Destino: ElDorado

Título: Destino: ElDorado
Repórteres: Jéssica Malta, Kelly Cardoso e Laura Ribeiro
Fotografia, Infográficos: Jéssica Malta, Kelly Cardoso e Laura Ribeiro

O metrô de Belo Horizonte existe desde 1986, mas só atingiu funcionamento total em 2002. A linha vai do Bairro Água Branca, no município de Contagem, até o Bairro Venda Nova, em Belo Horizonte. Em uma extensão de 28,2 km, o metrô conta com 19 estações. A conclusão de mais duas linhas está prevista para 2017, uma ligando o Barreiro à Estação Calafate e outra subterrânea, com a conexão da Savassi à Estação Lagoinha.

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Em outubro de 2013, percorremos o trajeto do metrô de BH em busca de uma resposta. O que se vê pela janela do metrô? O resultado você confere abaixo.

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A estação do metrô não costuma ter o mesmo movimento das paradas de ônibus. Por esse mesmo motivo, não é de se estranhar a vaga melancolia que parece tingir as estações aos finais de semana.

Foi em um domingo que decidi tomar o metrô. Sem rumo, sem destino. Só um unitário. Só uma ida. O Sol erguia-se em tom de veraneio no céu aberto. As nuvens escondiam-se no azul infinito, sem cobrir luz ou calor. Caminhei até a estação mais próxima: Minas Shopping. Passara por uma recente reforma na área externa por conta da implantação do Leroy Merlin nas redondezas, então a entrada ainda tinha aquela impressão de novo, de fresquinho.

O som da catraca era desritmado, vago, em uma melodia distante e pausada. Quase não se viam atores nesse musical. O trânsito descompassado era um contraste com o movimento externo à estação, tumultuado pelo vai e vem de quem aproveita o final de semana para fazer compras com a família.

Aguardei não mais que 20 minutos pela chegada do primeiro trem. Ou metrô. Aqui em BH nunca ouve um consenso. Dizem que mineiro não perde o trem, então fica assim: trem.

Recolhi-me em uma cadeira do canto, acomodando-me sobre o plástico já quente do sol. As portas se fecharam, e logo o canto dos trilhos ressoou no nostálgico compasso marcado. Ouvi de olhos fechados. A madeira golpeada pelo estalido metálico do trem parecia clamar por tempos passados, parecia evocar uma memória que não me pertencia. Abri os olhos. A luz do Sol cortava a paisagem verde com força. Tive de comprimir um tanto a expressão para focar do lado de fora da janela. O mato alto tomava conta da beira da estrada e, antes que eu pudesse registrar o cenário que se abria ao redor dos trilhos, fui tomada por uma escuridão assustadora. Saltei para longe da janela, demorando a compreender que se tratava de um túnel. Era apenas isso. Um túnel.

A Estação José Cândido chegou como um alívio. Rostos sem nome entravam lentamente no vagão, ocupando as cadeiras mais próximas à janela. Mas talvez houvesse pouco a ser visto. Ao invés do verde estonteante que há pouco vislumbrara, notei pelo vidro sujo um campo negro, envolto na fuligem que parecia contornar o vagão em que eu me sentava. O mato queimado revelava a infertilidade de uma terra sem uso. Na escuridão das cinzas, amontoados de lixo constituíam verdadeiras muralhas. O ar fétido pairava sobre os paredões, tornando a viagem tensa.

A Estação Santa Inês passou mais rápido do que eu pudera prever. O intervalo de concreto não fora suficiente para quebrar o clima fúnebre que a viagem adotara. Cansada da escuridão da paisagem, virei-me para observar a outra extremidade do vagão. Exibia por sua janela a mesma monotonia monocrômica. Esperei. E qual foi minha surpresa ao ver esse mundo fundir-se em tons arrebatadoramente acobreados.

