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Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG - Volume 1, n. 2 – março, 2008

No Midrash Bereshit (Gênesis) Rabá, que segue abaixo, encontra-se a primeira questão suscitada pela primeira palavra da Bíblia, que é a de saber por que o relato da criação não é iniciado pela primeira letra do alfabeto hebraico e sim pela segunda. O termo Midrash “interpretação” deriva do verbo darash, cujo sentido original é “procurar”. A palavra admite, ainda, uma abrangência de significados, que vai desde o conceito de “buscar, solicitar informações a respeito de alguma coisa” (Jz 6:29) até o “procurar Deus” (Dt 4:29; Is 55:6; Sl 34:5) e, ainda, particularmente, na época pós-exílica, o significado de “perscrutar o texto bíblico a fim de encontrar ali a resposta de Deus” (Esd 7:10). O Midrash é uma interpretação atualizada da fonte bíblica,7 isto é, dirigida ao momento presente:
Gênesis Rabá 1, 10 sobre Gn 1, 1: Por que razão o mundo teria sido criado com a letra Bet? – Tal como a forma da letra “Bet” é fechada de três lados e aberta para frente, nós também não temos autorização para preocuparmo-nos com o que está debaixo ou por cima da terra, nem com o que aconteceu antes deste mundo ser criado...Devemos, tão somente, preocuparmo-nos com o que aconteceu desde a Criação do mundo, com o que está perante nós na terra. (Midrash Bereshit Rabá apud IUSIM, 1966, p. 67)
Antes de comentar a divergência entre os mestres Ishmael e Aqiba no Midrash acima, cabe destacar-se alguns aspectos da língua hebraica, que se perdem com a tradução. A partícula eth, sem equivalente no idioma português, introduz o complemento do objeto direto determinado. Pode-se encontrá-la em Gn 1:1, diante das palavras que significam os céus e a terra, eth hashamaim ve-ethhaáretz. O verbo bará colocado no início da frase faz com que a ênfase seja dada à ação realizada pelo sujeito Elohim (Deus). Para Rabi Aqiba, discípulo do mestre Rabi Naum de Gamzo, cada particularidade do texto (bíblico) deve ser objeto de exegese, posição esta que se tornou predominante no judaísmo rabínico. Para a Escola de Rabi Ishmael, contrariamente, a “Torá falou a língua dos homens”, dessa forma, assim como pode haver no discurso humano termos expletivos, repetições às quais não há como atribuir um sentido particular, pode haver na palavra divina certas expressões que tornam impossível uma interpretação minuciosa. O curioso nesse Midrash é a explicitação das posições das duas escolas até certo ponto invertidas.

Rabi Ishmael diz a Rabi Aqiba que, se ele fosse coerente com os ensinamentos recebidos de seu mestre Naum de Gamzo, as partículas eth encontradas no primeiro versículo do Gênesis deveriam ampliar o conteúdo das palavras “céus” e “terra”. Rabi Aqiba responde que nesse caso, a partícula eth tem por função impedir que se coloquem no mesmo plano Deus, os céus e a terra. Dessa forma, o Rabi prende-se, portanto, à estrita função gramatical da partícula, que é a de designar o complemento verbal, o objeto direto determinado. Rabi Ishmael responde que é possível compreender que a partícula eth, cuja função não é gramatical, pode ser interpretada, como que englobando o conteúdo dos céus e da terra.

A primeira palavra da Bíblia, bereshit, é composta pela preposição be “em”, “no”, vocalizada sem o artigo, e pelo substantivo reshit “começo, princípio, parte inicial”. A palavra reshit é formada por rosh “cabeça” e por it, que marca abstração. A ausência do artigo indica um estado construído, comum a todas as vezes que surge a expressão reshit no texto bíblico (Gn 10:10; Dt 18:12; Jr 2:3; 26:1; 27:1; 28:1; 49:34; Pr 8:22). O termo reshit está intrinsecamente ligado ao termo seguinte, o verbo bará (BÍBLIA, 1995, p. 29). Tenta-se explicar o verbo bará: em analogia com outras línguas semíticas ou com a raiz hebraica barar através das idéias de “construir, talhar, formar” e, ainda, “separar, distinguir”; em relação com o aramaico bar, no qual se constata a noção de “exterior”, o que corresponderia à teoria cabalística do Tzimtzum, ou seja, “contração” ou “diminuição”, “limitação” e “restrição” (Citado por KETTERER & REMAUD, 1996, p. 35).8

