CARTAS DA AMIGA
Eneida
Maria de Souza (UFMG)
A amizade
literária pode ser entendida na sua dupla feição, ora ligada ao relacionamento
afetivo entre escritores, ora imaginada por autores que buscam afinidades entre
o seu fazer literário e o de seus contemporâneos, ou com os que se distanciam
no tempo. A mediação utilizada para que se efetue a aproximação intelectual é a
experiência literária, aliada à necessidade de se cumprirem os rituais exigidos
para a legitimação deste ou daquele escritor. Dentre os rituais de consagração
do autor na modernidade, a correspondência constituiu um veículo eficaz,
sobretudo se está nas mãos de Mário de Andrade, que entendeu ser a troca de
cartas entre intelectuais um salão de bate-papo sobre assuntos literários e
culturais. As lições de poesia eram fornecidas por quem não se limitava à sua
situação de escritor, convertendo-se em guardião de um programa estético que
era necessário preservar.
Em estreita
concordância com o conceito de moderno montava-se o projeto de nacionalização
da idéia de cultura, como signo de uma estética e de um programa político. A
participação do escritor, assim como a de outros colegas de geração no programa
cultural do Ministério de Educação e Saúde, comandado pelo ministro Capanema
durante o governo Vargas, reveste-se de importância para se entender o ciclo de
amizades literárias e políticas criado em torno de um pensamento moderno de
cultura e de nação. A formação de uma rede epistolar entre escritores permitiu
a consolidação não só de uma mitologia andradiana, em que se cultuava a palavra
do escritor como autoridade para se entender a poesia moderna, como a
instauração de um espaço de pesquisa sobre cultura brasileira, protagonizado
pelo interesse de Mário de Andrade pelas manifestações populares nacionais.
Beber no copo dos outros foi uma das atitudes mais freqüentes do escritor na
busca de doações culturais dos colegas, além de se abrir igualmente ao outro
para o diálogo que envolvia um projeto mais coletivo e fraterno. As cartas irão
permitir a composição de esboços de um retrato da amizade filiado ao ideal de
democracia de grande parcela da intelectualidade brasileira da época.
Poucas interlocutoras femininas teve Mário de Andrade, por pertencer a um círculo literário ainda dominado pela presença majoritária de escritores, que limitava a participação da mulher-escritora no espaço público. Dentre as destinatárias das cartas da rua Lopes Chaves, encontra-se Henriqueta Lisboa, uma voz feminina que soube cultivar a conversa epistolar de Mário, além de se impor como voz dissonante à sua proposta nacionalista de poesia, já em fase de superação estética. As cartas da amiga, correspondente ao período de 1940 a 1945, integram, ainda, o princípio de solidariedade cristã exercido pelo escritor, que consiste no amor entre os homens através da força divina, a charitas, que se desdobra na política da amizade, doações e trocas praticadas em torno de interesses pessoais e comunitários. O autor refere-se a poeta como amiga, irmã, "uma asa que me voa para Deus", o lado bom de sua pessoa, "imagem que se cristaliza no Bem", contrastando-se com o lado mau, representado por missivistas ou artistas que pintaram o seu retrato, como Segall, ou as cartas a ele enviadas por Schmidt. Confidencia os fracassos, as inquietações, através de um texto rememorativo, em que discorria sobre a família, as amizades, além de fornecer um testemunho precioso sobre a poética modernista. Resulta daí um dos documentos mais intimistas e sensíveis de Mário, considerando-se que a correspondência entre eles cobriu os cinco últimos anos do escritor.