Horto. Notei a lagarta mecânica, cor de cobre, faceira e cruel. Estacionada sem rumo, encarava-me de seu pátio descoberto, envolto na poeira amarelada daquele depósito de velharias. Engoli em seco. A suntuosidade daqueles velhos vagões, esquecidos pelo tempo, era inquestionável. Ao seu redor, montanhas de minério acumulavam-se em caçambas sem nome, sem face. Fruto de extração violenta, as pedras eram postas sem cerimônia sobre os vagões. O trem andou, escapando enfim do olhar faceiro daquela lagarta. A cidade, Câmara Municipal e logo o Boulevard. Era a Estação Santa Tereza, em um clima completamente diferente do anterior. Casas, prédios, e vias chafurdadas de carros se sobrepunham na paisagem acinzentada da cidade, trançando pela malha urbana em curvas e viadutos envelhecidos.

A Estação Santa Efigênia chegou antes que me desse conta da passagem do tempo. Na via metroviária, muros decoravam-se com a inscrição indecifrável em tinta e cores vibrantes. Uma pessoa, solitária, rosto encoberto, acrescia às inscrições sua própria marca. O som do spray era audível de dentro do metrô. Agitava a lata, deixando que a esfera interna atingisse as laterais de metal, e logo voltava a pintar, a colorir formas estranhas se desvinculadas de seu contexto. O lixo voltava a aparecer, em ferro e cinzas, mais e mais muros tingidos erguiam-se em direção ao centro de BH.

A canoeira dá-nos boas vindas à Estação Central. Distraí-me algum tempo com a arquitetura do prédio principal. No amarelo-e-branco da pintura estavam claros os anos e reformas pelas quais passara ao longo do tempo. Cumprimentava-nos, austera, histórica. Não podia ver o relógio, mas sabia que estava lá, no alto da torre, sinalizando a tarde que já passava corrida. O entra e sai do vagão ainda era escasso, mas notei o número crescente de pessoas que se acumulavam nas cadeiras. Fora da estação, a urbanidade reduz-se lentamente, até alcançar a estação Lagoinha. Escura, envolta por casas e construções não finalizadas. As pessoas são substituídas por máquinas. O cinza pelo ônix reluzente. Os edifícios por muros caídos. E as árvores, pelas torres elétricas.

Carlos Prates, Calafate e Gameleira. A paisagem contínua revela píeres de concreto e uma viagem por cima das árvores. As copas verdes deixam-se salpicar por raras flores de ipê. Os muros riscados, as curvas sinuosas, e a secura do cerrado estendem-se por todo o trajeto em identidades alternantes que continua pela Gameleira e Vila Oeste. O trem logo mergulha em um vórtex verde, mato alto, mato baixo, mato queimado. Marcas de que o cuidado já fora deixado de lado. A beira do barranco oscila. Terra rola em mato, prende-se na vala e entope o rego d’água. Que ajunta e passa rápido na viagem de trem.

Assustei-me com a entrada repentina do Sol. Tingira o vagão de amarelo, laranja e dourado, tudo de uma vez. A cobertura metálica do trem refletia a luz com tal intensidade que fui obrigada a fechar os olhos por um instante. Em minha mente, éramos uma grande serpente dourada, cortando mato e trilho, seguindo rumo algum, e nenhum, pela linha solitária do metrô de BH.

Quando finalmente pude abrir os olhos novamente, deparei-me com o visual pós-apocalíptico das torres e chaminés industriais. Os tons metálicos e enferrujados exalavam nuvens de inteiriço sufocamento. O trem, agora cheio, saía da Cidade Industrial, carregando rostos e feições cansadas. Notei os cartazes de gentileza urbana que dançavam presos aos postes internos do vagão. O plástico, agora dourado, refletia o Sol nos rostos dos passageiros que, incomodados, esforçavam-se para encontrar um lugar para si. O tumulto aumentou, e era impossível fitar do lado de fora da janela. A pressão que fazia dentro do vagão parecia aumentar a cada trilho passado, e a ansiedade já se esboçava em seus rostos. Amontoaram-se em um movimento compassado em direção às portas. Ansiedade. O Sol queimava do lado de fora, em põe-não-se-põe indeciso. O trem para. As portas deslizam em uma preguiça arrastada. Estavam chegando. Para alguns, em casa, para outros, no trabalho. Para mim, em El Dorado.
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Durante a viagem, aproveitamos para fotografar o que era visto pela janela. As fotos foram sincronizadas e colocadas em um mapa de acordo com a localização:


Visualizar Trajeto Metrô BHem um mapa maior

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