HENRIQUETA LISBOA: TRADUÇÃO E MEDIAÇÃO CULTURAL*
Reinaldo Marques**
Releituras, reavaliações,
redescobertas, novos enfoques. São esses os procedimentos a que nos convidam as
atividades desenvolvidas por ocasião do centenário de nascimento de Henriqueta
Lisboa – exposição, (re)lançamento de livros e cds, eventos acadêmicos,
homenagens. Importa ativar, sobretudo, uma memória crítica, capaz de projetar
novas luzes sobre a poesia da poeta mineira. Capaz de surpreender o apelo da
contemporaneidade presente no seu trabalho intelectual multifacetado: de poeta,
de crítica e ensaísta, de tradutora e de professora de literatura. Nesse
sentido, gostaria de retomar o trabalho da tradução em Henriqueta (Marques,
2001), para acentuar sucintamente o seu papel de mediador cultural. Para tanto,
de início, visito a biografia de Henriqueta, recorto alguns momentos de sua
trajetória intelectual, para aí apreender as possibilidades e limites de sua
atuação como mediadora.
I.
Belo
Horizonte, setembro de 1943. Poeta já consagrada e morando no Brasil desde
1939, onde representa o governo de seu país, Gabriela Mistral desembarca,
do carro, na estação Central da capital mineira. Uma comitiva de intelectuais
e autoridades locais está a postos para lhe dar as boas vindas. Henriqueta
Lisboa, à frente, cumprindo o papel de
São
onze dias de festa para o mundo intelectual, artístico e pedagógico de Belo
Horizonte, confessa Henriqueta em depoimento contido em antologia de poemas de
Gabriela Mistral por ela traduzidos (Mistral, 1969). Gabriela pronuncia duas
conferências no Instituto de Educação: uma sobre o Chile e a outra, sobre O
menino poeta, livro de Henriqueta ainda no prelo. Rodeada de poetas e
professores, ela conhece a Pampulha recém inaugurada e aprecia suas obras de
arte. Uma noite visita o cassino, mas sem entrar na sala de jogos. A convite de
Aires da Mata Machado Filho, vai ao alto do Cruzeiro, de onde pôde apreciar uma
maravilhosa vista da cidade, marco da modernidade em Minas. Não sem antes
relutar contra o desperdício de gasolina, então racionada.
São
dias também de convívio intenso, de fortalecimento de uma relação pessoal e
intelectual que começara por volta de 1940, ano em que Henriqueta conhecera
Gabriela numa sessão da Academia Carioca de Letras, no Rio de Janeiro. As
poetas trocam impressões de leituras, falam da poesia, discutem filosofia,
tratam das questões da guerra, que tanto acabrunhavam a amiga chilena. Trocam
livros e dicas de leitura: Henriqueta lhe fala de Valéry; Gabriela lhe
recomenda Claudel. Atravessa esse diálogo a amizade comum por Mário de Andrade.
Ao se despedir de Belo Horizonte, Gabriela promete voltar. O que não acontece.
Mas intensificam-se as cartas trocadas, as de Gabriela preservadas por
Henriqueta em seu arquivo de correspondências, hoje no Acervo de Escritores
Mineiros da UFMG. E numa delas, sem data, depois de lamentar a pouca circulação
de seus livros no país, suas dificuldades com a ditadura do Estado Novo,
Gabriela confessa: “Yo nunca fué persona grata en Brasil. Minas
fué para mí otro mundo y lo recuerdo bien.”
Gostaria de destacar nesse episódio da visita de Gabriela Mistral a
Belo Horizonte, o papel mediador de Henriqueta Lisboa, colocando em contacto a
intelectualidade mineira da época com uma escritora de renome internacional,
propiciando um diálogo cultural para além das fronteiras nacionais, integrando
Chile e Brasil, o Brasil e o mundo. Mediação possível, cabe ressaltar, em
função da mobilidade espacial, do deslocamento propiciado pela viagem,
possibilitando o encontro delas e de suas realidades locais.Como intelectuais e
agentes da transculturação no âmbito da modernidade, tanto Henriqueta quanto
Gabriela experimentam o complexo processo das trocas interculturais.
