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Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG - Volume 1, n. 4 – março, 2009 De Charlottenburg à Copacabana Kein Mensch war so witzig wie mein Vater. Ruth Klüger Saio
do escritório de meu pai com a convicção de que somente eu poderia
entender sua lógica, suas catalogações obsessivas, somente eu poderia
receber seus segredos. Pouco importa que cada um de meus irmãos possua
convicções de afinidades exclusivas e igualmente intensas. Insisto na
minha certeza: somente eu entendo seus esforços de ordenação e método,
suas bizarrices, seu humor, suas chatices, e mesmo a capacidade sempre
renovada de me magoar (com uma palavra, um suspiro, um olhar). Ele nem
sabe, somente eu admiro a beleza de seu local de trabalho, aquela
arquitetura da memória que vi construir-se, armar-se, expandir-se.
A
área de manobra dentro dos poucos metros quadrados, onde se concentrou
o essencial de suas ações nos últimos tempos, foi se tornando cada vez
menor. Creio mesmo que o acúmulo de materiais expulsaria em breve sua
própria presença. Por entre objetos e pilhas de papéis, apenas uma
trilha permitia o acesso à mesa de trabalho. O rendilhado da poeira
avançando por toda parte não era descaso ou negligência, e sim uma das
formas que pode adquirir o temor de alterações e mudanças. A poeira,
tal como um selo de segurança, é a marca que delimita seu território,
sua insubordinação aos rituais domésticos. A poeira é secreção de um
mundo interior enrijecido e, ao mesmo tempo, imensamente generoso.Certo
dia, um acidente do corpo, e a arquitetura de sua vida desmorona, num
golpe. Meses depois, bem intencionados e esperançosos de que retornasse
logo a um ambiente asséptico, adaptado a seu novo estado, retiramos a
poeira em tom de triunfo, desfazendo-se assim, para sempre, a harmonia
frágil daquele micro-clima.
A
verdade é que sempre esperei e temi esse dia, como se ali me
aguardassem segredos, revelações decisivas, tesouros. Abrem-se as
arcas. Tantas e tantas listas, recibos, contratos, bilhetes, cartas,
anotações. Anos e anos de contabilidade feita e refeita, verificada,
glosada, arquivada. Caixas e caixas de canhotos de cheques de bancos há
tempos extintos, sem falar nos envelopes usados, para sempre à espera
de reaproveitamento; os papéis carbono contendo camadas e camadas de
textos; bloquinhos de papel semi usados (reconheço alguns de diferentes
momentos de minha vida escolar). Muitos papéis de rascunho foram
arquivados em sacos de leite CCPL ou de pão de forma. Com orgulho, meu
pai ostenta seu desprezo pelos objetos de consumo e aproveita esses
mesmos sacos – de pão e de leite - como carteira de dinheiro, levada
sob a roupa, entre a camisa social e a camiseta de algodão, que vestiu
ao longo de décadas.
Nem
sei bem quando assumi o compromisso de decifrar seu universo,
transportá-lo e cultivá-lo em outro meio, mas sei que lhe faço
violência. Como toda experiência de mundo que se quer duplicar,
traduzir, reapresentar, essa é fadada ao fracasso. Há tempos
exercito-me em distender suas lembranças compactas. Tento envolvê-las
numa geografia conquistada por esforço pessoal, à revelia de todos, em
segredo, mas em vão. O que restará de seus discursos, às janelas de
Copacabana, entre o solene e o íntimo, entre a melancolia e a
felicidade?
Na
noite da primeira vez que o vi no hospital, sonhei - ou imaginei, entre
a vigília e o sono, no estado febril em que fiquei após vê-lo atado a
cânulas e aparelhos - que todos os seus arquivos, sólidos como tijolos,
estavam incrustados nas paredes de seu escritório, e eu, inutilmente,
tentava resgatá-los. Mas, inversamente à solidez presente no sonho,
muitos de seus arquivos desfazem-se como pó. Os jornais, conservados há
décadas, distinguem-se com dificuldade da poeira que se integrou a
eles. À luz da atualidade, sem a lógica interna que orientava seus
guardados, aquelas pastas e arquivos não fazem sentido algum;
simplesmente desintegram-se, submetidos ao efeito de nossa
incompreensão.
