O ENDEREÇO DA ESCRITA

Thais S. Moreira

                                                   

O que pretendemos hoje discutir é como se deu o processo de pesquisa e elaboração do primeiro livro que reúne a correspondência recíproca entre Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade. Isto justifica-se por esta apresentação ser a conclusão da pesquisa  iniciada em meados de 2004 e intitulada “O Discurso da Ausência em Arquivos e Memórias Literários”. Neste primeiro momento, discutimos o valor e as funções desempenhadas pelo arquivo e suas diversas formas de registro e suporte, tais como eletrônicas, escritas, gravadas, digitalizadas, bem como o fato de esse ser um espaço de conservação da memória histórica, política, econômica e particular, como é o caso do Acervo de Escritores Mineiros (AEM), localizado na Biblioteca Central da UFMG. O Acervo, como anteriormente discutimos,  estabelece uma relação viva entre o passado e o presente de modo a perpetuar a vida e a obra dos escritores que nele ressurgem como imortais, situados além do tempo, na memória, e projetam algo que está por vir.

No começo de 2005, demos início a uma pesquisa a respeito dos diversos acontecimentos históricos, literários e políticos ocorridos no período de 1939 a 1945 e mencionados de alguma forma nas cartas trocadas entre os escritores modernistas Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade. Essas cartas

“São textos onde a estilização literária, ou seja, o fingimento, recobre, surrupia, esconde, escamoteia e dramatiza a experiência pessoal, intransferível e íntima, para que a letra perca o diapasão empírico que a conforma no dia-a-dia, e se alce à condição de literatura e a palavra, à condição de universal”[1].

 

Para a produção do livro, em termos contextuais, elaboramos as notas de pé-de-página. Um dos trabalhos realizados, foi um breve estudo da situação do Brasil na década de 40, época marcada por mudanças políticas e econômicas nacionais resultantes dos acontecimentos mundiais, pela modernização dos meios de comunicação e transporte, pelos avanços territoriais e ideológicos com conseqüência das duas Grandes Guerras.

Na tentativa de explicitar esse contexto da escrita das cartas, organizamos as notas de pé-de-página. Este recurso, embora bastante utilizado por exercer diversas funções, não tem sido suficientemente. Isso se evidencia devido às dificuldades que encontramos na pesquisa bibliográfica sobre o tema, o que revelou a importância desta discussão.

Não pretendemos fazer neste trabalho, um estudo histórico das notas de pé-de-página e dos vários trabalhos no texto, por exemplo o itálico e o uso das aspas. Nosso objetivo é apresentar as suas funções e as diferentes modalidades assumidas no texto. Por se tratar da edição de um texto de correspondência, as notas serão devidamente caracterizadas para tal fim.

O texto é cercado por todos os lados. Ele é sinalizado e sua atenção dirigida ao fim de suas páginas. Normalmente, neste espaço situam-se as notas de pé-de-página: “[a] todo instante elas trazem à lembrança aquilo sobre o que o texto se apóia, muletas ou estacas, aduelas: o texto é uma ponte lançada no vazio, do que tem horror; ele teme a queda.”[2] De acordo com Compagnon, as notas desempenham, ainda, função estética, por eliminarem do texto as sobrecargas. Ao serem normalizadas em pequeno corpo conciso, em caixa baixa, colocam em lugares comuns escritores mortos e vivos, cientistas e romancistas. Em relação às notas, o seu texto se converte em metalinguagem, por explicar o que foi enunciado no corpo do texto. A citação e sua referência são equivalentes, por possuírem o mesmo sentido, por serem ambas impressas em lugares diferentes no texto - uma no corpo, a outra no pé-de-página, aquela em caractere grande e esta em caractere pequeno – verifica-se a complementação de uma em outra. Nesta, a substituição das notas pelo texto não altera em nada o seu valor funcional e representativo. Não há razão para que julguemos que determinado trecho do texto deva ser colocado no corpo em oposição a outros que apareceriam no fim da página.