A experiência do deslocamento
espacial, propiciado particularmente pelas viagens, – tanto reais quanto
imaginárias, vale lembrar –, está presente na vida de Henriqueta. Filha de
classe média, ela nasce em 1901 na cidade de Lambari, sul de Minas, onde faz
seu curso primário; já o curso normal, ela o fará no Colégio Sion de Campanha,
como aluna interna. Neste colégio, pertencente a uma congregação de freiras
francesas, estudará os clássicos da língua portuguesa e francesa. Em 1924
muda-se com a família para o Rio de Janeiro, onde o pai, João Lisboa, exercerá
o cargo de deputado federal. Mais tarde, em 1935, muda-se novamente com a
família para Belo Horizonte, dado que o pai fora eleito membro da Constituinte
Mineira. Nesse mesmo ano Henriqueta é nomeada inspetora federal de ensino
secundário. E conta com dois livros de poesia já publicados: Fogo fátuo (1925)
e Enternecimento (1929). Com este último recebe o Prêmio de Poesia Olavo
Bilac, da Academia Brasileira de Letras.
Essa mobilidade espacial
desdobrar-se-á também na mobilidade lingüística, culminando num fecundo
trabalho de tradução, que testemunha a presença em Henriqueta de uma profunda
atenção ao outro, à alteridade, ao diferente. Trata-se de uma forma de
deslocamento ainda, cujos sinais podem ser percebidos na infância da poeta de
Pousada do ser. Revelador disso é o seu depoimento “O meu Dante”, em que fala
de sua experiência como leitora e tradutora de Dante (Lisboa, 1969). Relata
Henriqueta que seu primeiro encontro com Dante, mais propriamente um preâmbulo
dantesco, se dá na sua meninice. Das cenas do Inferno chegam-lhe as primeiras
notícias das camadas imigrantes. É que em Lambari, cidade do sul de Minas, era
bastante numerosa a colônia italiana. Assim, se no internato das freiras
francesas de Campanha reinavam Racine e Corneille, em Lambari, pela mediação
das vozes dos migrantes, Henriqueta acede ao universo de Dante, da sua Divina
Comédia.
Mais tarde Henriqueta depara com
uma tradução da Divina Comédia existente na biblioteca de seu pai,
possivelmente do Barão de Villa da Barra, mas que não logrou ler por conta das
difíceis inversões sintáticas, estilísticas. Posteriormente, quando já havia
estudado a língua italiana, faz nova tentativa de ler Dante, com auxílio da
tradução de Machado de Assis de um trecho do Canto XXV do “Inferno”, e da de
Bartolomeu Mitre, em espanhol. Descobre então a força do ritmo de Dante, o
poder escultural de suas imagens, a simetria e a ordem de sua estrutura. Havia
começado pelo “Inferno”, mas enamora-se do “Purgatório”, que considera o clímax
da Divina Comédia.
O ambiente familiar com a
biblioteca do pai, o colégio, as vozes dos migrantes, o estudo e conhecimento
de outras línguas, a leitura dos clássicos franceses e italianos, as viagens e
mudanças – todos esses elementos recortados da biografia de Henriqueta Lisboa,
tratados aqui como biografemas, indiciam as possibilidades de seu papel de
mediador cultural. E preparam o seu trabalho como tradutora.
II.
Como tradutora de poesia, ela
articulará um diálogo intercultural em que as diferenças lingüísticas e
literárias se entrecruzam, se chocam e convivem. Experimenta, de modo intenso,
o fenômeno sócio-cultural da mediação, possível tão somente por conta da
existência das diferenças. São estas que viabilizam as trocas, os intercâmbios
e a comunicação no generalizado processo da interação. Por outro lado, as
diferenças estão atravessadas por questões de poder, pela política, implicando
muitas vezes a presença das contradições. A sociedade moderna e contemporânea,
particularmente nas grandes cidades, caracterizou-se por uma crescente
heterogeneidade sócio-cultural, pela especialização na divisão do trabalho, e
pela diversificação e fragmentação de papéis sociais. Ademais, nela o indivíduo
tornou-se a referência básica, evidenciando-se as relações problemáticas entre
a subjetividade e o meio social. Especialmente porque a construção da
subjetividade resulta do pertencimento e da inserção do indivíduo em diversos
mundos culturais e sociais, da absorção de diferentes códigos e estilos de
vida. Assim, a plasticidade social, a capacidade de lidar com diferentes
códigos, de experimentar diferentes papéis sociais, de atravessar e
flexibilizar fronteiras, constituem pré-requisitos importantes para que
determinados indivíduos possam exercer a função de mediadores (cf. Velho,
Kuschnir, 2001).
