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Trote e violência

Há em todas as formas do trote tradicional uma espécie de violência intrínseca e inescapável. O próprio vocabulário corrente do trote é carregado destas marcas: a palavra veterano e sua origem militar, ou mesmo a expressão calouro, reservada aos jovens ingressos nas ordens monásticas, referem-se a ambientes regidos por uma ordem autoritária e hierarquizada – que não está, ou não deveria estar de acordo com o ambiente universitário. Violência simbólica que se evidencia quando há o desrespeito à liberdade dos novos alunos. Obrigar uma pessoa a fazer qualquer coisa que esta não deseje, já é em si uma agressão, mesmo que pareça uma brincadeira inofensiva e que não se faça uso de força física. Os inúmeros relatos que falam da tensão e angústia que acompanha a entrada dos novos alunos à universidade, o medo que estes sentem sobre o que pode lhes ocorrer no trote, não deixam dúvida quanto à carga de violência simbólica e autoritarismo que frequentemente cerca a prática do trote.

Mas a violência do trote nem sempre é apenas simbólica. O trote tradicional pode atingir níveis inimagináveis de agressão física. No Brasil, os primeiros registros de trote violento datam ainda do século XIX. Em 1831, um estudante foi morto a golpes de bengala durante o trote na Universidade de Recife. Em 1850, os alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco reagiam ao trote e a polícia realizava uma intervenção para remediar a situação. Nesta trágica cronologia se envolveram até futuros homens públicos do Brasil, como o presidente, então estudante, Manuel Ferraz de Campos Salles, acusado de espancar um aluno do quinto ano que tentava proteger o irmão recém-ingresso na Faculdade do Largo de São Francisco.

Ao longo dos anos, as universidades no Brasil vão se alterando e as práticas de recepção aos novos universitários também mas, infelizmente, os jornais e anais escolares continuam a registrar inúmeros casos de violência física entre estudantes. Ao final dos anos 60, um outro fator agravou ainda mais a situação: com o decreto AI-5 e a crescente infiltração de órgãos de repressão dentro da universidade, imobilizando o movimento estudantil, a recepção aos calouros é esvaziada de seu significado político e cultural, reduzindo-se à realização do trote, frequentemente com o uso de violência física. A iniciação dos calouros na vida universitária se vê banalizada, não serve mais a seu propósito que deveria ser de introduzir os novos alunos a este universo novo que se descortina à sua frente, e é apenas uma desculpa para a realização de brincadeiras e troças.

A partir da década de 90, a situação começa a se reverter, com a volta de recepções aos calouros que vão além do trote, ou que busquem alternativas diferenciadas como o trote cultural ou o trote cidadão. No entanto ainda são freqüentes os registros de violência: todo início de semestre, em diversas escolas, alunos são submetidos a trotes que visam integrá-los a universidade, a partir de tapas, xingamentos, ingestão obrigatória de bebidas, corte de cabelo, pedágio obrigatório e outras muitas coisas que a criatividade desvirtuada possa inventar.

Muitos acreditam que a violência no trote perpetua-se em grande medida por uma lógica caduca, em que o calouro vítima do trote em um ano, aplica-o aos seus próprios calouros no ano seguinte, quase como uma forma de “vingança”. Se assim for, o ciclo pode se estender eternamente, mas basta também que uma turma se negue a praticar a violência para que este ciclo comece a mudar e passe a girar no sentido dos valores democráticos e humanistas da vida universitária.

Por Tainah Leite

Referências:

VASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria, UFSM, 1993.

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