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Ivan Domingues
As bases da ciência moderna
Régis Gonçalves
Domingues: faces de uma mesma moeda
Foto: Foca Lisboa
ilosofia e ciência podem ser vistas como faces indissociáveis de uma mesma
moeda _ a moeda do conhecimento. A primeira ensinou o homem a pensar
sistematicamente _ o que é também uma característica da ciência _ e a segunda a procurar na experiência a validação do conhecimento obtido.
Disciplina que estuda as relações entre essas duas esferas do saber, a epistemologia agora se vê enriquecida pela contribuição do filósofo e professor da UFMG, Ivan Domingues. Ele acaba de publicar, pelas Edições Loyola, o primeiro tomo de sua Epistemologia das Ciências Humanas , que leva o subtítulo Positivismo e hermenêutica , e enfoca as contribuições de dois clássicos, Émile Durkheim e Max Weber, para a construção do edifício das modernas ciências humanas. Sobre seu trabalho, cujo espectro de interesses abarca filósofos, epistemólogos e cientistas sociais em geral, ele fala nessa entrevista ao BOLETIM.
Qual a relação entre filosofia e ciências humanas e em que consiste a contribuição específica de Émile Durkheim e Max Weber na construção de um paradigma para essas ciências?
A filosofia pode ser considerada a "ciência-mãe" de cujo ventre saíram as ciências empíricas, como a física e a biologia, sendo que a primeira era conhecida à época de Newton como "filosofia natural", expressão que atesta a filiação. Algo parecido ocorrerá com as ciências humanas, a julgar pela política, lingüística e psicologia, que, como a física e a biologia são filhas ingratas que, ao ganharem autonomia, abandonaram a casa materna e não reconhecem mais a ascendência. Entendo que essa é uma boa imagem e tem fundamento histórico. A condição é não esquecermos a matemática, que vai rivalizar com a filosofia nesse papel, bem como um conjunto de disciplinas que mantém com a filosofia uma relação mais oblíqua ou distante, como a economia, a história, a cibernética e as mecânicas, estas duas últimas nascidas da técnica. Quanto às contribuições de Weber e Durkheim, o livro reconhece-lhes toda a importância, ao conferir a ambos as credenciais de heróis-fundadores das ciências humanas. No tocante a Durkheim, mostro que ele toma a biologia como paradigma, instaura o positivismo sociológico e faz da sociologia a disciplina-piloto. No caso de Weber, evidencio que o paradigma é a hermenêutica (esta a grande inovação do livro em relação ao pensador alemão), sem que possamos apontar qual é a disciplina-piloto.
O senhor estabelece uma diferença teórica entre paradigma e modelo. Poderia identificar alguns exemplos nas ciências humanas?
Se me é permitido resumir o que o livro diz sobre o assunto, tomei paradigma do lado da teoria e sublinhei sua assimilação à disciplina (disciplina-piloto ou paradigmática), ao passo que reservei o modelo ao método, ao tomá-lo como ferramenta metodológica. Os exemplos são inúmeros: paradigma da biologia em Durkheim e modelo do totemismo australiano, em que prevalece a idéia de modelo-arquétipo; paradigma da linguagem e modelo da fonologia em Lévi-Strauss; paradigma da psicanálise, na acepção de disciplina-piloto, e modelo das duas tópicas em Freud.
Há quem negue a possibilidade de conferir às ciências humanas um estatuto científico, no sentido do atribuído às ciências físicas, por exemplo. Seus estudos autorizam conclusão semelhante?
Inúmeros pensadores compartilham essa posição, como é o caso de Popper, Granger, Foucault e, no Brasil, José Arthur Giannotti. Foucault talvez tenha sido o autor que escreveu o livro mais brilhante sobre as ciências humanas, porém para impugná-las (de fato, não todas). Meu desafio consistiu em examinar as ciências humanas de dentro, desmontando e remontando seu aparelho teórico-conceitual. Em nenhum momento fui levado a descredenciá-las como ciências. Reconheço que elas são um fato histórico-institucional datado de mais ou menos 100 anos (algumas disciplinas bem mais, como a história), bem como a satisfação de alguns critérios ao examinar seu estatuto científico: a transmissibilidade ou a capacidade de serem ensinadas; o compartilhamento e a reprodutibilidade de métodos; a verificabilidade ou refutabilidade dos argumentos; a compreensibilidade, ao mostrar que as contribuições permitiram um conhecimento acurado de nosso passado histórico, dos processos mentais e lingüísticos, além dos mecanismos organizativo-institucionais das comunidades humanas. Tudo é uma questão de ampliar a visão de ciência e reconhecer que as disciplinas, mesmo nas ciências naturais, apresentam estágios diversos de realização do programa do conhecimento, algumas estando numa fase mais taxinômica ou classificatória (várias disciplinas da biologia), outras em estado mais avançado de axiomatização, não ocorrendo a ninguém desqualificar a morfologia porque empírica e descritiva, nem a astronomia por causa dos grandes erros em seus cálculos.
Como o senhor situa as contribuições à epistemologia das ciências humanas de Karl Marx e Claude Lévi-Strauss, autores a serem estudados no próximo volume da obra?
Marx será tratado nos quadros da dialética, tomando a economia como disciplina-piloto; Lévi-Strauss na extensão do estruturalismo, tomando a antropologia (ou, antes, a etnologia) como tal disciplina.
Livro: Epistemologia das ciências humanas, Tomo I: Posititivismo e hermenêutica, Durkheim e Weber
Autor: Ivan Domingues
Editora: Edições Loyola , 672 páginas
Preço: R$ 67