A Septuaginta traduziu bará pelo verbo grego poiéô, fazer, o qual é utilizado indistintamente, para cento e dezoito verbos hebraicos diferentes. Essa tradução altera o sentido do texto original e expõe algo significativo: o pensamento grego ignora a noção de criação ex nihilo. Para o pensamento grego, o universo é o próprio Ser, existindo desde sempre, e confundindo-se, em última análise, como ocorre em outras cosmogonias antigas, com os deuses. As versões gregas posteriores a Septuaginta (Áquila, Símaco, Teodocião) traduzem bará para o grego ktizô, construir, fundar, mais de acordo ao sentido hebraico (Citado por KETTERER & REMAUD, 1996, p. 35). Ainda analisando a raiz bará é possível encontrar o sentido básico de “criar” (HARRIS, 1998, p. 212-213). É diferente de iatzar, modelar ou formar, pois este enfatiza o ato de dar forma a um objeto, ou seja, moldar o objeto envolvido, enquanto bará enfatiza o início do objeto. A palavra é usada no kal (construção verbal ativa com sentido simples) somente com referência à atividade divina, sendo, portanto, um termo de sentido teológico.

A passagem de bereshit Haroldo de Campos (CAMPOS, 1984, p. 6-8; 12) procurou captar, na tradução para o português, o estilo bíblico, hebraicizando as palavras para a língua portuguesa, tentando, poeticamente, estampar as suas vibrações originais. Na interpretação de Campos (CAMPOS, 1984, p. 6-8; 12), o primeiro versículo de Gênesis, o Iom Echad (literalmente dia um), aparece como:ordena cardinalmente os dias da criação. Considerando os termos hebraicos, lê-se, pois, dia um, dia dois, dia três, até o dia sete, o sábado, dia culminante da criação. A ordenação do tempo se configura em termos de um dia primeiro, seguido do segundo, terceiro, e assim sucessivamente (WALDMAN, 1994-1995).

A raiz bará denota o conceito de “iniciar alguma coisa nova” (Ex 34,10; Nm 16:30; Is 4:5; 41:20; 48:6-7; 65:17-18; Jr 31:22; Sl 51:10-12). A palavra tem, ainda, o sentido de “trazer à existência” em algumas passagens bíblicas (Is 43:1; Ez 21:30-35; 28:13-15). Observa-se que a palavra bará é usada de modo mais freqüente para descrever a criação do universo e dos fenômenos naturais (Gn 1:1; 21:27; 2:3). A palavra bará “nunca ocorre com o objeto de material e visto que a ênfase principal da palavra recai sobre a novidade do objeto criado, o termo empresta-se bem ao conceito de creatio ex nihilo, embora tal conceito não seja necessariamente inerente ao sentido da palavra” (Citado por KETTERER & REMAUD, 1996, p. 213). No texto bíblico, observa Maurício Waldman (1994-1995),9 bará designa o ato criador realizado por Deus, pois só Deus pode criar, ou fazer jorrar, de maneira súbita e soberana, o tempo. Ainda segundo Waldman, a palavra bereshit, que inicia a narrativa bíblica, revela que o essencial ao narrador do Gênesis “não é o que houve no princípio, mas sim, que houve um princípio. Bereshit, não significa no princípio, mas num princípio” (NEHER, 1975, p. 176-177).

