|
O fim da Ciência? Luciana Cursino dos Santos*
|
|
Julgo importante ressaltar que grupos de São Paulo, com reconhecido auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), também receberam uma fatia do auxílio individual do CNPq. A Fapesp, segundo o seu próprio diretor científico, José F. Perez, é capaz de financiar a totalidade dos projetos de seu estado e formar os recursos humanos de que necessita, sem ter que enviar alunos para se aperfeiçoarem no exterior. Por outro lado, a UFMG mostrou-se também capaz de captar recursos tão escassos mais de 8% dos 612 projetos aprovados pelo CNPq são da Universidade. Espero que eles injetem ânimo aos pesquisadores da instituição e contribuam para o nosso progresso científico. Em relação à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), nossa agência de fomento, os dados não são animadores, pelo menos até o momento. Apesar de inúmeros projetos já terem sido aprovados alguns há muito mais de um ano os seus respectivos recursos ainda não foram liberados. A Fapemig, porém, pode utilizar-se do argumento da falta de repasse de verbas. Há de se admitir que o conflito entre o presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador Itamar Franco esteja atingindo outros setores do estado e não somente a pesquisa científica mas a falta de recursos da Fapemig é anterior às discórdias entre os governos federal e estadual. A escassez de bolsas de Iniciação Científica e os equivocados critérios de avaliação já vêm de algum tempo. Um exemplo foi a não renovação, no ano passado, da bolsa de iniciação científica de um aluno que teve trabalho selecionado entre os melhores da 8 Semana de Iniciação Científica da UFMG. Será que a comissão avaliadora da Universidade é que estava equivocada? É bem provável que não. Nesse contexto, é importante que algumas questões sejam levantadas: como contribuir para o progresso da Ciência, se a consolidação de novos e pequenos grupos de pesquisa é praticamente vetada? Como entender uma situação em que grupos paulistas recebem recursos de mais de 1 milhão de reais anuais (referentes a um projeto), e ainda conseguem captar mais recursos do CNPq? E, finalmente, como sobreviver numa das melhores universidades do país sem o necessário fomento à pesquisa? Não me refiro ao recebimento de 1 milhão de reais anuais, mas à garantia de recursos para o custeio de insumos básicos, como o sabão usado na lavagem de vidrarias, por exemplo, que há meses está em falta no meu departamento. O editor John Horgan, da revista americana de divulgação científica Scientific American, relatou, em seu livro The end of Science: facing the limits of knowledge in the twilight of the scientific age, o sentimento de arraso dos físicos de partículas, quando, em 1993, o Congresso Americano vetou a construção do acelerador de supercondução, um projeto de bilhões de dólares, já em andamento, que poderia estabelecer o modelo padrão da teoria final da física de partículas. Naquela época, o Prêmio Nobel de Física, Sheldon Glashow, admitiu a possibilidade de, um dia, alguém descobrir um meio de gerar energias de forma relativamente barata. Mas o que os físicos fariam enquanto esse dia não chegasse? A resposta: eles perderiam o seu tempo trabalhando em coisas desinteressantes, até que surgisse algo novo. E à medida que a área se tornasse menos interessante e o financiamento diminuísse, ela deixaria de atrair novos talentos. O físico relata que vários estudantes promissores de pós-graduação abandonaram a Universidade de Harvard para trabalharem em Wall Street. Essa situação não se aplica somente à Física. Ainda há alguns mistérios biológicos por desvendar, como a origem da vida, do sexo e da consciência humana e a cura de doenças como o câncer. Todavia, discordo daqueles que acreditam que só se faz ciência quando aquilo que está sendo desenvolvido deve responder a alguma demanda no mundo exterior. Será que ainda há espaço para busca do conhecimento pelo conhecimento? Acredito que, por parte das agências de fomento, esta resposta seja não. A esperança é de que os alunos promissores pensem diferente, mas conscientes da batalha que precisa ser travada contra o fim desse tipo de ciência.
* Mestranda em Genética do ICB/UFMG |