Em
algumas de suas tantas gavetas, todas as chaves de nossas vidas; em
outras, uma vasta coleção de agendas dos anos de 1980, 70, 60, até de
1948. Agendas de bolso ou de mesa, algumas com o calendário gregoriano
e o judaico, em que se conciliam 5727 e 1966, 5733 e 1972. Agendas em
que os dias permanecem em branco, como se qualquer um daqueles anos
remotos estivesse diante dele, diante de nós, prestes a começar de
novo, mais uma vez. Semelhantes a guias de cidades nunca visitadas (a
não ser pelo desejo), as agendas vazias guardam caminhos não
percorridos, concentram esperanças, futuros intactos.
Nas
prateleiras mais elevadas das estantes de meu pai, intocadas há anos,
estão Goethe, Schiller e as traduções para o alemão das obras completas
de Shakespeare. Edições luxuosas em belas encadernações e tipografia
gótica constituem um verdadeiro monumento a Bildung, o
processo de formação espiritual de algumas gerações de alemães, e,
claro, de judeus-alemães, cujo desfecho todos conhecemos. Tenho certeza
que meu pai nunca leu estes livros. Recebeu-os em herança no momento em
que o projeto espiritual que justificaria aquela presença em sua vida
já fora literalmente aniquilado. Ele não era mais aluno do Ginásio
Fichte, em Berlim, tampouco freqüentava as aulas na casa cedida por
Einstein, em Kaputt, para abrigar crianças judias marginalizadas pelas
leis de Nürenberg. Tornara-se aluno do Instituto Lafayete, situado na
Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, fizera do feijão com arroz seu
prato preferido, aprendera de cor inúmeras marchinhas de carnaval e, em
algum momento de sua juventude, descobriria os encantos das moças que
trabalhavam no Mangue.
Uma
extensa área de suas estantes é dedicada ao hebraico: cartilhas,
dicionários, enciclopédias, livros de oração. Afastado de qualquer
prática religiosa, meu pai concentrou na língua hebraica e no Estado de
Israel toda a fé de seu judaísmo laico. Em uma das prateleiras,
encontro os exemplares do jornal Jerusalém Post, organizados
em envelopes, datados com o dia do recebimento e meticulosamente
arquivados em pastas. Eis um dos muitos gestos de sua liturgia
solitária.
A
partir de qualquer demanda pelo passado, ele buscava, debaixo de pilhas
de livros e papéis, como um arqueólogo que sabe exatamente onde
escavar, um pequeno Atlas – Deutschland und die Welt -, que
nos contava ter sido consultado ao longo da viagem que o trouxe com os
pais ao Brasil. Entre suas páginas, em um pequeno formulário de cor
indefinida da companhia de navegação Chargeurs Reunis, lê-se
o nome do navio Aurigny, que os transportou de Hamburgo ao Rio de
Janeiro, passando por Antuérpia, Le Havre, Coruña e Casablanca. O
documento mostra o dia em que cruzaram sem retorno a linha do equador e
a distância a percorrer até o porto de destino. O navio Aurigny – tal a
arca redentora - passou a integrar uma espécie de mito de origem
familiar.
Em
24 de dezembro de 1935, o navio atracou no porto do Rio de Janeiro. A
relação de passageiros, assinada por um certo Comandante René Vesval,
documenta uma breve reunião de destinos que logo se dispersaram no
mundo e na história. Posso imaginar toda a sorte de encontros,
promessas e alianças feitas durante os vinte e cinco dias de viagem que
os trouxe à América do Sul. Ao longo das horas transcorridas na
embarcação, um vasto repertório de gestos contidos e concêntricos,
animados pela esperança e pela ansiedade, uma coreografia às cegas,
lenta, estacada e grave.
Na
lista de passageiros, sucedem-se nomes, idades, profissões (falsas em
sua maioria) e os respectivos endereços. Rolf, Irene e Alfred - meu pai
e meus avós - deixaram o endereço Kurfürstendamm 29, artéria principal
de Charlottenburg, em Berlim, para morar no número 111 da rua dos
Araújos, na zona norte do então Distrito Federal, como consta no
documento do Serviço Nacional de Imigração. Tive a listagem em minhas
mãos - cartografia indecifrável, feita de marcas, rasuras e anotações
marginais - em agosto de 2003. Quase dois anos depois, ao voltar ao
Arquivo Nacional, descubro que o documento se extraviou. Solicito,
reclamo, pondero. Inutilmente. O envelope 708 da Relação de Vapores
número 378, em que constava a lista de passageiros do Aurigny, está
agora submerso no mar dos documentos errantes, insubordinado à
catalogação.
