar ignorando os perigos decorrentes de danificações decorrentes de agentes químicos, de umidade, de iluminação inadequada etc.
Também o intercâmbio de experiências com os historiadores e sociólogos, com profissionais ligados aos arquivos históricos e centros de documentação, se faz desejável. Isso possibilitaria uma boa discussão sobre a questão do contexto histórico e cultural dos documentos, sobre os problemas atinentes à memória social. Esse trânsito entre os saberes, que proponho aqui, certamente aumentará as nossas possibilidades de exploração e uso dos acervos literários, intensificando os prazeres do arquivo. Mais ainda, minimizaria os problemas decorrentes de uma formação ainda deficiente de muitos profissionais que lidam com arquivos em nosso país. Sobretudo num momento em que se prega uma intervenção mais efetiva dos arquivistas.
Texto publicado em SOUZA, Eneida M. de, MIRANDA, Wander M. (Org.). Arquivos literárias. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. p.141-156.
[1] As cartas aqui mencionadas fazem parte dos arquivos de Abgar Renault e Carlos Drummond de Andrade, sob a guarda do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Atualmente, com apoio do CNPq, estamos trabalhando na organização da correspondência recíproca entre os dois escritores com vistas a uma futura publicação.
[2] Henriqueta Lisboa: poesia traduzida. Organização, introdução e notas Reinaldo Marques, Maria Eneida Victor Farias. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.
[3] ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. In Estudos Históricos: Arquivos Pessoais,
Rio de Janeiro, vol. 11, n. 21, p.9-34, 1998.
[4] Idem. p.12.
[5] Idem. p.11.
[6] Cf. CANDIDO, Antonio. Poesia e ficção na autobiografía. In A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987. p.51-69.
[7] Cf. DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001. p.23.
[8] Idem. p.11-14.
[9] Cf. Idem.
[10] COOK, Terry. Arquivos pessoais e arquivos institucionais: para um entendimento arquivístico comum da formação da memória em um mundo pós-moderno. In Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 11, n. 21, 1998, p. 129-149.
[11] RIBIEIRO, Renato Janine. Memórias de si ou... In Estudos históricos: Arquivos Pessoais. p. 40.