Em janeiro de 1945, um mês antes de sua morte, dirige-se a Henriqueta Lisboa para comentar sobre o Congresso dos Escritores, a se realizar em São Paulo:
De noite chega a delegação mineira ao Congresso dos Escritores, vou esperar na estação, porque me fiz pertencer à guirlandística Comissão de Recepção, desse tal de Congresso.(...). Meu Deus! Como eu vos agradeço Henriqueta não vir agora! Não é que esteja desculpando os mineiros não: acho que eles praticaram uma grosseria incrível, pior que a dos paulistas, não incluindo você. E arranjarei jeito de dizer isso a eles. Mas eu dou graças de você não estar aqui porque na verdade nunca estaríamos bem comodamente juntos e nós mesmos. Eu terei que viver espatifado em bilhões de sorrisos e ares de familiaridade. Afinal, eu digo isso meio escarninho, mas é de angústia e não desprezo por ninguém. Além dos amigos, vem muita gente que seria bom conhecer, conversar, homenagear si viesse sozinho, noutra ocasião. Mas são perto de 150! Não é possível a gente ser si mesmo pros outros, não há epiderme que agüente. É dessas coisas que a gente desvive, em vez de viver, eu pelo menos. [1]
A ausência de Henriqueta Lisboa nesse Congresso não tem a função de apenas apontar uma discriminação à mulher no meio de um encontro marcadamente masculino. Servirá, contudo, de metáfora para uma reflexão sobre o difícil lugar a ser conquistado pela mulher-intelectual num período em que a tarefa de construção de uma nacionalidade literária se fazia no interior de uma confraria de homens. Henriqueta já havia participado, em 1936, do III Congresso Feminino Nacional, no Rio de Janeiro, como representante da mulher mineira, atividade a ser exercida pela escritora ao longo de sua vida. O espaço público reservado ao debate intelectual estava sendo também almejado pela figura feminina, na luta pelos direitos de cidadania, como o do voto, além da entrada da mulher nas academias literárias. Mas a discriminação feminina, verificada em todos os setores da sociedade brasileira, ainda persistiria por muito tempo.
O Congresso dos Escritores, espaço de congraçamento e de exposição pública, reforçava o contato mundano com a literatura, o diálogo entre homens que se colocavam na missão igualmente política de salvar o país da ditadura de Vargas, graças ao esforço coletivo e a uma forte resistência aos defensores do regime. Nessa hora, Mário sente que é por demais difícil praticar o ritual da doação a cada um em particular, como exercia na conversa epistolar, pois o escritor estará "espatifado em bilhões de sorrisos e ares de familiaridade", "sendo impossível a gente ser si mesmo pros outros". A causa coletiva ignora o ritual das subjetividades e exige a entrega do sujeito na indistinção individual e no espetáculo dedicado à solidariedade literária e política. A correspondência de Mário com Henriqueta Lisboa e outros amigos representa, portanto, um exercício de subjetivação e de cuidado pessoal que se alcança pelo teor virtual de uma conversa a dois. O sujeito se dá aos poucos, repete comentários feitos com outros parceiros, mas no momento em que se dirige a cada um em particular assume um papel de uma troca subjetiva, cultivada cotidianamente. A experiência do Congresso irá permitir a Mário de Andrade revelar o seu lado político e o desejo de ser inteiro nas relações, mesmo que se sentindo "espatifado em bilhões de sorrisos", um comportamento distinto propiciado pelo ritual quase diário da correspondência.
Henriqueta se queixava ainda dos críticos literários que mantinham coluna de rodapé nos jornais, como Álvaro Lins, Guilherme Figueiredo entre outros, que não se interessavam em publicar resenhas sobre os seus livros. Exceção se fazia com as amigas poetas, como Cecília Meireles ou a chilena Gabriela Mistral, interlocutoras de seus textos e colegas de militância. A justificativa para esse silêncio recaía no teor de sua poesia, que não se vinculava a um projeto de ordem social, forte tendência de um período conturbado pelos acontecimentos políticos, além da ausência, segundo ela, de uma imagem de Brasil na sua obra. Tais constatações impediam a percepção de uma estética da autora, que se mostrava alheia ao figurativismo em arte, uma das marcas do projeto nacionalista e modernista de Mário de Andrade.