As notas de pé-de-página são recurso muito importante e utilizado nos artigos científicos, textos históricos e literários, em anotações de laboratório e outros textos. Como prática elementar, profissional e intelectual, fornecem suporte empírico para a história e os argumentos apresentados, pois pretendem provar alguma coisa: se determinado texto merece ou não ser explicitado, se o que foi acrescentado esclarece e informa o leitor. Quando citamos, extraímos e recortamos. Toda prática no texto refere-se à citação. A citação é, pois, substância da leitura. Ela possibilita a admiração ou a desaprovação das teses, além da legibilidade e confiabilidade em relação ao sujeito que diz e ao que é dito. Toda citação, de alguma forma, remete-nos a um sujeito, a um texto de outro autor. O enunciado e o sujeito são produtos formados simultaneamente na enunciação. Ao pensarmos na citação, qual seria o  sujeito, aquele que quer dizer alguma coisa e que requer alguma coisa ao citar? O discurso quer dizer alguma coisa na medida em que aquele que o emite quer alguma coisa ao proferi-lo. Desta forma, o sujeito da citação é derivado da junção de Narciso e de Pilatos, pois ao mesmo tempo em que se refere a discursos e sujeitos externos ao texto, ao denunciá-los, solicita algum reconhecimento.

Ainda em Compagnon, o uso das aspas na citação significa que alguém retoma algum discurso já proferido. Como o autor deixa de enunciar em benefício de um outro, tal uso é uma abdicação de  um direito do autor. As aspas separam os sujeitos enunciadores, operando uma divisão entre o sujeito renunciador e o sujeito enunciador. Elas sugerem que o que cita não é aquele que diz, pois a palavra é dada a outro. Tal recurso sugere-nos a idéia de que esse dito é comum, o autor ao dar lugar a outro, insinua que determinado discurso parece simples, elucidativo e cabe no seu texto. As aspas opõem-se por completo ao uso do itálico. O itálico, por ser realçado, significa que o autor destaca aquilo que não é senso comum. Utilizado nas citações de termos estrangeiros, o itálico, refere-se ao que se diz e o que não foi  traduzido, denotando conhecimento de uma língua que não é a sua.

Segundo Grafton, “[p]ara o não-especialista, as notas de pé-de-página parecem-se com sistemas radiculares profundos, sólidos e imóveis; para o connoisseur, entretanto, elas revelam ser formigueiros que pululam de atividade construtiva e bélica”.[3], podendo funcionar tanto por omissão quanto por afirmação. Não se referir a determinado autor ou obra pode equivaler a uma afirmação controversa que os leitores perspicazes reconhecerão e decodificarão rapidamente. Dessa maneira, o autor pode vir a ser (re)conhecido dentro de uma pequena comunidade de especialistas e falantes do idioma nativo e historiadores.

Para o público externo, as notas parecerão puramente informativas. As notas de pé-de-página, às vezes, parecem-se obscuras, ineficientes e desnecessárias ou, até mesmo, o oposto disso. Os efeitos por elas provocados dependem em grande parte do leitor e dos conhecimentos construídos anteriormente por ele. Mas elas são necessárias para o entendimento do texto.

As informações apresentadas na nota de pé-de-página são escolhidas e preparadas, na maioria das vezes, pelo escritor. Essas informações dizem respeito a pessoas, personagens, lugares, obras, datas, acontecimentos, discursos emitidos por outrem ou por si mesmo em diferentes ocasiões, entre outros. Elas não variam somente quanto ao estilo, mas também quanto às condições de produção. Além disso, variam tão amplamente por sua natureza e conteúdo quanto por qualquer outra prática científica ou tecnológica. Cada uma delas estabelece uma relação orgânica com a comunidade na qual foi gerada. Esta relação, por sua vez, não é menos importante à relação anteriormente firmada entre a nota per se e os leitores da mesma.

Ao tomarmos como exemplo uma nota de pé-de-página, dos escritores até suas fontes, podemos descobrir mais do que se poderia imaginar sobre objetos humanos e as relações que mantêm entre si ou com terceiros. Na primeira nota pertencente à carta que firma a comunicação, por meio da correspondência, entre Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade, datada de 12 de novembro de 1939, foi elaborada da seguinte maneira:

1) Henriqueta Lisboa participava da União Universitária Feminina. A autodenominação de HL para a “Dona Ausente” refere-se à conferência proferida por Mário de Andrade no Conservatório de Música, em Belo Horizonte, intitulada "O seqüestro da Dona Ausente”, em novembro de 1939, a convite do Diretório Central dos Estudantes. A outra conferência, realizada no Auditório da Escola Normal, "Música de feitiçaria no Brasil", completou a programação do escritor em sua 3ª visita a Belo Horizonte, quando permaneceu por 4 dias (de 11 a 15 de novembro). O conhecimento de HL com MA tem início nesta época, assim como de outros jovens intelectuais mineiros residentes na cidade e que irão também manter correspondência com o escritor: Alphonsus de Guimaraens Filho, Otto Lara Resende, Carlos Castello Branco, Wilson Castello Branco, Murilo Rubião, dentre outros.