1. Nocomeçar Deus criando: o fogoágua e a terra
2. Eaterra era lodo torvo
3. Eatreva sobre orostodoabismo
4. Eosopro-Deus revoa sobre orostodágua
5. EDeusdisse seja luz
6. Efoiluz
7. EDeusviu queeraboa aluz
8. EDeus dividiu luz etreva
9. EDeus chamouàluzdia
10. Eatreva chamounoite
11. Efoitardeefoimanhã
dia um
Outros elementos podem ser trazidos para contribuir na interpretação da passagem inicial de Gênesis. A fonte talmúdica denominada de Pessachim 68 proclama que o Universo não teria sido criado se não fosse pelo mundo espiritual, pela palavra Divina, pela Torá, chamada de Reshit, princípio de tudo (TORÁ, 2001, p. 1). No Zohar, Esplendor, uma das fontes básicas para os estudos cabalísticos, encontra-se uma concepção emanacionista da criação, a palavra Elohim (Deus) seria objeto e não sujeito de bará, sendo Reshit, “a partida ou arranco primário pelo qual o Deus imerso em si é exteriorizado” (CAMPOS, 1993, p. 25).

O exegeta medieval Rashi de Troyes (1040-1105) comentando a passagem inicial de Gênesis argumenta que a primeira coisa a ser criada teria sido a luz. Rashi quer que o primeiro versículo seja traduzido da seguinte maneira: “No princípio da criação dos céus e da terra – que estava vazia, oca e escura – disse Deus: ‘Haja luz’”. A Escritura Sagrada não quer mostrar a ordem da Criação, pois se quisesse o texto deveria aparecer: “primeiro criou os céus...”. A palavra bereshit no texto bíblico tem o sentido de “no princípio da Criação” (Gn 10:10; Dt 18:4; Jr 27:1). Rashi comenta que o fim do segundo versículo dá a entender que as águas já existiam antes dos céus e da terra, pois está escrito: “E o espírito de Deus pairava por sobre a face das águas” (Gn 1:2). Contudo, a Escritura não revelava a ordem cronológica, nem quando foi a criação das águas. Dessa forma inferimos que as águas antecederam a terra (BERESHIT, 1993, p. 2).

Em seus estudos bíblicos, Haroldo de Campos(CAMPOS, 1993, p. 26-28; 43-44) privilegia a poesia e as possibilidades de recriação poética do texto original para a língua portuguesa. Sua “transcriação” para a passagem inicial de Gênesis revela uma preocupação com a poética e não com questões teológicas. Campos utiliza uma construção com o infinito substantivado, no começar,e com o verbo no gerúndio, criando. Isso permite remontar-se ao cenário da origem, à circunstância da criação no “feito” o seu “em se fazendo”. Começar e criando aliteram (como bereshit e bará). As traduções dessa mesma passagem em versões editadas da Bíblia traduzem bará como “criou”, cingindo-se ao princípio da “ação acabada”. No caso específico do trabalho de Campos, o uso do gerúndio acaba por designar um fato ainda inacabado naquele instante passado a que o texto se refere. Dessa forma temos: “No começar § Deus criando §§§” (CAMPOS, 1993, p.45). Outro dado curioso resgatado pelo autor e que enriquece seu trabalho é saber explorar a acentuação massorética. Assim, ele resgata os acentos rítmicos, as possibilidades de modulação oral, a estrutura rítmica de elevar ou cair do canto dos sinais, o que confere, ao leitor, uma maior amplitude para a compreensão do sentido do texto.9

A acentuação massorética foi criada por escribas, antigos mestres fariseus, que preservavam o texto bíblico. O termo massoreta origina-se do hebraico massorá “cadeias” ou “tradição”; donde, “legar”, “transmitir”. Como o alfabeto hebraico só possuísse consoantes, os massoretas criaram no século IX um tipo especial de vogais, na realidade pontos e traços, colocados acima, ao lado e abaixo das consoantes, permitindo dessa forma, uma prosódia adequada do texto bíblico que preserva o seu sentido.

Os massoretas também criaram símbolos para os acentos musicais, chamados de taamim, que significam, literalmente, “gostos”; denominados às vezes, neguinot “notas” ou “melodias”. Essa acentuação constituía um sistema de notação musical para o cântico do texto hebraico nas leituras públicas da Torah.10

A entoação do texto bíblico por meio dos acentos colocados acima e abaixo das sílabas hebraicas pode ser descrita como uma forma de declamação musical, realizando a fusão da palavra com a melodia. Os taamim assemelham-se grandemente às neumas, o sistema de sinais musicais que a Igreja Bizantina foi a primeira a adotar. As neumas e os taamim apareceram no século IX, ambos representando sistemas rudimentares e inexatos de notação de cantigas.

