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Nº 1363 - Ano 28 - 22.08.2002

Dissertação mapeia doença falciforme em Minas

Estudo traz resultados do programa de triagem neotal coordenado
pelo Nupad, o maior do gênero no Brasil

Carla Maia

e cada 1.400 recém-nascidos em Minas Gerais, um possui doença falciforme, a enfermidade genética mais comum no Brasil. Minas é o terceiro estado do país em número de casos da moléstia, ficando atrás apenas da Bahia e do Rio de Janeiro. As conclusões são do professor José Nélio Januário, do departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, que defendeu, no dia 14 de agosto, dissertação de mestrado, que traz resultados da triagem de 1,75 milhão de crianças, 94,5% de todos os nascidos em Minas, no período de março de 1998 a dezembro de 2001.

"Trata-se do primeiro e maior programa do país direcionado à doença falciforme, e o terceiro do mundo, em número de triados", afirma José Nélio Januário. A partir dos resultados obtidos com a triagem, o pesquisador traçou um panorama da distribuição da doença de acordo com as regiões do Estado. O norte e o nordeste mineiro são as regiões com as maiores taxas de incidência. Segundo o professor Januário, esse levantamento será útil para o planejamento estadual de ações de saúde. "Ao identificar os locais de maior ocorrência, é possível focalizar melhor as iniciativas", afirma.

A pesquisa de José Nélio Januário é parte do Programa Estadual de Triagem Neonatal, resultado de parceria entre a Secretaria Estadual de Saúde, o Hemominas e a UFMG, através do Núcleo de Pesquisa e Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina (Nupad), do qual Januário é diretor. O Programa realiza os diagnósticos e registra as incidências de três doenças — falciforme, fenilcetonúria e hipotireoidismo congênito — todas detectadas através do teste do pezinho. Mais de dois milhões de crianças já foram triadas desde 1994. As amostras de sangue são coletadas por equipes das unidades básicas de saúde de 853 municípios mineiros e enviadas por correio ao Nupad, onde são examinadas e catalogadas.


Tratamento gratuito
O trabalho do Nupad, no entanto, não se restringe ao diagnóstico das doenças. As crianças que apresentam a doença falciforme são encaminhadas ao Hemominas, onde recebem tratamento gratuito. "Acompanhamos mais de 800 crianças", afirma Nélio Januário. Segundo o pesquisador, oferecer assistência a essas crianças é fundamental para aumentar suas expectativas de vida. "A doença não tem cura, mas, quanto mais cedo começar o tratamento, maior será o tempo de vida da criança", esclarece.

Segundo ele, antes de serem realizados os testes do pezinho e a triagem, a expectativa de vida de metade dos enfermos não ultrapassava 20 anos. Depois do programa, estima-se que 50% possam viver até os 45 anos. "Buscamos esclarecer as pessoas que moram nos locais de maior incidência, chamando a atenção para os sintomas e as medidas profiláticas", explica o professor. A prevenção baseia-se na administração de penicilina oral e de vacinas anti-bacterianas, para evitar as infecções.

O programa realiza também trabalho de conscientização e orientação das famílias de portadores. "O tratamento envolve consultas regulares ao médico, ainda durante o primeiro ano de vida. Daí a importância da família para garantir sua eficácia", diz José Nélio.

O professor adianta que já está sendo planejada a criação de um Centro de Educação para Doença Falciforme. "O objetivo é criar uma central de informações sobre a doença, que auxilie equipes e profissionais da saúde", afirma. José Nélio alerta também para a necessidade de adoção imediata de uma estratégia nacional com enfoque na adaptação da rede hospitalar, particularmente dos serviços de urgência, para oferecer cuidados clínicos adequados ao doente falciforme, considerando a gravidade de sua condição. "Em Belo Horizonte, apenas três hospitais, incluindo o HC, realizam esse tipo de tratamento", ressalta o professor.


Dissertação: Incidência da doença falciforme em um milhão de nascidos vivos em Minas Gerais
Autor: José Nélio Januário
Orientador: Marcos Borato Viana
Unidade: Faculdade de Medicina
Defesa: 14 de agosto de 2002

Sem cura e desconhecida

Doença genética mais comum no Brasil, a anemia falciforme continua desconhecida e ignorada. É uma doença sem cura, mas as complicações podem ser evitadas se forem detectadas precocemente. No entanto, a falta de preparo médico e de uma política pública voltada ao problema faz com que a maior parte dos diagnósticos seja feita tardiamente, muitas vezes quando a criança já está com a saúde comprometida. A doença é grave e afeta pessoas de ascendência negra, uma vez que está relacionada a um gene dessa etnia. Isso explica a maior incidência da doença na Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais, estados onde a miscigenação foi maior, devido ao grande número de escravos.

A doença falciforme caracteriza-se por uma deformação das hemácias, células sangüíneas responsáveis pelo transporte de oxigênio. Com a alteração na forma, o trânsito das hemácias fica comprometido, o que resulta numa série de complicações, como infecções, má circulação sangüínea, acidentes vasculares, dores nas articulações, febre e crescimento do baço.