OS BASTIDORES DA CRIAÇÃO

 

Eneida Maria de Souza

Professora emérita da UFMG

 

Com a inauguração do novo espaço para abrigar o Acervo de Escritores Mineiros na Biblioteca Central da UFMG, a Faculdade de Letras passa a cumprir um de suas mais notáveis funções, que é a de possibilitar o acesso da comunidade ao convívio com o arquivo particular de vários autores mineiros: Henriqueta Lisboa, Murilo Rubião, Cyro dos Anjos, Oswaldo França Júnior e Abgar Renault. Penetrar nos bastidores da criação literária, através da pesquisa minuciosa e detetivesca dos manuscritos e rascunhos desses autores, é contribuir para a preservação da memória cultural de um país tão desmemoriado como o nosso. Papéis, fotos, originais, objetos pessoais, primeiras edições, livros raros se encontram reunidos em cada acervo particular, convidando os leitores a conhecer mais um pouco da vida literária e intelectual dos belo-horizontinos e do país.

 A pesquisa em arquivos não é atividade que atrai a maior parte dos estudiosos do texto literário, por se confundir, muitas vezes, com uma atitude conservadora e retrógrada frente à literatura. Teorias críticas dos últimos anos contribuíram para o gradativo apagamento do interesse pelas pesquisas em fontes primárias, ao ser valorizado o texto na sua integridade estética, sem o interesse pelos bastidores da criação. Ou pela recusa em se deter no processo construtivo como resultado do trabalho do autor, figura um tanto incômoda para a crítica que ainda pouca importância dava para o contexto histórico das obras.

 É significativo o retorno da crítica em direção à figura do autor que, na pesquisa dos acervos, reaparece com seus rabiscos e traçados, suas marcas autorais, impedindo que se considere a sua ausência como resultado de um pacto ficcional com a escrita que se inscreve de maneira fria e distanciada. Por muito tempo algumas vertentes críticas censuraram a presença do escritor na cena literária, uma vez que a linguagem se impunha como absoluta e a eliminação de qualquer assinatura seguia o padrão de objetividade.

A prática analítica voltada para as fontes primárias não irá revelar, portanto, um olhar conservador sobre a escrita literária, mas a sua revitalização: o “manuscrito será o futuro do texto”, assim se expressa Jean-Louis Lebrave, um dos notáveis representantes da crítica textual e genética francesas. Enquanto os manuscritos estiverem sendo guardados para um objetivo mais analítico, reinstaura-se ainda um pouco da gênese literária. Prática que começa a ganhar e perder o seu prestígio nos tempos atuais, à medida que, com o computador, os rascunhos desaparecem, ao serem apagados pela eficiência de uma tecla que deleta o que se apresenta como excessivo ou descartável para a finalização da obra.  

É digno de nota o rico material existente nos acervos dos escritores, como a correspondência entre colegas, depoimentos, iconografias, entrevistas, documentos de natureza privada, assim como a sua biblioteca, cultivada durante anos. Um esboço de biografia intelectual emana desses papéis, ao serem incorporados, ao texto em processo, a cronologia dos autores, o encarte de fotos, a reprodução de documentos relativos à sua experiência literária, assim como a revisão da bibliografia sobre os titulares das coleções. As pesquisas desenvolvidas nos acervos têm a qualidade de serem inéditas e originais, uma vez que o objeto de estudo é construído no decorrer do arranjo dos arquivos, da surpresa vivenciada a cada passo do trabalho. 

A correspondência recíproca de Henriqueta Lisboa e Mário de Andrade, por exemplo, acha-se em fase de finalização, conferindo aos dois autores a devida importância para a compreensão do modernismo brasileiro, pela divulgação de depoimentos até então desconhecidos do público. Outras correspondências encontram-se em sujeitas à editoração, como as de Abgar Renault e Drummond, de Alexandre Eulálio a Lélia Coelho Frota, de Drummond e Cyro dos Anjos. Entrevistas de Oswaldo França Júnior, livro de fotos da americana Genevieve Naylor, acervo incorporado recentemente à UFMG, Obra Completa de Henriqueta Lisboa, além de outros projetos, estão praticamente no prelo. A publicação, na Revista Remate de Males, da UNICAMP, das cartas de Drummond e de Henriqueta Lisboa, comprovam o interesse e a necessidade de tornar público o diálogo entre escritores modernistas. O mesmo se pode dizer sobre a publicação de Poesia traduzida, de Henriqueta Lisboa, pela Editora UFMG, em 2001.

No acervo de Henriqueta Lisboa foi encontrada uma cópia do diário de guerra de Guimarães Rosa, período em que serviu como cônsul-adjunto no Consulado Brasileiro em Hamburgo, de 1938 a 1942, originais que estão sendo editados por pesquisadores do Acervo. Esse documento reveste-se de importância para o esclarecimento das relações políticas existentes durante a Segunda Guerra Mundial entre o Brasil e a Alemanha, principalmente quanto à ajuda prestada aos judeus por Guimarães Rosa e sua companheira de trabalho e futura mulher, Aracy Moebius de Carvalho. Documentos dessa natureza justificam a convivência quase obsessiva dos pesquisadores com o rico material constante nos acervos.

A página de rascunho, metaforicamente considerada o jardim íntimo do escritor, revela o que o texto definitivo não consegue transmitir: a imaginação sem limites, os recuos da escrita, os borrões, o espaço no qual a face escondida da criação deixa transparecer o fulgor e a paixão da obra em processo. Página branca, marcada de signos negros, torna-se a imagem do espelho que refletiria as relações pessoais do escritor com o texto, onde se supõe ser tudo permitido. Pela liberdade de rasurar, de escrever entre as linhas, de acrescentar aos originais margens desordenadas e rebeldes, este laboratório experimental desempenha papel importante na história da literatura moderna. O entusiasmo pelo processo da escrita e o interesse pela gênese dos textos ultrapassam a curiosidade do crítico em penetrar nos bastidores da criação e atingem dimensões próprias ao exercício literário.  

Os rascunhos dos escritores comprovam ser o ato de escrever sujeito não só ao trabalho da imaginação, mas também como resultado de uma lenta e minuciosa pesquisa. Saber aproveitar a lição de escrita que se extrai desses rascunhos, dos esboços textuais que nos mostram, pouco a pouco, como nasce o livro, torna-se tarefa mais do que rentável. Aos futuros leitores das anotações e páginas incompletas dos arquivos dos escritores, o convite para que visitem e freqüentem os acervos, dedicando-lhe a mesma atenção e manifestando igual prazer com que lêem um livro recém-publicado.