Os taamim eram indicações ligeiras ao leitor ou entoador, sugerindo quando elevar, abaixar ou sustentar a voz, ou quando deveria fazer uma pausa longa ou breve. Esse sistema de notação não colocava a ênfase na música, mas, nas sílabas das palavras hebraicas do texto, o ritmo provinha das sílabas que havia no cântico. Com o tempo, tropos ou grupos de notas foram justapostos para a ornamentação das sílabas mais significativas visando a dar-lhes maior ênfase musical e aprimorar o texto. Os taamim não indicavam valores dinâmicos precisos em tom e em tempo e não tinham escala nem ritmo. Não havia ordem na seqüência de sons. O leitor-cantor não obedecia a regras, simplesmente improvisava elevando, baixando e sustentando as notas, fazendo pausa quando os sinais indicavam que devia fazê-lo. O leitor-cantor repetia, dessa forma, o esquema tal como aprendido a entoar segundo a tradição oral.

Surgiram várias formas de salmodias judaicas em diferentes países de acordo com diversas correntes da tradição musical judaica. Os taamim ainda são usados na leitura em cantilena do texto bíblico.11 Conhecer a função de cada sinal, conjuntamente, com a passagem bíblica, permite compreender o sentido do texto muito além de apenas se considerar as regras gramaticais e as palavras isoladamente.

No livro de Gênesis, tem-se: “Façamos homem à nossa imagem segundo a nossa semelhança; (...) E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea criou-os” (Gn 1:26-27). Está escrito que o ser humano foi criado à imagem de Deus. Não somente na capacidade de pensar, como também leemor “dizer” e não tanto de falar, uma vez que se pode falar à toa. Donde, dizer é dizer efetivamente coisas, expressar e comunicar o próprio pensamento, realizar troca de idéias e relações com os outros seres humanos, e que, transmitindo idéias sempre mais elaboradas de uma geração à outra, tendem a participar da criação. Dessa forma, Deus cria o mundo e posteriormente, o ser humano, para ser seu parceiro para completar a criação. Essa criação não está restrita ao mundo, mas inclui, também, a narrativa bíblica.

A letra alefé a primeira letra da palavra Adam, o nome do primeiro homem. Adam origina-se de adamá “terra”, pois, segundo o relato bíblico, Adam (Adão) foi feito de terra. É, igualmente, a letra inicial da palavra emét, verdade. Se se tirar a letra alef da palavra emét, tem-se met, morto. Simbolicamente, parar e não fazer de tudo para entender e se comunicar é uma forma de morte. A interpretação do texto bíblico se realiza, assim, através do ser humano, que, criado à imagem divina, possui a capacidade de expressar e estar em constante diálogo com o projeto da criação.

Outro elemento constante na narrativa bíblica é opacto que se estabeleceu entre Deus e o homem, especificamente, entre Deus e Israel. Tal pacto vai sendo, paulatinamente, desvelado ao longo do texto bíblico de acordo com a capacidade dos homens em compreender o sentido da vontade divina. Dessa forma, o pacto constrói-se e desconstrói-se na medida em que o homem vivencia os acontecimentos e se dispõe a estar aberto para compreender o sentido do mesmo.

O vocábulo latino pactum/pactus origina-se do verbo paciscor, fazer um tratado, acordo, pacto, convenção, em sua forma mais antiga, pacere. Quase sinônimo de pactio, pacto, convenção, acordo e contrato, possui a mesma raiz de pax, pacis, paz.12 A idéia do pacto ganha, assim, uma nova dimensão, tendo como ponto de partida o verbo paciscor, contratar. Esse verbo é o incoativo de pango, que entre outros significados, tem o sentido de escrever poesias, poetar.13

Sendo assim, a Escritura, ao apontar para o princípio, ou seja, para a abertura que a Torá propicia, além do pacto de Deus com Israel e estes com a linguagem, iluminam o leitor para torná-lo capaz de pensar e falar sobre a vida. O pensar e falar não se reduzem a uma faculdade humana, mas significam, essencialmente, articular o destino do ser no homem.14 Desse modo, o pensar que acolhe a Palavra e tenta redizê-la, é poesia, pensamento originário. Pensando nos elementos Poesia-Palavra-Linguagem temos que, Deus como Linguagem é o pacto. O próprio texto bíblico é Linguagem. E nisso consiste a essência do pacto e da identidade do grupo judaico, o Povo do Livro/Linguagem.

