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Nš 1495 - Ano 31
11.08.2005



Um país que se conhece de outros carnavais

Antropóloga propõe abordagem inovadora sobre o papel da festa na formação da sociedade brasileira

Ana Maria Vieira

brigados a freqüentar as festas do calendário cívico e religioso oficiais, os habitantes do Brasil-Colônia que transgredissem essa lei corriam o risco de pagar multa. Parte do dinheiro ia para os cofres do reino, a outra era embolsada pelo delator do faltoso... Essa e outras passagens da história do país parecem relatar mundos imaginários. Mas são fatos reais e reveladores do processo de formação da sociedade brasileira, como atesta a antropóloga Léa Freitas Perez, professora do departamento de Sociologia e Antropologia da Fafich. Ela realiza estudo inovador sobre o tema, por meio do projeto Cartografia das festas em Minas Gerais: por seus viajantes e cronistas, já aprovado pela Fapemig.

"É preciso levar a sério a idéia de que somos o país do Carnaval", reflete a antropóloga. Ela observa que essa noção não se relaciona a juízos de valor. "Quando muito, trata-se de um juízo sociológico, que estabelece conseqüências conceituais de um fenômeno para compreender a sociedade", esclarece a pesquisadora. Revisitando a literatura sobre as festas no país e, em especial os autores István Jancsó e Íris Kantor, Perez revela que, no mundo aparentemente instável do período colonial, eram elas que estabeleciam o ritmo da vida social, dando, inclusive, uma ordenação formal à sociedade em formação.

"A existência de um calendário festivo no Novo Mundo", explica a antropóloga, "foi elemento importante no sucesso da colonização, à medida que colaborou na estruturação de regras de orientação e organização da coletividade". Nos grandes espaços daquele novo país, havia também um vazio social, em que a festa atuava como produtora de vínculos, aglutinando pessoas e reestruturando locais de convívio social. Simultaneamente, era a festa que "ensinava", por meio dessa função socializadora e de representações ritualísticas, a posição do súdito na nova hierarquia. "A festa atuou como elemento da tradição que não havia aqui, fundando a própria tradição brasileira", analisa Perez.

Permanências

A permanência de antigas festividades no calendário do Brasil contemporâneo, as características de seus rituais e o enraizamento no gosto popular, são elementos bastante estudados na história da cultura nacional. O sentido de sua permanência, no entanto, pode ser identificado em outros campos de pesquisa. Uma das linhas de reflexão do trabalho de Léa Perez traz à tona a "transposição" da lógica que preside a festa _ e, em especial, a barroca, considerada a festa matriz nacional _, para o cotidiano e a formação do ethos brasileiro. Para a pesquisadora, essa lógica é nada menos que o sentido de carnavalização _ ou de barroquização _ da vida. É ela que comanda a alegria, a festa, a cordialidade à brasileira.

"Esse elemento ajuda a pensar as relações entre público e privado e as hierarquias e o poder no país", diz Léa Perez, esclarecendo que a carnavalização envolve o sentido de inversão, transgressão, ironia, excesso, esbanjamento e ruptura com o cotidiano.

Expressões como "tudo acaba em festa" ou "você sabe com quem está falando?", transgressões a pequenas regras do dia-a-dia, como furar filas e semáforos, além do comportamento exibicionista ou de excessiva cordialidade e intimidade, são traços que denunciam a permanência do ethos da festa no comportamento do brasileiro. Para Léa Perez, o conceito de ethos está relacionado à performance, isto é, ao sentido estético e comportamental de um grupo.

Cartografia das festas em Minas Gerais: por seus viajantes e cronistas deverá ser finalizada em março de 2007. O caráter cartográfico da pesquisa, como esclarece a própria antropóloga, reflete o trabalho de arqueologia e de reconstituição da literatura de viagem. "Realizar uma cartografia de festas remete à metáfora de montagem de dados soltos, oriundos de relatos de viajantes e cronistas, que, não raro, são a única fonte de pesquisa", diz a socióloga, lembrando que reconstituir essa literatura também significa realizar a análise de narrativas marcadas pelo olhar "estranhado" de autores estrangeiros.
Arthur Almeida