Consciente das limitações e das preferências pessoais por uma poética da abstração e do não-lugar de sua literatura, Henriqueta utiliza-se, em carta a Mário de Andrade, da expressão de Antonio Candido, em artigo sobre sua obra, "à mulher só é acessível o tom menor". Acrescenta, contudo, a possibilidade de se ter uma terceira modalidade poética, "em que o tom menor aprisione motivos que interessem mais diretamente a coletividade". É necessário ampliar o sentido presente no "tom menor", à luz do distanciamento que a sua obra alcança diante da vertente condoreira e altissonante, ao se abandonar a exploração de temas em tom maiúsculo. O universalismo eloqüente assumido pelos poetas da geração de 1940 afastava-se cada vez mais do lirismo conciso e sofisticado da autora de O menino poeta. Em carta de fevereiro de 1944, Henriqueta assim se dirige ao amigo escritor:
Parece mesmo que os críticos não querem "O menino poeta". Mas também pode ser que algum dia um deles comece a puxar o fio da meada. Nem isso me surpreenderá. Sei que uma cousa é êxito e outra, valor. Só uma graça peço a Deus: que esse silêncio, que eu sinto como aguda ironia, não me atinja o ser moral; que eu possa compreender e admirar sempre mais a obra alheia; que não acuse ninguém. Deve haver uma explicação natural para isso. Você diz que não pertenço às linhas gerais da crítica da poesia nossa, nem dos seus problemas e intenções. Pois é isso. Os meus problemas são até muito humanos, são meus como de todos aqueles que apelam para as forças morais em face da esfinge, quando não logram decifrá-la. Sinto-me criatura de Deus antes de tudo, muito antes de ser brasileira. E com isso não sei se haverá metal brasileiro na minha poesia – Estarei no meio da raça como estrangeira? [2]
Não falta à
poeta a crítica a seus contemporâneos, o que demonstra o grau de acuidade
seletiva, ao lado da vontade de participar ativamente do debate intelectual do
momento. O desabafo em relação aos escritores reforça a sua posição como
"estrangeira" no meio da raça, por não defender uma poesia social ou
seguir à risca os parâmetros poéticos ditados pela poesia de
"circunstância", como assim era denominada a poética do social. A
força do cânone e a imposição por critérios válidos de legitimação social do
escritor passava pelo crivo de um grupo e com isso tornava-se sempre difícil
desconstruir imagens ou reler de forma não canônica o lugar reservado a cada um
no panteão literário. A autora já distinguia o êxito do valor, ao perceber que
a consagração pública se produz por um sistema de regras e convenções que
formam a meada da crítica. Era preciso que um deles começasse a puxar os fios
da meada, os fios de um rígido trançado de valores estabelecidos por uma
confraria literária, fortemente centrada nos valores nacionais e na estética do
cotidiano. ( Manuel Bandeira, em 1961, escreve a Henriqueta Lisboa para se desculpar por ter
se esquecido de seu nome na Apresentação
da poesia brasileira, apesar de considerá-la uma das maiores poetas do
Brasil. [3]
Vinte anos após o Congresso não foram suficientes para impedir descuidos dessa
natureza e atos falhos cometidos pelo poeta) [4]
Em carta a Drummond, de 11 de fevereiro de 1945, Mário compõe simultaneamente o retrato dos amigos ao lado do seu, ao mostrar a diferença de uma possível visita feita à sua casa por Henriqueta ou pelo poeta mineiro. À poeta é dada a intimidade da sala de jantar, do convite para o almoço, enfim, o acesso ao espaço doméstico comportado e bom, com a presença da mãe. Ao amigo, a liberdade do espaço da rua, da conversa de homem para homem, da integração especular entre dois poetas que se respeitam e se entendem. A intimidade da casa, aberta a Drummond, tem a cumplicidade do olhar distanciado da mãe e restringe-se à sala de trabalho, assim como o teor das cartas endereçadas ao amigo se distingue daquele presente nas cartas a Henriqueta. A relação mais afetuosa e familiar que une Mário à amiga se afasta da ligação mais viril e intelectual que existia entre os dois poetas.
Tantas e tantas coisas. Estou esperando neste momento a Henriqueta Lisboa que vem almoçar aqui em casa. Quando você viria? ... Aliás, penso que você eu não convidava para almoçar aqui em casa, como nunca convidei o Manuel. Prefiro mostrar os milagres de São Paulo, as boîtes francesas, os mosqueiros italianos. Mas a Henriqueta é tão tênue, tem tamanhas restrições na comida que prefiro assim. Você eu queria que, primeiro, dissesse bom dia a mamãe, e depois vínhamos para esta sala de trabalho, gosto dela, sabe, é o meu retrato alindado, como os dos fotógrafos, parece comigo mas é cem vezes mais bonita. Mas não é feita para inglês ver, se vive nela, e ficávamos assim no largado que fazer da intimidade. [5]
Em 10 de março de 1943, Mário de Andrade dirige-se a Henriqueta para reforçar a sua escolha poética, aconselhando-a não se abalar com a indiferença ou o perigo dos outros dela se afastarem, em virtude da direção que os seus poemas novos estavam tomando, na busca por valores eternos. Evoca a afeição gratuita que um sente pelo outro, "a gratuidade do favor de amigos", confessando-lhe que os "Poemas da amiga", escritos antes de conhecê-la, nos anos 30, e dedicados a Jorge de Lima, pertenciam daquele momento em diante a ela. A troca de dedicatória legitima e atualiza uma amizade, pela doação de um livro de poemas que funciona como selo de uma relação literária alimentada pelas palavras e cultivada como promessa futura. Mário assume a diferença de propósito estético entre eles como inferior ao sentimento de amizade, que luta com a sombra da alteridade e se vale do estranho como o outro dentro de si próprio. [6]
Uma das estrofes do poema, "Gosto de estar a teu lado/Sem brilho./ Tua presença é uma carne de peixe,/ De resistência mansa e um branco/ Ecoando azuis profundos.", [7] poderia talvez metaforizar a permanência, pela escrita, de um relacionamento intelectual vivido como se fosse um romance epistolar: atravessando o tempo e resultando na entrega de dons imaginários que o leitor de hoje tem o privilégio de colher.