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* Cláudia Andréa Prata Ferreira é Doutora em Letras, professora do Setor de Hebraico do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC) do Departamento de História da UFRJ.
Notas
1 Tomou-se, como referência, o trabalho do Professor Manuel Antônio de Castro, Titular de Poética da Faculdade de Letras da UFRJ: CASTRO, M.A. (1999a) e (1999b) e a versão atualizada disponível em: <http://acd.ufrj.br/~travessiapoetic/ensfilosoficos.htm>. Acesso em: 18/10/2006.
2 O ato de narrar torna-se possível à medida que o narradorretira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. Segundo o crítico W.Benjamin (BENJAMIN, p. 114-119; p. 197-221), a arte de narrar origina-se na experiência (Erfahrung). A palavra alemã Erfahrung origina-se do verbo erfahren, que significa "chegar a saber". Narrar é a capacidade de cada um trocar experiências com o outro. No seu sentido etimológico completo, o verbo latino narrare significa "fazer conhecer". Portanto, erfahren e narrare fazem chegar o conhecimento ao homem.
4 Para este artigo, usou-se a edição da TORÁ. A Lei de Moisés. (2001). Salvo indicação em contrário.
5 Em hebraico, com o significado de “Orientação”, “Ensinamento”. Primeira parte do Tanach (Bíblia Hebraica) a ser escrita, composta pelos Cinco Livros de Moisés (Pentateuco): Bereshit (Gênesis), Shemot (Êxodo), Vayikrá (Levítico), Bamidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio). Uma observação sobre os nomes dos livros que compõem o Pentateuco: Os nomes que derivam do grego estão relacionados com o conteúdo, enquanto que as denominações hebraicas são constituídas pela primeira ou principal palavra do início de cada livro.
6 Na tradição judaica, a Bíblia Hebraica (erradamente designada por Antigo Testamento, em oposição a Novo Testamento) é conhecida pelo termo Tanach, palavra que é composta pelas iniciais de três grupos diferentes de escritos: Torah (Pentateuco), Neviim (Profetas) e Ketuvim (Escritos). O conjunto do Tanach foi canonizado na época do Segundo Templo, entre os períodos persa e helenístico, tornando-se a parte central da Tradição Escrita, Torá Shebik’tav. A Tradição Escritaserve de referência e matéria-prima para a Tradição Oral, Torá Shebealpe, que a permeia constantemente, interpretando-a, atualizando-a e transmitindo-a para as gerações. Para os judeus, as histórias e os ensinamentos da Tradição Escrita estão associadas aos Midrashim. O Midrash é uma interpretação livre e imaginosa do texto bíblico, especialmente da Torah (Pentateuco) e caracteriza-se por usar as formas literárias como aforismos sábios, máximas morais, provérbios populares, metáforas poéticas, analogias, lendas, fábulas, parábolas, alegorias e anedotas. Os Midrashim se originaram em palestras e homilias populares que eram realizadas na sinagoga, naCasa de Estudo, em hebraico Beit HaMidrash ou na Academia Talmúdica. Acredita-se que tal costume foi iniciado pelos escribas da Judéia ou por Antígono do Sokho, no século III a.E.C. Essas exposições ou sermões eram pronunciados no shabat, nos dias santos e por ocasião do surgimento da lua nova. A forma midráshica ou discursiva de livre exposição de uma lição popular tendo como ponto de referência a Tradição Escritajá se revela em alguma das obras pré-cristãs dos Apócrifos e dos Pseudo-epígrafose nas obras gregas de Filon de Alexandria no século I.
