Fraudes: De Mendel à Venda de monografias pela internet

Inúmeros são os casos de fraudes científicas e acadêmicas já realizadas no decorrer da história. Da manipulação de dados, que implicam na comprovação de algo que o autor não conseguiu provar empiricamente, ao plágio escancarado adotado por alunos universitários. De acordo com o dicionário Aurélio fraude é uma ação praticada de má-fé, falsificação, adulteração, golpe. Manobra desonesta, com o fim de enganar, prejudicar ou roubar outrem. Mas o fato é muitas teorias fundamentais para o desenvolvimento da nossa ciência, independentemente do intuito, contaram com uma alteração ou outra para que fossem levadas a público.

Entre 1856 e 1863 o monge Gregor Mendel cultivava na cidadezinha de Brunn, Alemanha, mais de 29 mil mudas de ervilhas. O objetivo: obter através do cruzamento delas a compreensão do funcionamento da transmissão de características das espécies. Foi por meio da análise sistemática desses cruzamentos que o sacerdote chegou ao conceito da hereditariedade. Porém a precisão dos dados apresentados por Mendel em sua monografia Ensaios sobre a Hibridação das Plantas levantou suspeitas. Quase cinquenta anos depois de defendida sua teoria um matemático inglês levantou a hipótese de que os dados teriam sido manipulados. Alegando que o monge usou em sua monografia um número insignificante de cruzamentos em comparação aos realizados. Conscientemente, ou não, o fato é que todos os números de Mendel encontravam-se estranhamente dentro dos limites de erro provável.

Charles Dawson publicou, em 1912, um artigo referenciando um achado arqueológico que serviria de prova definitiva para a Teoria da Evolução de Darwin. O fóssil, que ficou conhecido como o Homem de Piltdown reunia caracterísitca de humano e macaco. Em 1920, a história já começou a mudar, quando um dos participantes da pesquisa de Dawson, Teilhard de Cardin, afirmou em um artigo que as partes do fóssil deveriam pertencer a diferentes animais. Em 1949, um novo processo de datação apontou que os ossos eram muito mais recentes do que se pensava. E em 1953 a fraude veio a tona. O fóssil havia sido modificado para simular a projeção da espécie que nunca existiu. O caso chegou a colocar a teoria darwiniana em cheque, e foi necessário um grande esforço por parte dos adeptos a essa teoria para apontar a fraude como um caso isolado.

Em 1951, a especialista em radiografias Rosalind Franklin, realizou uma espécie de foto do que seria o DNA, e elaborou uma hipótese que a estrutura do ácido seria helicoidal. Dois anos depois, os pesquisadores Francis Crick e James Watson publicaram na revista Nature sua descoberta: o DNA era composto por uma dupla hélice. O crédito às imagens de Rosalind só foi reconhecido após a sua morte.

Passados os anos, os casos de fraude continuam comuns e cada vez mais numerosos. Em 2008 após investigação sobre uma pesquisa acadêmica acusada de plágio, a reitoria da USP decidiu tomar uma decisão que a universidade não via em 15 anos. O professor Andreimar Soares foi exonerado de seu cargo, por ser o principal autor da pesquisa, e a responsável pelas imagens plagiadas, Carolina Dalaque Sant’Ana, teve seu título de doutorado cassado. O estudo investigava as propriedades de uma substância presente no veneno da jararaca, que ajudaria no tratamento de dengue. A pesquisa utilizou imagens de pesquisas da UFRJ sem referenciá-las, o que acabou definindo o plágio.

Casos de plágio são habituais no meio acadêmico, embora sejam pouco divulgados pelas Universidades. “Ter alunos imorais e criminosos matriculados em sua instituição denigre a imagem da faculdade. É por isso que elas não denunciam os fraudadores”, disse o professor de direito Manoel Galdino, em entrevista ao portal de notícias R7, no início de 2011. Apesar das sanções acadêmicas, as consequências do plágio podem ser bem mais rigorosas. O Artigo 184 do Código Penal Brasileiro define plágio como crime, podendo ter pena de detenção de até um ano. E além das penalidades sofridas pelo próprio infrator, todo tipo de fraude compromete, em diferentes níveis, a credibilidade da instituição e das próprias teorias defendidas pelo trabalho fraudado. No entanto geralmente não chegam a essa instância, fica a cargo de cada professor responder à fraude do aluno da maneira que julgar mais adequada.

A economia sempre acompanha o desenvolvimento das tendências culturais, assim, não tardou para que o plágio acadêmico alcançasse níveis profissionais. Hoje podemos encontrar empresas especializadas em fazer monografias. Muitos professores prestam serviço para essas empresas, ou trabalham de forma autônoma nesse setor. Em uma rápida pesquisa na internet nossa equipe encontrou diversas formas de acesso a esses “profissionais”. Entramos em contato com um deles e fizemos um orçamento. Uma monografia completa para o curso de Comunicação Social, contendo cinquenta páginas é feita ao custo de 1000 reais.

O professor Públio Athaíde, historiador, cientista político e autor do livro Manual Keimelion 2010 para Redação Acadêmica, volta atualmente suas atividades para a empresa de consultoria que criou, a Keimelion, especializada na revisão de textos acadêmicos. Notando em suas correções a presença insistente de pequenas evidencias de plágio, ele e seus colegas de trabalho realizaram, a título de curiosidade, uma auditoria em oitenta monografias de quatro cursos diferentes, divididos entre duas universidades públicas de MG e duas universidades particulares de Belo Horizonte. Os resultados foram alarmantes. “O índice de fraude encontrado foi na ordem de 70% dos trabalhos, que não resistem à menor verificação sistemática”, conta o professor, em entrevista à Gazeta do Povo. Indignado, ele criou movimentos em redes sociais para alertar outros professores sobre a incidência excessiva desses casos. No entanto Athaíde pondera, “Não há como moralizar um aspecto isolado em uma sociedade em que a fraude, o suborno e a corrupção são socialmente aceitáveis. Vender um voto no Senado ou uma tese é a mesma coisa, o preço é que é bem diferente”.

 

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