Nesse contexto, o intelectual, o
artista e o escritor freqüentemente cumprirão o papel de mediadores
sócio-culturais. Em seu trabalho, deslocam-se, física ou imaginariamente, por
diferentes espaços geográficos e sociais, internos ou externos a certa
sociedade, lidando com variados estilos de vida, manejando diversos códigos
lingüísticos e comunicacionais, cruzando as fronteiras culturais. Nessa
direção, ressalta-se o trabalho da tradução em seu caráter mediador, porquanto
supõe rasurar as fronteiras lingüísticas e literárias, integrando diferentes
mundos históricos, sociais e culturais. O tradutor opera, desse modo, como
alguém permanentemente em trânsito, situando-se nas margens das línguas e das
culturas. Coloca-as em diálogo, um diálogo marcado mais por tensões e
estranhezas, por descontinuidades e desajustes.
Penso
que Henriqueta Lisboa vivenciou de forma lúcida e agônica esse aspecto mediador
da tradução, conforme testemunha todo o seu trabalho de tradutora de poesia. Um
trabalho que envolvia a leitura, o estudo, a vivência do mundo e da técnica dos
autores a serem traduzidos, conforme demonstram seja os ensaios que escreveu
sobre alguns deles, seja o diálogo epistolar, seja até mesmo a amizade pessoal,
como no caso de Gabriela Mistral. Como leitora, Henriqueta Lisboa freqüentou de
modo mais assíduo a poesia de língua espanhola e a italiana. Traduziu muito
Dante (quatorze cantos do “Purgatório”, da Divina Comédia, e três
sonetos da Vita Nuova) e Gabriela Mistral, poeta chilena ganhadora do
Prêmio Nobel de Literatura em 1945. Desta traduziu um total de sessenta e um
poemas e sete textos em forma de prosa poética, que constituíram a antologia Poemas escolhidos de Gabriela Mistral,
edição organizada pela própria Henriqueta Lisboa e publicada pela Editora Delta
(Rio de Janeiro, 1969). Além de Dante e Mistral, a poeta mineira transcriou em
português vários outros poemas de língua espanhola, tanto de poetas espanhóis,
como Góngora, Lope de Vega, Rosalía de Castro, Joan Maragall e Jorge Guillén,
quanto de hispano-americanos: Delmira Agustini e José Martí. No entanto, em
volume maior, além de Dante e de Giacomo Leopardi, do qual traduziu apenas um
poema, “L’Infinito”, traduzirá textos de outros dois poetas italianos: Giuseppe
Ungaretti (treze poemas) e Cesare Pavese (oito poemas, todos do livro póstumo Verrà la Morte e Avrà i tuoi Occhi).
Além da poesia de línguas italiana e
espanhola, Henriqueta também traduziu dois poemas do alemão, um de Friedrich
Schiller (“Hoffnung”) e um de Ludwig Uhland (“Frühlingslaube”). E mais três
poemas da língua inglesa: “The Arrow and the Song”, de Henry Longfellow; “Ars
Poetica”, de Archibald MacLeish; e um fragmento do poema “The Apostle”, do
poeta húngaro Sándor Petöfi.
Enquanto tradutora de poesia,
percebe-se que Henriqueta Lisboa lia muito, infatigavelmente, entregue a uma
faina tão própria do intelectual latino-americano. E, borgianamente, operava
recortes na tradição literária, no cânone, instituindo seus precursores.
Elegia, assim, os poetas e textos de sua predileção e que seriam objeto de
tradução. As escolhas dos poetas a serem traduzidos, em Henriqueta, supõem
diversas afinidades. Em Dante, admira o poeta do mundo interior, sua
permanência e modernidade. Em Gabriela Mistral, lhe atrai as ligações entre
poesia e magistério. Num e noutra, também os laços entre religião e poesia. Em
Giuseppe Ungaretti e Jorge Guillén, identifica-se com o alto grau de
consciência sobre o fazer poético.
No ofício de tradutora de poesia,
Henriqueta Lisboa revela-se uma leitora atenta e sagaz dos poetas traduzidos.
Mergulha amorosamente no mundo e na técnica deles; vivencia intimamente cada
poema, cada texto. Mergulho e vivência que a impelem muitas vezes a buscar o
convívio e o diálogo epistolar com os autores traduzidos, quando possível.
Desse movimento dão testemunho quer os ensaios críticos que elaborou sobre
alguns dos autores traduzidos, quer a troca de correspondência com eles, quer
ainda o contato pessoal e de amizade.
