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Nº 1456 - Ano 30 - 30.9.2004

 

Boa pra cachorro

Pesquisadores do ICB desenvolvem vacina contra a parvovirose canina

Patrícia Azevedo

ma nova vacina contra a parvovirose baseada na tecnologia do DNA recombinante foi desenvolvida por pesquisadores do ICB e será em breve produzida em escala comercial. Mais segura e eficaz do que a versão atual, que utiliza o virus atenuado, a vacina é um dos produtos elaborados pela UFMG que teve sua tecnologia transferida para o mercado. Em contrato firmado com a Universidade, o Laboratório Hertape poderá produzir e comercializar a vacina.

"Foi uma troca benéfica e serviu como aprendizado. Apesar da tradição da UFMG na área de biotecnologia, seria difícil avançarmos nas pesquisas sem o financiamento do Hertape. Por outro lado, a vacina atende à demanda do laboratório por um imunógeno mais eficiente e seguro", explica a professora Erna Kroon, coordenadora do Laboratório de Vírus do Departamento de Microbiologia e integrante da equipe envolvida no projeto.

Desenvolvidas a partir de 1979, as vacinas contra a parvovirose existentes no mercado apresentam alguns problemas, pois utilizam vírus atenuados para induzir a produção de anticorpos. Devido à gravidade da doença e o fácil contágio, os animais são vacinados logo após o nascimento, entre a sexta e a nona semana de vida. No entanto, como os cães estão em fase de amamentação, os anticorpos presentes no leite da mãe impedem a multiplicação dos vírus atenuados. "Assim, muitos filhotes não desenvolvem sua própria defesa e a eficácia da vacina fica comprometida", afirma Erna Kroon. Outra desvantagem, explica a professora, é o manuseio de gran des quantidades de vírus durante o processo de produção.

Proteínas recombinantes

Em função dessas limitações, o Laboratório Hertape procurou, há cinco anos, a equipe do professor Paulo César Peregrino, que aceitou o desafio de encontrar um novo imunógeno contra a parvovirose. A solução encontrada foi substituir o mecanismo de indução dos anticorpos. Saem os vírus atenuados, entram as proteínas recombinantes. Primeiro, a proteína estrutural do vírus da parvovirose é clonada em plasmídeos*, que são inseridos em determinadas bactérias. Depois de transformada com o plasmídeo, a bactéria passa a reproduzir a proteína estrutural do vírus e induz a geração de anticorpos. "Pelo novo método, a amamentação prejudica menos a imunização, porque não depende da multiplicação do vírus. Dessa forma, o leite materno não reduz a concentração da proteína recombinante, como ocorre na infecção pelo vírus atenuado. Por isso, é uma vacina mais eficiente", explica a professora Erna.

Além de desenvolver o método, a equipe do ICB treinou os profissionais da Hertape e os preparou para produzir a vacina em escala comercial. Os trabalhos já foram concluídos e aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e o primeiro lote da vacina começa a ser fabricado nos laboratórios da Hertape. "Quando for comercializada, a vacina poderá salvar a vida de muitos animais. O vírus da parvovirose é resistente e está presente em grande quantidade na natureza", conclui.

A doença

Os primeiros casos da Parvovirose Canina (CPV) foram registrados em 1978. O agente causador da doença é um vírus que causa a perda da cobertura da parede intestinal e grave desidratação. Sem a cobertura intestinal, bactérias podem passar para o sangue e causar enterite e miocardite. "Em consequência das infecções, a maior parte dos animais não resiste e morre", afirma a professora. Os cães também podem apresentar perda de apetite, depressão e febre. Embora cães de qualquer idade possam ser afetados, a enfermidade é mais freqüente em animais com menos de um ano.

Diferentemente de outros vírus, o parvovírus é estável no meio ambiente e resistente ao calor, detergentes e álcool. Além disso, é transmitido facilmente pelo pêlo ou patas dos cães infectados, contaminando sapatos, roupas e outros objetos. "O vírus é tão resistente que os locais onde ficaram os animais infectados devem ser desinfetados e não podem ser utilizados por seis meses", ressalta Erna Kroon. Como não existe um tratamento que mate o vírus, o melhor método para prevenir a parvovirose é uma vacinação adequada.

* Moléculas circulares duplas de DNA separadas do DNA cromossômico e que geralmente ocorrem em bactérias. Os plasmídeos funcionam como vetores e são ferramentas importantes nos laboratórios de genética e bioquímica, sendo usados para multiplicar ou expressar genes específicos