7 O método peshat consiste na interpretação do texto bíblico ao pé da letra. Corresponde ao significado simples e evidente que ressalta da primeira leitura do versículo. Comparado aos outros três métodos, que interpretam o versículo sob um ponto de vista relativamente subjetivo, o peshat nos fornece seu significado objetivo, natural. Os mestres talmúdicos, ainda que reconhecendo a razão de ser dos demais métodos, estabeleceram que, via de regra, ein micrá iotzé miedei p’shutó “o versículo não deve sair do seu sentido natural”. O método remez supõe que ao lado do sentido literal do texto bíblico existe outro, colateral e mais elevado, que insinua um significado mais profundo. Este significado pode ser atingido por meio de uma interpretação alegórica, tomando os termos do verso como símbolos e alusões. Segue abaixo, um trecho da Mishná - Talmud Ierushalmi Rosh Hashaná 3,8 - comentando um texto bíblico – Ex 17:11 - pelo método remez: / “E Josué fez conforme lhe dissera Moisés, pelejando contra Amaléc... E acontecia que, quando Moisés levantava a sua mão, Israel prevalecia; mas quando ele baixava a sua mão, prevalecia Amaléc.” Ora, foram porventura as mãos de Moisés que fizeram ou acabaram com a guerra? – Claro que não! Mas para te ensinar que, enquanto os filhos de Israel olhavam para o Alto e submetiam o seu coração ao Pai do Céu, eles predominavam; mas deixando de fazê-lo, eles sucumbiam. Da mesma forma, deves interpretar este outro (verso): ‘E o Eterno disse a Moisés: Fazei-te uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste; e todo o que for mordido, olhando para ela, viverá’. Ora porventura adianta olhar a serpente? Não! Mas enquanto os filhos de Israel olhavam para o Alto e submetiam o seu coração ao Pai do Céu, sentiam-se aliviados/. O método remez procura encontrar nexos entre palavras e expressões iguais situadas em pontos diferentes do texto e as une entre si de maneira reflexiva ou narrativa, de acordo com os casos, a fim de enfatizar a unidade do conjunto, cujas partes estão estreitamente ligadas umas às outras. Podemos observar que o método remez não se opõe ao peshat, apenas procura completá-lo, dando-lhe um sentido mais elevado. O método drash é o principal método de exposição interpretativa e consiste numa análise minuciosa do texto, versículo por versículo, letra por letra, numa correlação próxima e remota.O Drash é a explicação alegórica. A palavra darash/drash é derivada da mesma raiz da palavra Midrash. Donde drash ter o sentido de “expor”, “interpretar” e “deduzir”. O verbo darash opera a idéia de uma pesquisa intensiva e de um esforço inerente à vontade de encontrar. Quando aplicado ao texto bíblico, significa pesquisar o sentido da palavra divina e, de certa forma, procurar o próprio Deus em sua palavra. A idéia de procura intensiva presente no verbo darash sugere, quando este é aplicado pela tradição rabínica na exegese do texto bíblico, que este não diz tudo de si mesmo e que deve haver esforço para dele escutar o sentido. O trabalho do método drash é de desbastar o texto para fazer vir o seu sentido oculto. O método drash chegou ao auge no século II com Rabi Akiva. Lemos em Pirkei Avot: “Aprofunda-te (na Torah) e volta continuamente a ela, pois tudo nela está contido” (Pirkei Avot 5,25). A própria Bíblia leva-nos às origens do estudo e da exegese do texto bíblico no Neemias 8, quando relata a maneira como, após a volta do exílio, Esdras e os escribas realizam a leitura do texto (bíblico) colocando-o no centro da vida do povo de Israel. O Método sod-O método sod (“segredo”) é o método que interpreta o texto bíblico em seu sentido místico, visando descobrir-lhe seu sentido oculto. Contrariamente aos métodos remez e drash, o método sod se opõe ao peshat e afirma audaciosamente que o versículo diz uma coisa e significa outra, pois quer ocultar seu verdadeiro significado que pertence a sitrei Torah “mistério da Torah”. Finalmente, o Sod “segredo” é o sentido místico e secreto investigado pela Cabalá. A palavra Cabalá tem seu sentido derivado do verbo hebraico Lekabel “receber”. A Cabalá entendida como a tradição mística é uma das facetas