Desveladores da intensa atividade
crítica de Henriqueta sobre os poetas eleitos como objeto de sua tradução estão
os ensaios dedicados a Dante, Mistral, Ungaretti e Guillén. Comportam inúmeras
observações sobre o estilo dos autores e o trabalho com a linguagem, sobre suas
predileções temáticas e concepções de poesia. No ensaio “Gabriela Mistral”
(Lisboa, 1955, p.187-191), dedicado
à poeta chilena, Henriqueta aponta o seu paradigma – Santa Teresa – e destaca,
na sua obra poética, o poder de síntese, a firmeza de pensamento e a emoção
sublimada. Recorta ainda dois símbolos bastante sugestivos e representativos de
sua poesia: a pedra e a fruta. A primeira, dotada de peso e densidade, de
resistência e duração, e a segunda, tomada em seu aspecto adstringente, amargo;
ambas simbolizando o Chile e a América Latina para o mundo, como espaços de
resistência e acolhimento.
Quanto a Jorge Guillén, acentua a
lucidez de sua poesia, marcada pela lei do equilíbrio estático, pelo domínio da
inteligência sobre a inspiração. Uma poesia que valoriza a metáfora, tornando o
abstrato em concreto, e testemunha a alegria de viver e a fidelidade ao instante
(Lisboa, 1955, p.193-198). Já no
ensaio “A poesia de Ungaretti” (Lisboa, 1968, p.135-143), Henriqueta apreende algumas das
características mais significativas da poética ungarettiana: a valorização da
palavra pelo silêncio; o poder de condensação e síntese, visível no recurso à
metáfora-imagem; o ritmo como força propulsora de seu verso; o desdém pela
ordem sintática tradicional e o abandono da rima. Salienta ainda, no poeta
italiano, a convergência de paixão e lucidez, bem como sua visão cristã e católica
da existência.
Vê-se, assim que Henriqueta, em seu
ofício de tradutora, transitou por diversas línguas, literaturas e culturas,
desempenhando o papel de mediador cultural. Trabalho por meio do qual procurava
salvar para a língua portuguesa a poesia de autores clássicos, modernos e
contemporâneos, garantindo-lhes uma “sobrevida” – para se usar um conceito
benjaminiano, próprio de sua concepção da tradução como salvação –, capaz de
atrair para eles a fama e a glória (Benjamin, 1992). Mas, ao transpor para a
língua e literatura brasileira elementos da língua e cultura dos poetas
traduzidos, Henriqueta também inscrevia nestas últimas as marcas da nossa
língua e cultura, na medida em que não abria mão de sua personalidade
artística, não anulava os aspectos criativos na tradução de textos poéticos.
Dessa maneira, como tradutora, a autora de Velário e Flor da morte tensionava os limites das línguas,
experimentando a sua estranheza, ao mesmo tempo em que mobilizava e
desestabilizava as identidades literárias nacionais. Isto porque, se procura
resgatar, de um lado, as marcas identitárias das línguas e literaturas dos
poetas que traduzia, de outro, nelas introjetava elementos da alteridade, da
ordem das diferenças lingüísticas e culturais, alterando-as, tornando-as
estranhas a si mesmas. Com isso, a atividade tradutória de Henriqueta acaba por
problematizar o caráter muitas vezes estático e essencialista das identidades
lingüísticas e literárias, no geral percebidas como circunscritas às fronteiras
geográficas de um estado nacional.
A plasticidade lingüística, a
mobilidade artística e cultural, como a denunciar a natureza esquemática e
artificial das barreiras sociais e culturais, parecem garantir o êxito do papel
mediador de Henriqueta Lisboa nos contatos e trocas interculturais,
especialmente no seu trabalho de tradutora. Trabalho que, não raro, se
transforma num intrincado processo de desnaturalização das fronteiras
lingüísticas e literárias e num convite à comunhão das línguas e literaturas
num patamar superior – similar à noção de uma língua pura, na perspectiva
benjaminiana (Benjamin, 1992). Aqui, pode-se surpreender um traço de
contemporaneidade do trabalho intelectual de Henriqueta. Sobretudo se se leva
em conta o contexto atual da globalização, da busca de integração dos mercados,
com suas assimetrias e contradições, como no caso do Mercosul. Em meados do
século passado, com sua atividade tradutória e à sua maneira, Henriqueta já
contribuía para a integração das literaturas do Cone Sul.