Devido
à escassez de lembranças de sua infância e juventude, vejo meu pai nos
traços do menino Gringuinho, personagem de Samuel Rawet, que “julgava
que correndo apressaria o tempo”, tomado pelo “desejo de ser homem já”.
Sei que partiu para o exílio um ano depois de seu Bar-mitzva, levando
na bagagem uma Torah de bolso, com microscópicos caracteres hebraicos.
Seus avós maternos, prontamente ofendidos pela Entwürdigung –
o processo de desonra que deveria banir os judeus da grande Alemanha,
da Europa e por fim da face da terra -, seguiram, logo em 1934, os
passos de um dos filhos, que partira para o Brasil na década de 1920,
por motivos nebulosos. Conta-se que Tio Kurt envolvera-se amorosamente
com a esposa de um cliente do pai. Há outras versões de seu exílio e a
imprecisão dos fatos faz parte da história desse tio-avô transgressor,
cuja vida de caixeiro-viajante ganha os contornos de um conto de Isaac
Bashevis Singer. O que importa é que seu castigo – o desterro na
América do Sul – transformou-se na salvação da família.
Como
nada sei sobre as negociações de meu pai entre os dois mundos, é na
literatura de Rawet em que busco a trama e os personagens que lhe podem
ter sido familiares. Como o escritor que deixou a Polônia em 1936, meu
pai formou-se na Escola Nacional de Engenharia e por pouco não se
cruzaram. Mas a literatura de Rawet é feita de párias e deserdados,
enquanto meu pai, ao longo da vida, temeu as margens - de sombras e
dúvidas -e
praticou o asseguramento em todas as suas variantes. Apossou-se do
futuro, buscando a todo custo moldá-lo como um caminho reto, previsível
e venturoso. Creio que ultrapassado o choque do desterro, seu devir
brasileiro transcorreu sem ofensas. A experiência de ser o indesejável
Outro dos alemães deixou-lhe marcas na alma que se atenuaram lentamente
sob os trópicos. A prática do esquecimento talvez tenha sido a condição
de sua saúde. Construiu-se um homem sem queixas, apegado a complexos
rituais de cálculos e números. Na boca e na garganta concentraram-se
suas sombras e fobias discretas. Limitado e pleno, é feliz na medida do
humano.
Depois
de mais de um ano no hospital, o retorno à casa. Ao saber que o
apartamento estava sendo pintado para recebê-lo, pediu que seu quarto
fosse “azul, azul!”, exclamava com nitidez, apesar do canto esquerdo
dos lábios paralisados. Imaginou, creio, uma tonalidade intensa e
expansiva, que lhe envolvesse e restituísse a certeza da vida, mas não
se queixou do tom suave e retraído. A cama de casal, em que dormiu por
mais de 50 anos, deu lugar ao leito hospitalar. Semi-imobilizado, mas
lúcido e intenso, sua emoção se traduz facilmente em choro. Pouco a
pouco, ele embaralha o tempo, conferindo-lhe assim uma forma enovelada
que me parece mais autêntica. Também eu hesito nos tempos verbais,
falando e escrevendo sobre ele – sobre nós - ora no passado, ora no
presente, reconstruindo-me ainda agora sob seu olhar. Sei que toda a
nossa história se atualiza ali, quando lhe seguro a mão. Faço perguntas
jamais feitas, evoco lembranças, adivinho suas palavras. Na intensidade
de seu corpo tão frágil, sinto-me próxima como nunca antes.
Do
fundo do medo abissal, ao ver a morte de tão perto, vejo meu pai
protegido pelo fluido que secretou ao longo da vida: o humor.
Sentimental e romântico, grande admirador do sexo oposto que jura
ter-se concentrado a vida inteira numa única mulher, percebo-o grato às
enfermeiras e sempre atento às suas qualidades femininas. Ou à falta
delas. Queria ser capaz de manter sua herança - o humor como estratégia
de vida -, sua capacidade de ver-se em perspectiva e rir de si mesmo à
beira do abismo.
*** * Leila Danziger graduou-se
em Artes pelo Institut d'Arts Visuels, Orléans, França. Concluiu o
doutorado em História Social da Cultura pela PUC-Rio, com estágio na
Universidade de Oldenburg, Alemanha. Foi Bolsista do Programa RioArte,
no Rio de Janeiro, em 1995 e em 2002. |
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