A iniciação científica como um programa de graduação

Prof. Antônio Emílio Angueth de Araújo*

m interessante artigo publicado na edição 1.301 do BOLETIM (29/11/2000), o professor Carlos Montanari discute o papel da iniciação científica na formação de “cientistas potenciais”. É inegável o papel desse programa acadêmico no despertar dos nossos alunos de graduação para a pesquisa e para a metodologia científica das diversas áreas. É também inegável a excelência da UFMG no desenvolvimento desse programa. Considero, no entanto, que existem certos equívocos conceituais, que, devidamente explicitados e resolvidos, abrem novos horizontes para essa atividade.

Começo por afirmar minha convicção de que a iniciação científica é um programa de graduação. Isso pode parecer óbvio para muitos, mas encerra um dos equívocos a que me referi. Tenho presenciado o desenrolar de atividades de iniciação científica sem qualquer vínculo com a graduação. Ou seja: sem o compromisso de formação do aluno, sem a devida articulação com o conhecimento visto por ele, em sacrifício, às vezes, das próprias atividades do curso. E, principalmente, sem respeitar o ritmo lento que todo real aprendizado requer. Quando membro da Câmara de Graduação, presenciei uma determinada aluna, brilhante bolsista de iniciação científica, com várias publicações internacionais, excluída do seu curso de graduação por tê-lo sacrificado em função de suas atividades “científicas”.

A visão de que a iniciação científica encarrega-se “apenas” de formar cien-tistas não só é equivocada, como também empobrece a própria atividade. Isso é refletido na forma de seu gerenciamento e de seleção de bolsistas.

Podemos estar diante de situações em que nossos estudantes estejam sendo expostos a pesquisas de altíssimo nível sem terem, no entanto, o amadurecimento necessário para tirar proveito dessa oportunidade. Isso causa uma fragmentação do conhecimento, que, por um lado, pode estimular um aprofundamento maior, mas pode também levar ao lado oposto da desejada visão “holística” mencionada no artigo do professor Montanari. Estaríamos falando aqui de uma precoce superespecialização.

A tendência que observo é a de que os alunos de iniciação científica estão sendo recrutados cada vez mais cedo. Em alguns casos, isso pode ser bastante benéfico, mas, no geral, pode prejudicar o processo de formação do aluno. Muitas vezes, determinados estudantes permanecem durante todo o curso de graduação sob a orientação de professores que os recrutaram no segundo e terceiro períodos. Mais tarde, acabam cursando o mestrado e doutorado sempre com o mesmo professor orientador. É possível observar que os alunos são contagiados até pelos tiques nervosos do orientador. Estamos vivendo quase um processo de clonagem intelectual, que considero endógeno e prejudicial.

Um efeito colateral dessa visão da iniciação científica é que ela só atingirá seus objetivos se o bolsista, ao terminar seu curso de graduação, for direto para a pós-graduação. Infelizmente, o próprio CNPq parece corroborar essa visão quando tenta vincular as bolsas de pós-graduação de um programa ao número de bolsistas de ini-ciação científica que migram para os cursos vinculados a ele. Assim, começamos a encarar nossos bolsistas de iniciação científica como nossos futuros alunos de mestrado/doutorado. E o pior, a atividade passa a ser considerada fundamental para que possamos garantir a priori nossos futuros orientandos de pós-graduação.

Parece-me que ainda não descobrimos o quanto é benéfica a atividade de iniciação científica para o aluno que termina a graduação e vai direto para o mercado de trabalho. Com esse mercado cada vez mais complexo, é fundamental que o profissional tenha sido exposto a situações de desafio intelectual, só possibilitado pela pesquisa científica. Além disso, não podemos descartar o imenso prazer intelectual que o contato com o desconhecido proporciona e que deve ser direito de todos os nossos alunos, não só dos mais aptos. Felizmente, a flexibilização curricular está permitindo que os cursos de graduação valorizem essa atividade, mesmo quando desvinculada de programas de bolsas. Isso só, porém, não basta se não mudarmos nossos conceitos.

Termino essa rápida digressão dizendo que reconheço todos os méritos do programa de iniciação científica como formador de nossos mais destacados alunos de pós-graduação. Reconheço também que alunos de pós-graduação oriundos desses programas na graduação apresentam, na média, um grande diferencial em relação aos demais. Gostaria apenas que a dimensão dessa atividade não ofuscasse outras que ela possa ter, no mínimo, tão importantes, não só para nossos alunos, como para a sociedade de um modo geral.

* Professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMG





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Nº 1305 - Ano 27 - 07.02.2001