 

Essa nota refere-se à justificativa da ausência de Henriqueta Lisboa na palestra ministrada por Mário de Andrade, em uma de suas visitas a Belo Horizonte. Por meio de informações a respeito da vida da escritora mineira, afazeres e responsabilidades, podemos entender suas razões ao não comparecimento. Essa nota elucida a época e o percurso de Mário de Andrade na capital mineira e as conferências que aqui promoveu. Além disso, há uma breve explicação quanto às relações estabelecidas entre esse autor e alguns intelectuais mineiros. Ao citarmos esses grandes nomes, mostramos ao leitor que o modernismo e as diversas correntes artísticas estabeleceram-se de forma articulada. 

A segunda nota, que é uma nota interpretativa, presente na carta de Mário a Henriqueta, no dia 16 de abril de 1940, diz respeito, também, à contextualização. Mas, ao invés de ser, exclusivamente sobre um dos dois autores, é sobre a correspondência propriamente ao considerá-la de modo intrínseco. As cartas da poeta a Mário são reflexo de sua personalidade e, conseqüentemente, parte de sua produção literária.

8) A expressão "irmãzinha de caridade" irá ser repetida em outra carta de MA a HL. A interpretação, aqui, reveste-se de um sentimento carinhoso, pois suas cartas lhe trarão sempre tranqüilidade e repouso. No entanto, o termo será mais tarde usado para convencer HL a se desligar de uma posição ingênua e religiosamente generosa em sua poética.

 

O nosso trabalho de citação nas notas envolveu também a apresentação dos muitos personagens citados ao longo da correspondência. Este procedimento, de certa forma, justifica a presença desses personagens nas determinadas discussões e exposições compartilhadas pelos escritores aqui discutidos, apontando funções desempenhadas e conhecimentos apreendidos. Os correspondentes se manifestavam de forma pessoal, relatando viviam e, assim, impunham-se como sujeitos críticos a respeito dos modos de vida e acontecimentos mundiais.  A respeito da carta de Mário a Henriqueta, no dia 17 de abril de 1940, observamos:

20) Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) correspondeu-se com MA de 1924 até 1945, ano da morte de MA. Embora tenham, pessoalmente, convivido muito pouco, estabeleceu-se entre eles uma amizade permeada por discussões estéticas e profissionais que refletiram em suas produções literárias. Drummond foi escritor modernista de muitos livros importantes para a história literária do país, como: Sentimento do mundo (1940), José (1942) e A rosa do povo (1945). Publicou, em 1982, A lição do amigo, volume de cartas de MA endereçadas ao poeta. Em 2002, foi editada a correspondência recíproca dos dois amigos-poetas, organizada por Silviano Santiago e Lélia Coelho Frota. ANDRADE, Mário de; ANDRADE, Carlos Drummond. Carlos & Mário. Introdução e notas de Silviano Santiago. Organização e pesquisa iconográfica de Lélia Coelho Frota. Rio de Janeiro: Bem-te-vi, 2002.

           

A próxima nota, que faz parte da carta de Henriqueta a Mário, no dia 28 de abril de 1940, é mais um exemplo do que foi dito anteriormente. As cartas trocadas entre esses dois escritores modernistas possuem grande importância literária ao extrapolarem a urgência de comunicação tornando-se textos de potencial artístico. Eram por meio dessas cartas que manifestavam crenças, questionamentos, análises e desejos, dissertavam sobre o que produziam no momento e como tratariam de determinada idéia. As cartas propiciavam discussões intensas e importantes para as decisões pessoais e profissionais desses escritores.

35) HL sente-se agradecida em relação às observações de MH sobre os poemas enviados para apreciação. A crítica de MH é contundente e rigorosa, aponta aspectos passadistas e convencionais de sua poesia. Ao defender os princípios estéticos do modernismo, MA recusa resquícios da poética simbolista em HL, verificáveis no tom religioso, na idealização do cotidiano e no didatismo. 

 

A respeito das próximas duas notas, percebemos que a primeira é uma carta de Mário a Henriqueta, datada de 16 de abril de 1940 e a seguinte, é uma carta de Henriqueta a Mário, é datada de 28 de abril do mesmo ano:

10) HL não conservou o poema com essas características. Em Poesia geral (1929-1983), p. 98-100, há o poema "Viagem", hoje integrante do livro O menino poeta (em cuja primeira edição, de 1943, não apareceu). Nele se lê: "Caminha mais devagar/ó trem, porque tenho medo/de nunca mais lá chegar". Talvez seja a versão que o poema teve.

