ACERVOS DO FUTURO

Wander Melo Miranda

 

 

 

            A inauguração de espaço definitivo para o acervo de escritores mineiros pertencente à Faculdade de Letras da UFMG, alocado na Biblioteca Universitária, abre definitivamente um novo campo de estudos literários e culturais na universidade. Os acervos são fruto da generosidade de familiares e amigos que doaram livros, manuscritos, fotos, quadros, mobiliário e objetos pessoais de Henriqueta Lisboa, Murilo Rubião, Oswaldo França Júnior, Cyro dos Anjos, Abgar Renault, Aníbal Machado, Alexandre Eulalio, Octavio Dias Leite, José Oswaldo de Araújo, além da coleção de fotografias de Genevieve Naylor sobre o Brasil e de cartas da escritora portuguesa Ana Hatherly para intelectuais de Minas.

O apoio constante do CNPq e o aporte financeiro da FINEP acrescentaram à generosidade dos doadores a confiança institucional necessária para levar adiante um projeto dessa natureza. Há mais de dez anos um grupo de docentes, alunos e funcionários dedica-se à tarefa de organizar e preservar para as gerações futuras um patrimônio valioso para a memória do país. O novo espaço, além de atender em excelentes condições pesquisadores de várias partes do Brasil e do exterior, funciona como um museu vivo da literatura, aberto à visitação da comunidade em geral, especialmente alunos do ensino médio e fundamental que, por meio de visitas guiadas, poderão entrar diretamente em contato com o ambiente de trabalho dos escritores e com o processo da escrita literária.

Todo ato de preservação de patrimônio cultural relaciona-se à capacidade de mobilização regional e nacional de recursos intelectuais, técnicos e financeiros com vistas ao bem comum. Para tanto, requer-se a elaboração de uma metodologia adequada à pesquisa em fontes primárias, a organização de dados levantados em áreas de interesse específico de trabalhos futuros e em andamento, bem como a análise — a rigor, interminável — do material pesquisado. A consolidação de uma memória literária no Brasil depende de uma perspectiva interdisciplinar de estudo da atuação de certos grupos de escritores e da determinação do papel desempenhado por eles na formação de vertentes diferenciadas da tradição cultural, levando-se em conta seu maior ou menor grau de intervenção na produção literária da atualidade.

Essa perspectiva reveste o trabalho com os acervos de uma premente atualidade que se expressa, ainda, pelo agenciamento de significações suplementares, capazes de estabelecer intervenções pontuais e atividades interpretativas singulares no âmbito do material à disposição do pesquisador. Se atribuir sentido a um “texto” é conecta-lo a outro, é construir um hipertexto, o sentido será sempre móvel, em virtude do caráter variável do hipertexto de cada interpretante – o que importa é a rede de relações estabelecida pela interpretação. Daí a justificativa maior do trabalho em grupo, da pesquisa integrada, pois a função mais relevante do grupo é a de reunir os textos, comentários e anotações, fazendo-os proliferar e alargando suas potencialidades de sentido.

            Ao modelo privilegiado pelas atuais memórias eletrônicas, o da clavis universalis, suscetível de exprimir toda e qualquer linguagem, o trabalho arquivístico assim concebido propõe uma perspectiva de elaboração da diferença cultural, capaz de dar conta de maneira mais eficaz tanto dos movimentos gerais de atribuição de sentido, quanto dos que se constituem no âmbito das particularidades intransferíveis. Sirva de emblema da situação interlocutória postulada o trabalho com o manuscrito de escritores: o manuscrito é dado de arquivo, permanece arquivado, porque sem valor-notícia ou valor-novidade no sistema contemporâneo de troca de informações, no qual o acúmulo tem valor mais forte do que o acumulado. Inserir o manuscrito nesse circuito é instaurar a “lentidão” do tempo histórico da escrita no tempo real da mídia, abrindo novas redes de conexões e novos horizontes de leitura.

É emblemático dessa situação o caso de Proust. Para melhor ressaltar a tessitura da obra literária e o ilimitado da reminiscência, Walter Benjamim refere-se às provas da Recherche, que Proust devolvia ao editor Gallimard sem nenhuma correção gráfica, embora escritas até a margem, totalmente preenchidos os espaços em branco por um novo texto. Resgatar tal procedimento, hoje, diante dos volumes publicados de Proust, ou de qualquer outro escritor, é restituir ao texto sua gestualidade perdida de escritura, sua dinâmica de transformações, acréscimos, subtrações e apropriações. É como se numa ampla rede discursiva cada variante fosse um ponto de inúmeras conexões, um rizoma cuja visibilidade o texto final não deixa entrever.

            O ato de recuperação mnemônica efetuado desloca a noção de texto como produto acabado ou integridade absoluta para a de escrita, entendida enquanto memória espacializada, cujos contornos são fruto não de um sentido pleno ou de uma versão definitiva, mas de um jogo de intensidades, marcado pela força de significação que cada elemento vai adquirindo no conjunto significante que é o texto concluído e, a rigor, nunca terminado. Nesses termos, a gênese textual deriva de articulações e construções lógicas que vão se fazendo après-coup, da perspectiva de uma temporalidade não-linear, anti-evolucionista, expressa por uma mnemotécnica capaz de se traduzir sob a forma de uma organização arquivística.

É para esse ato de recuperação mnemônica do futuro que cada um e todos estão convidados a participar.

 

 

 

Wander Melo Miranda é professor titular de Teoria da Literatura na UFMG e coordenador do Projeto Integrado de Pesquisa Acervo de Escritores Mineiros.