do misticismo judaico. A mística é a tentativa do indivíduo de uma nova Revelação através da união com o divino, da compreensão do cosmos, do homem, da Criação. A mística é o processo inverso da Revelação da religião clássica. Nesta, a comunidade recebe a manifestação através do gênio religioso que se dirige a seus irmãos. No misticismo, é o indivíduo que procura a comunicação com o seu Deus, em uma revelação individual, para ele próprio, o que significa a “união mística”. O acrônimo Pardes abrange os quatro métodos da exegese judaica cristalizado na Idade Média e passa a ser amplamente empregado pelos exegetas daquele período. Estamos nos referindo às quatro classes de sentidos, na interpretação da Bíblia, conforme o dístico de Nicolas Delira, que se tornou famoso na Idade Média: Littera gesta docet, quid credas alegoria, Moralis quid agas, quo tendas anagogia, isto é, a letra ensina os feitos, para que creias na alegoria, para que faças as coisas morais, nas quais tenha comparação. Tem-se, então, que, o sentido literalse ocupa com a realidade histórica; em que se deve crer, ensina o sentido alegórico; como se deve agir, ensina o sentido moral e, por fim, a finalidade, ensina o sentido anagógico, místico.
8 Sobre a doutrina do Tzimtzum: o processo de criação é precedido por uma contração de Deus, a Sua retirada de um ponto, para ceder lugar à Criação.
9 WALDMAN, Maurício. Bereshit: a criação da diversidade. 1994-1995.
Disponível em: <http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=p04_04_17&c=r>. Acesso em: 09/10/2006.
10 Os acentos hebraicos servem basicamente a três propósitos: 1) Eles marcam a tonicidade da palavra. Ela geralmente será a última sílaba da palavra, mas também poderá ser a penúltima. 2) Eles regulam a recitação dos textos bíblicos, pois os rolos de textos bíblicos lidos nas sinagogas não têm pontuação, e as vogais e os acentos são recitados de memória. 3) Eles servem como sinais de pontuação, mostrando como era percebida a estrutura da frase por ocasião quando foram colocados no texto. Como sinais de pontuação, os acentos podem ser disjuntivos, que separam, ou conjuntivos, que ligam. Esses sinais nos ajudam a identificar as partes que compõem uma frase hebraica e são, desta forma vital para a compreensão do sentido do texto.
11 A leitura do texto bíblico é ainda realizada nos dias atuais na forma de canto.
12 Veja-se: <http://bible.ort.org/default.asp>, uma das possibilidades de cantilação do texto hebraico bíblico.
13 Ver o estudo de ALBERTONI, E. A. (1989) v. 14. p. 23.
14 CASTRO, 1976, p. 71.
Documentação Textual
BERESHIT. CHUMASH. Bíblia. Com comentários de Rashi. São Paulo: Trejger Editores, 1993. v.1. Sefer Bereshit (Gênesis). p. 2-3, 8.
BÍBLIA, A. No princípio (Gênesis). Tradução para o francês e comentários de André Chouraqui. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
TEB. BÍBLIA, A. Tradução Ecumênica. São Paulo, Loyola: Paulinas. 1995.
TORÁ. A Lei de Moisés. Edição revisada e ampliada da obra A Lei de Moisés e as Haftarót. Inclui a tradução das Cinco Meguilot por David Gorodovits e Ruben Najmanovich. São Paulo: Sefer, 2001.
Referências
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BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, v.1., [s.d.].
CAMPOS, Haroldo de. Bereshit: A Gesta de Origem.In: A Bíblia Revisitada. Edição Especial do Folhetim, número 369, São Paulo, SP: Jornal Folha de S. Paulo, 12 de fevereiro de 1984. p. 6-8, 12.
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Número 5 - Crimes, pecados e monstruosidades


Número 6 - Israel

Número 7 - Exílio

Número 8 - Latino-Americano

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© Copyright 2007 Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG - ISSN: 1982-3053