 

38) MA publica Remate de Males em 1930, pela Editora do Autor. O poema que abre o livro é o conhecido "Eu sou trezentos", que funciona como exemplo da natureza múltipla e do esfacelamento da pessoa do poeta no meio de tantos eus.

 

Essas notas são exemplo de como esse convívio por meio das letras provocou em ambos uma grande mudança de vida, refletindo definitivamente em suas obras. Por meio da correspondência, discutiam questões da poética e das muitas artes nacionais e estrangeiras. As cartas narram alguns dos processos de formação da escrita de cada um deles, principalmente da poeta mineira que, em relação a Mário, se colocava como aprendiz.

            Os critérios para a elaboração e normalização das notas têm como objetivo explicar e explicitar para o leitor de hoje aquilo que nos parece impreciso nas cartas. Para isso, houve correções gramaticais e ortográficas que visam o uso da norma em vigor, pois as cartas são anteriores à última reforma ortográfica nacional, ocorrida em 1971. Em relação à grafia de nomes próprios, foram alteradas segundo o português atual. A pontuação original dos missivistas foi mantida, exceto em casos de erro. Lapsos quanto à concordância, regência, uso e formação das locuções também foram atualizados. Normalizamos as citações, estrangeirismos, referências, entre outros aspectos presentes na correspondência em questão, com o objetivo de facilitar para o nosso leitor o acesso às várias informações. Distinguimos as várias notas do livro e seus muitos autores, dentre elas as notas da edição, as notas de Mário de Andrade e de Henriqueta Lisboa, e as notas de terceiros, como as do Padre Palu, organizador do livro “Querida Henriqueta”, publicado em 1990.

            É perceptível a importância de um estudo sobre a citação e os demais componentes que se relacionam de alguma forma com esse recurso. A relevância das questões que apontamos e discutimos  justifica-se, visto a nossa responsabilidade frente ao que publicaremos e o modo como a publicação se faz.

            A discussão que propomos demonstra as diversas funções desempenhadas pelo texto e, principalmente, por alguns dos caracteres que o compõem, como as muitas formas de citações. Esse artifício textual proporciona ao texto e, por conseqüência, ao leitor, uma breve explicação de muitos aspectos sociais, lingüísticos, culturais, econômicos, históricos e políticos pertencentes a uma outra época e história, que coincide com a nossa apenas por ser parte constituinte da construção do nosso país.

            A apresentação de lugares, datas, eventos, obras e artistas mostra  ao leitor a forma como se efetuava as diferentes relações nesse período. Relações permeadas por discussões e estudos artísticos e políticos em que posicionamentos e posturas éticas eram fundamentais para o estabelecimento do modo de vida de cada um deles.

As notas acrescentadas, tanto as exclusivamente elaboradas quanto as complementares às notas já existentes em publicações anteriores (publicações que apresentavam somente a correspondência de um desses escritores modernistas), mostram ser fundamentais para a compreensão do conteúdo da carta por meio da contextualização dos fatos narrados. As descrições das cartas sobre os diversos acontecimentos, sejam de ordem artística, política ou social, ocasionam interesse ao leitor que se situa em meio à escrita e seus vários sentidos. Daí o título da comunicação ser “O Endereço da Escrita”: as citações e suas várias formas, residência da escrita, ao explicitarem alguns componentes textuais ao leitor, o instiga a responder àquilo que tais notas ainda não foram capazes de responder. Sua leitura o desperta, fazendo dele um pesquisador que, ao compartilhar seu conhecimento prévio com o que apreende nessa leitura, sente-se desafiado a responder àquilo que os escritores desses textos ainda não questionaram.


Referências:

 

COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996

GRAFTON, Anthony. As origens trágicas da erudição: pequeno tratado sobre a nota de pé-de-página. Campinas: Papirus, 1998.

SANTIAGO, Silviano. Carlos & Mário. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2002.

SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso.  Belo Horizonte: UFMG, 1999.



[1] SANTIAGO, Silviano. Carlos & Mário. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2002. p. 7.

[2] COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996. p. 82.

[3] GRAFTON, Anthony. As origens trágicas da erudição: pequeno tratado sobre a nota de pé-de-página. Campinas: Papirus, 1998. p. 20.