Mais ainda: nessa função de mediador cultural, Henriqueta elabora uma
rede de amizades e afinidades literárias, reais ou imaginárias, como demonstram
o seu apreço pela poesia de Dante e sua relação de amizade pessoal com Gabriela
Mistral. Tanto num quanto noutra podemos encontrar elementos que comprovam a
pertinência dos aspectos aqui apontados, relativos ao papel mediador de
Henriqueta Lisboa como tradutora. Elementos que podem ser encontrados quer nos
ensaios que a poeta mineira escreveu sobre Dante e Gabriela, quer na correspondência
mantida com a poeta chilena e no seu depoimento sobre ela, quer ainda no
diálogo epistolar travado com Edoardo Bizzarri sobre suas traduções do poeta
italiano. É o caso, por exemplo, do problemático recurso aos adjetivos, nas
traduções dos cantos do “Purgatório”; de sua tentativa de apreender na obra de
Mistral elementos representativos de uma identidade chilena, ou
latino-americana, como a pedra e a fruta; de seu papel de anfitriã na visita da
amiga chilena a Belo Horizonte, em setembro de 1943, e de sua atividade de
ensino, como professora de literatura hispano-americana na antiga Faculdade de
Filosofia e Letras Santa Maria, hoje PUC-Minas, e na Escola de Biblioteconomia
da UFMG.
III.
Como conclusão, entendo que o estudo
do papel de mediador cultural desempenhado por Henriqueta Lisboa, sobretudo
como tradutora de poesia, constitui um espaço importante para se pensar a
questão das mediações enquanto lugares de produção dos valores estéticos e
culturais. Pela atividade da tradução, dialogando com intelectuais e poetas,
Henriqueta afirma valores literários e artísticos, privilegiando uma concepção
mais universal, ontológica e metafísica da poesia. Pode-se dizer que procurou
afirmar formas mais estáveis de valor.
Hoje, num mundo globalizado, marcado
pela compressão tempo-espaço, pela interdependência acelerada, pelo encontro
e superposição de diferentes culturas, torna-se discutível a afirmação de
valores universais: éticos ou estéticos. Observa-se a crise do valor em si,
oscilando-se entre a afirmação de formas estáveis e absolutas de valor e o
relativismo, que beira à indiferença. Nesse movimento pendular entre a fixidez
e o jogo, mais que o valor, cabe examinar principalmente os processos de valoração,
as condições de sua própria produtividade. Nesse contexto de transição e crise
em que vivemos, ao lado de certas instâncias tradicionais de reconhecimento
e validação do valor artístico e cultural – particularmente disciplinas especializadas
como a teoria e crítica literárias, a história da arte –, despontam outras,
reguladas pelas leis do mercado, pelo aparato tecnológico, com novas inflexões
de poder. Sem se esquecer de que a reflexão teórico-crítica sobre a literatura,
assim como a própria literatura, constitui também espaços de mediação na produção
de valores estéticos e éticos. Eis algumas razões, portanto, para se pensar
as articulações entre mediações e valores, enfocando-se a atuação de mediadores
culturais como Henriqueta Lisboa, a fim de se pensarem as novas cartografias
do poder cultural.
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*Trabalho
apresentado na PUC-Minas, por ocasião de homenagem a Henriqueta Lisboa, pela
passagem de seu centenário de nascimento, em 2001.
** Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal
de Minas Gerais.
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Referências
bibliográficas
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. Trad. Karlheinz Barck et. al. Rio de Janeiro: Gráfica da UERJ, 1992.
LISBOA, Henriqueta. “Cantos de
Dante”: traduções do “Purgatório”.
São Paulo: Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro de São Paulo, 1969. Caderno n.7, p.7-20.
MISTRAL, Gabriela. Poemas escolhidos de Gabriela Mistral. Trad. Henriqueta Lisboa. Rio de Janeiro: Delta, 1969.
LISBOA, Henriqueta. Convívio poético. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1955.
LISBOA, Henriqueta. Vigília poética.
Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1968.
MARQUES, Reinaldo. Henriqueta Lisboa e o ofício da tradução. In Henriqueta
Lisboa: poesia traduzida. Org.
Reinaldo Marques e Maria Eneida Victor Farias. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 2001.
VELHO, Gilberto, KUSCHNIR, Karina (Org). Mediação, cultura e
política. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.
Texto publicado na revista SCRIPTA –
Revista do Programa de Pós-graduação em Letras e do Centro de Estudos
Luso-afro-brasileiros da PUC-Minas, v. 8, n. 15, p.205-212, 2º sem. 2004.