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| Nš 1495 - Ano 31 11.08.2005 |
O caminho das plantas
Faculdade de Farmácia recupera informações sobre espécies medicinais nativas da Estrada Real
Ana Paula Ferreira
uando o primeiro homem surgiu sobre a superfície da Terra, as plantas já a habitavam há cerca de 400 milhões de anos. Por isso, é provável que seu uso como recurso terapêutico seja tão antigo quanto o próprio Homo sapiens. No Brasil, a utilização de plantas para cura de enfermidades é anterior à colonização e perdura até os dias atuais. Entretanto, os poucos registros de sua utilização ao longo dos séculos e o surgimento da indústria farmacêutica estão deixando para trás esse valioso conhecimento popular.
Atentos a isso, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Farmácia da UFMG percorreu os cerca de 1.400 quilômetros da Estrada Real, registrando o conhecimento popular sobre plantas medicinais encontradas no caminho. Segundo a coordenadora do projeto, professora Maria das Graças Lins Brandão, o objetivo é recuperar dados sobre espécies vegetais nativas de Minas Gerais, utilizadas na medicina tradicional no passado, e registrar o emprego atual dessas plantas. As informações coletadas serão, posteriormente, publicadas em livro sobre a Estrada Real.
O trabalho partiu dos registros feitos por naturalistas austríacos que estiveram no Brasil e viajaram pela Estrada no início do século 19, a pedido do rei da Áustria em virtude do casamento de sua filha, princesa Leopoldina, com D. Pedro I. Os naturalistas estudaram e documentaram grande parte da fauna e flora da região e levantaram informações importantes sobre sua aplicação.
Trabalho de campo
Com uma lista de 27 espécies de plantas, escolhidas entre as listadas pelos estrangeiros, equipe formada por pesquisadores da UFMG, UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rey) e Fafeid (Faculdades Federais Integradas de Diamantina), pôs o pé na estrada e iniciou o trabalho de campo. Ao chegar em cada um dos 150 municípios visitados, os pesquisadores procuraram identificar as pessoas que, para eles, eram os informantes-chaves do levantamento: curandeiros, raizeiros ou benzedeiros, como são popularmente conhecidos. "São essas pessoas que, tradicionalmente, indicam ou fornecem plantas medicinais para os moradores e, conseqüentemente, podem informar sobre a flora medicinal local e sobre como o conhecimento da medicina popular se manteve", argumenta Maria das Graças.
Plantas como carqueja, barbatimão, imbaúba, fedegoso, aroeira, angico, pau-pereira e sucupira estão entre as espécies encontradas pelos austríacos e ainda usadas pela população local. Outras, como ipeca e jaborandi, também continuam sendo utilizadas, mas não correspondem às espécies descritas no século 19. Segundo a professora Maria das Graças, desmatamentos indiscriminados podem ter eliminado as espécies anteriores, substituídas por outras de ação terapêutica semelhante. "Outro fator que explicaria a troca seria alguma confusão feita durante a transmissão do conhecimento de uma geração para outra", explica.
De acordo com a professora, a medicina popular à base de plantas conseguiu sobreviver graças à transmissão de conhecimentos de pais e avós para filhos e netos. "O convívio entre gerações é a principal forma de transferência", conta.
Patentes
Entretanto, é cada vez mais comum a migração dos jovens para as grandes cidades, dificultando esse contato. "Os filhos saem mais cedo de casa e muitos deles não se interessam em adquirir esse tipo de conhecimento", analisa a coordenadora da pesquisa, ao ressaltar a importância de registros sobre as qualidades e usos da flora medicinal brasileira que, segundo ela, é riquíssima e pouco aproveitada. "O Brasil não explora o potencial terapêutico existente em seu próprio território. Por isso, não espanta a quantidade de patentes estrangeiras obtidas com pesquisas de plantas brasileiras", argumenta.
Segundo a professora Maria das Graças Lins Brandão, as patentes registradas no exterior podem ser revertidas caso fique provado que o uso medicinal das plantas é parte da cultura do país de origem, e um estudo como o desenvolvido com as espécies da Estrada Real pode ajudar nesse processo. Além disso, a pesquisa contribui para a valorização da flora medicinal mineira, definindo estratégias para seu aproveitamento e conservação. "Essa documentação impede que a cultura medicinal popular seja esquecida diante do crescente consumo de medicamentos industrializados", conclui.
Para todos os males Carqueja: combate anemias e doenças do fígado e do estômago Barbatimão: cicatrizante, age contra bactérias, inflamações e úlceras Imbaúba: possui ação diurética, anti-hemorrágica, antidisentérica e antiasmática Fedegoso: produz efeitos analgésicos, anti-sépticos e antiinflamatórios Aroeira: ação antiinflamatória Angico: energético, expectorante e antidisentérico Pau-pereira: exerce ação antitérmica Sucupira: combate problemas de garganta Ipeca: utilizada para tratar doenças respiratórias Jaborandi: diurético, expectorante e estimulante |
A Estrada Real é formada pelos caminhos que, durante o século XVIII e parte do XIX, foram as únicas vias de acesso, autorizadas pela Coroa Portuguesa, à região das reservas auríferas e de diamantes da Capitania de Minas Gerais. Ela começa em Diamantina, sofrendo bifurcação em Ouro Preto. Um caminho vai a Parati, o outro ao Rio de Janeiro. Em suas margens, formaram-se 179 cidades em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. |