[1] ANDRADE, Mário de. Querida Henriqueta. Cartas de Mário de Andrade a Henriqueta Lisboa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990. Edição organizada por Abigail de Carvalho. Introdução, notas e estabelecimento do texto por Padre Palu. p. 173-174.
[2] LISBOA, Henriqueta. Cartas de Henriqueta Lisboa para Mário de Andrade, Belo Horizonte, 20 de fevereiro de 1944. Texto inédito. Arquivo Mário de Andrade. IEB/USP.
[3] Carta de Manuel Bandeira para Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, 28 de set. de 1961. Acervo de Escritores Mineiros. CEL/UFMG.
[4] Estou agora atacando o novíssimo livro com angustiosas perguntas sobre a realidade poética. Num momento de grande humildade e audácia não experimentada. Procurando conciliar uma e outra cousa. Momento de aceitação e rebeldia. Rebeldia que me impede a focalizar o que está fora do nosso alcance, aceitação que me propõe um trabalho de acabamento, purificação e transfiguração do real. Aceitação que, sobretudo, me fala da ineficácia dessa rebeldia em que se têm perdido tantos poetas, descaminhados na estratosfera da filosofia...Essa pretensão é quase sempre fatal no poeta, representa, não há dúvida, o nosso espírito, a nossa superioridade, mas oferece à poesia um dos maiores perigos, agora é que eu vejo bem. Você me fez ver isso, que a maioria dos nossos poetas não vê. E que alguns vêem demasiadamente: os que apenas acabam, purificam e transfiguram o real, mas, não se completam a si mesmos. Eu não queria desgostar você dizendo – e tomo o exemplo mais alto – que Manuel Bandeira é o poeta que não se completou a si mesmo. A ninguém mais o diria, porque me parece uma injustiça ferir exatamente aquele que tanto nos tem dado. – Por outro lado, aqueles que querem transcender a si próprios nos reinos filosóficos perdem contato com a substância artística: Tasso da Silveira, tipo clássico, só permitindo certa beleza ideal, Murilo Mendes ultramoderno, querendo emprestar aos sentidos uma função sobre- natural, Alphonsus Filho arrastado pela força de uma inspiração que ele não sabe deter, tantos outros! Foge a essas observações a poesia do Schmidt que é geralmente pura mas que se prejudica pela abundância, a origem é pura – vinho doce – mas vem muitas vezes misturado com água esse vinho. LISBOA, Henriqueta. Cartas de Henriqueta para Mário de Andrade, Belo Horizonte, 7 de março de 1943. Texto inédito. Arquivo Mário de Andrade. IEB/USP.
[5] ANDRADE, Mário de. A lição do amigo. Cartas de Mário da Andrade a Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982. P. 215-216.
[6] "Nada
impede, Henriqueta, nada impedirá mais aquela atração divinatória, aquela
escolha muito pouco livre com que nós nos encontramos. E você me perdoou e eu
adorei você - e hoje nós nos amamos com a maior densidade e a maior gratuidade
do favor de amigos. Hoje eu sinto que os meus "Poemas da Amiga"
feitos antes de conhecer você, nascidos de experiências com amigas várias,
amizades de menor consistência e por vezes intuições de experiências que não
existiram, hoje eu sinto que eles são exclusivamente seus e eles foram escritos
para você. Eu não creio mais que mesmo uma exclusividade mística da sua poesia
nova possa ser entre nós um motivo sequer de afastamento leve. Nem meu nem
sequer dos que já tiveram força bastante para "escolher" a sua
poesia." ANDRADE, Mário de. Querida
Henriqueta. Cartas de Mário de Andrade a Henriqueta Lisboa. Op. Cit., p. 125.
[7] ANDRADE,
Mário de. Poemas da amiga. In: Mário de
Andrade - Poesias Completas. Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo
Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1987. P. 276-277.