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Nº 1456 - Ano 30 - 30.9.2004

 

 

Um novo jeito de olhar o Vale

Amana Matos Veloso*

Vale do Jequitinhonha, que ainda carrega o estigma de Vale da Miséria, começa a ficar conhecido como o Vale da Esperança. Graças a um esforço conjunto da população local, poder público, universidades e algumas empresas, várias soluções para os problemas do Jequitinhonha estão sendo desenvolvidas.

Quem nunca foi ao Vale do Jequitinhonha e só o conhece de ouvir falar (geralmente pela imprensa) tende a ficar surpreso ao ser recebido com comida farta numa casa aconchegante. E a hospitalidade das pessoas? Encantadíssima, repeti, muitas vezes, que nunca tinha sido tão bem recebida numa cidade.

O meu destino: Turmalina. O motivo: prestar assessoria de comunicação para a cobertura do Primeiro Encontro de Pesquisadores e Pesquisas do Vale do Jequitinhonha . O seminário aconteceu paralelamente ao 19 o Festival da Canção de Turmalina , o Festur. O eixo das palestras foi a questão ambiental, que também se ligava com o tema do festival: O en-canto das águas .

Discussões sobre a retenção da água das chuvas, a valorização dos saberes locais no desenvolvimento de novas técnicas de agricultura e, inclusive, na criação de novos projetos de pesquisa, permearam todos os temas abordados. Desde as barraginhas implantadas pela Embrapa em municípios do semi-árido às novas técnicas de agricultura desenvolvidas pelo Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica, o CAV. Das potencialidades econômicas da região ao discurso emocionado do integrante da Casa da Cultura de Turmalina, Hugo Jansen, que viu o Festur nascer.

Ao mesmo tempo, crianças e jovens se envolviam na produção de poesias sobre o Vale do Jequitinhonha. Textos que carregavam o mesmo sentimento expresso nas canções de Rubinho do Vale e Paulinho Pedra Azul. Um grupo que, saudoso da oficina de teatro do ano anterior, pediu bis. Seu público-alvo: os que já chegaram à melhor idade ou à juventude acumulada , definições dadas por João André, o oficineiro. Fui em um de seus ensaios, conversei com os seus participantes, me diverti muito com aquelas senhoras (e alguns senhores), que se empenhavam em fazer todo mundo rir.

Já na estrada rumo à cidade, prestei atenção na paisagem natural, não tão natural assim. A vegetação nativa dava lugar a muitas outras árvores, como de eucaliptos. O rio Jequitinhonha era, em grande parte, um só banco de areia. No seminário a que assisti, aprendi muito, não só com os especialistas convidados, mas também com os representantes locais. O melhor método de estudo é esse, ao vivo e a cores. Aprendi que até mesmo o eucalipto, tão condenado na região por consumir muita água, poderia ser cultivado. Bastaria seguir a ordem hierárquica agrícola.

Estando lá, andando sob o sol dos dias turmalinenses, sentindo o frio de suas noites e vivenciando a mobilização das pessoas da cidade, fiquei completamente contagiada. O momento era de troca de saberes, sempre respeitando a produção cultural da localidade e a sua atualização por meio das manifestações ali apresentadas. Naquele instante, ficou nítida a conexão entre o Festur e o seminário.

Sabe-se que nem todas as cidades do Jequitinhonha são iguais. Quando voltei a BH ouvi dizer que "Turmalina é cidade grande" se comparada a outros municípios da região. Ser ou não "cidade grande" não desmerece as pessoas que ali vivem e suas lutas diárias por melhores condições. Não desmerece os oficineiros, palestrantes, organizadores e artistas que pararam a cidade por uma semana. Não desmerece a esperança que cada um alimenta, de um dia a prefeitura não mais ser obrigada a chamar o exército para abastecer bairros com caminhões-pipa. Uma esperança que também quer ver abolida algumas cenas que calam fundo na alma do habitante do Vale: a do prefeito que cata barbeiros para mostrar às autoridades de saúde o problema da doença de Chagas e a dos agricultores que se separam de suas famílias para trabalhar no corte de cana em outro estado.

Após três dias de discussões, o seminário termina e o Festival da Canção é aberto oficialmente. A partir de então, é hora de celebrar a reafirmação da cultura artística regional. As músicas, danças, artesanatos e produções das oficinas são apresentadas ao ar livre, neste que é o festival em praça pública que já realizou o maior número de edições em uma mesma cidade de Minas Gerais.

De volta, eu e meus dois companheiros de trabalho, também estudantes de Comunicação Social, trouxemos textos e releases , entrevistas gravadas, os sons captados para futuros programas de rádio e todo o cansaço de três dias de trabalho intenso. No entanto, dois itens extras e subjetivos são nossos melhores suvenires: a satisfação do dever cumprido e um novo jeito de olhar o Vale.

* Aluna de Comunicação Social da Fafich/ habilitação em Relações Públicas

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