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História

Etimologia da palavra trote

A palavra "trote" possui correspondentes em vários idiomas, como trote (espanhol), trotto (italiano), trot (francês), e trotten (alemão). Em todos estes idiomas, e também em português, o termo se refere a uma certa forma de se movimentar dos cavalos, uma andadura média que se situa entre o passo e o galope.

Mas na acepção utilizada aqui, trote é uma expressão tipicamente brasileira, o que não quer dizer que as práticas a que ele se refere sejam uma invenção tupiniquim. Na verdade, o trote faz parte das atividades de recepção dos calouros nas universidades desde muito tempo, os primeiros registros datando da idade média. Mas por entre estes séculos seu significado adquiriu conotações muito diversas.

O trote na idade média

Nas primeiras universidades, surgiu o hábito de separar alunos antigos dos recém ingressos. Aos novatos não era permitido assistirem às aulas no interior das respectivas salas, mas apenas em seus vestíbulos durante um período de adaptação. Daí provavelmente derivam os termos “vestibulando", e vestibular, para designar a situação daqueles que desejam entrar na universidade. Por razões profiláticas, os calouros, sobretudo os de origem rural, tinham as cabeças raspadas e suas roupas muitas vezes eram queimadas. A partir deste momento podiam assistir às aulas na companhia de outros colegas, dentro das salas de aula. Mas para além do objetivo profilático, evitando a disseminação de pestes e insetos como pulgas, carrapatos, etc., esta prática destinava-se a expurgar dos alunos recém-chegados seus traços de ruralidade, introduzindo-os a um mundo novo: a universidade e sua intelectualidade. Tratava-se de fato de um rito de passagem, no qual a transformação da aparência representa simbolicamente uma transformação em essência: os jovens deviam abandonar suas antigas feições camponesas e assumir uma aparência que fosse condizente com os valores daquele novo universo. Era só o início de uma série de mudanças na vida do jovem estudante...

Dura Praxis, Sed Praxis - O trote em Portugal

Os primeiros registros de trote no Brasil datam do século XIX, e vêem pelas mãos de jovens doutores que estudaram na Universidade de Coimbra, em Portugal. O trote nesta Universidade, ou a praxe, como é conhecida, é um conjunto amplo de tradições, usos e costumes acadêmicos, do qual o “goizo ao caloiro” é apenas uma pequena parte e nem sempre reconhecida como oficial.

A praxe sim, é oficialíssima. Trata-se na verdade de um código de conduta, que envolve de horários de estudos ao traje adequado, ao qual os estudantes devem obedecer. Até o séc. XIX, a cada ano letivo,durante o período de novas entradas na Universidade, era instituída uma polícia formada por alunos, cuja hierarquia era definida pelo tempo de entrada dos mesmos na universidade. O papel desta polícia era o de zelar pela ordem no campus, de acordo com o que regia a praxe, sob pena de prisão. Sua criação atendia ao pedido do próprio imperador para acabar com os tumultos entre os estudantes e o restante da população. À estas responsabilidades, misturavam-se a realização de rituais de iniciação (ou "investidas") para os novos alunos, recém-chegados - os caloiros ou "novatos" – à universidade, geralmente envolvendo atos de violência. A estrutura que sustenta a praxe é fortemente hierarquizada – em Coimbra são cerca de 17 categorias que classificam os alunos, dos mais novos chamados bichos aos dux veteranorum. Qualquer semelhança com a expressão “bixo” utilizada no Brasil não há de ser coincidência, mas na terra de lá não há disfarce algum: categoria reservada aos alunos ainda secundaristas, estes alunos estão de fato excluídos da vida universitária.

A polícia tal como descrita acima não existe mais, mas a praxe mantém-se. Em alguns momentos ela teve papel decisivo no cenário político português, sobretudo na luta contra o Salazarismo, e foi proibida diversas vezes. Tradição, fascismo, repressão, companheirismo, igualdade, elitismo, humilhação, integração, boemia, revolução, violência, diversão.... São só algumas das palavras utilizadas para referir-se à prática da praxe, que ainda hoje divide opiniões em Portugal e movimenta a vida universitária.

Por Tainah Leite

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