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Pesquisa e Inovação

Com suporte da psicanálise, pesquisa da UFMG vai propor novo protocolo para lidar com a exploração infantil pelo tráfico

Objetivo do estudo é balizar ações do governo, de modo a articular trabalho de centros de referência em assistência social às decisões judiciais

Por: Assessoria de Imprensa UFMG

Diante de uma cultura que frequentemente reduz o adolescente em conflito com a lei a uma “cena de crime isolada”, um novo protocolo de proteção baseado em evidências, coordenado pela professora Andréa Guerra, do Departamento de Psicologia da UFMG, propõe uma ruptura radical de paradigma: o reconhecimento de que o tráfico de drogas é, antes de tudo, uma forma perversa de exploração do trabalho infantil.

De âmbito nacional, pesquisa multidisciplinar, que integra análise sociodemográfica e narrativas biográficas, será desenvolvida em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e subsidiará a elaboração de políticas públicas de proteção a crianças e adolescentes. “Mais do que um relatório técnico, o projeto entregará ao Estado brasileiro, em 18 meses, um fluxo de processos que inverte a lente social: substituiremos a figura do ‘infrator’ pela do sujeito, cuja vida deve ser protegida antes de ser julgada”, explica a professora.

Ao confrontar o imediatismo da punição com o rigor da escuta psicanalítica, a pesquisa busca interromper o ciclo da chamada “necropolítica” — a lógica que invisibiliza as trajetórias de crianças que, já aos seis anos de idade, são cooptadas por estruturas de violência.

Base em evidências

Os indicadores estatísticos para o estudo serão extraídos de plataformas como o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (IVJ-V) — ferramenta que mede o risco de jovens serem assassinados no país— e o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase), responsável pelo acompanhamento de adolescentes em cumprimento de medidas. A integração com a escuta psicanalítica, de acordo com Andréa Guerra, possibilitará mapear onde a vulnerabilidade e a criminalidade se cruzam, entender as dinâmicas territoriais de exploração e avaliar o que as políticas públicas atuais já realizam, identificando o que efetivamente funciona ou carece de revisão.

“De posse dos índices obtidos num robusto levantamento quantitativo, as equipes de pesquisadores partirão para o campo nas cinco regiões do país, focando duas localidades críticas por macrorregião — prioritariamente, polos metropolitanos que abriguem unidades socioeducativas de internação”, descreve a professora.

Inovação metodológica

A pesquisa aposta em uma tecnologia de escuta que, segundo Andréa Guerra, busca capturar o que os números, sozinhos, não conseguem revelar. A inovação metodológica reside na soma do rigor estatístico da sociologia com a profundidade da psicanálise, aplicada por meio de conversações psicanalíticas e narrativas memorialísticas. “A ideia é que os sujeitos nos digam sobre as questões que os atravessam de maneira coletiva, porque ali vamos entender como eles organizam as narrativas e as discursividades”, explica.

A operacionalização do levantamento em escala nacional exige uma estrutura de campo complexa e capilarizada. Também coordenada pelos professores Cláudio Beato, Cláudio Santiago e Bráulio Figueiredo, todos do Departamento de Sociologia, a pesquisa mobilizará quatro supervisores de campo encarregados de articular as ações em cada região.

A coleta de dados será feita por equipes locais — bases de pesquisadores com longa trajetória no atendimento a adolescentes e legitimidade necessária para transitar em áreas de vulnerabilidade. Esse corpo técnico atuará na linha de frente da sensibilização, estabelecendo o diálogo com diretores de unidades socioeducativas, conselheiros tutelares, juízes e técnicos das redes Creas e Cras [estruturas públicas da assistência social]. “A rede de pesquisadores locais é fundamental para garantir que a abordagem ocorra de forma ética, segura e contextualizada”, complementa Andréa Guerra.

Associação livre coletivizada

O processo qualitativo começa com a formação de grupos de conversação, nos quais estudantes de ensino médio e adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas ou protetivas discutem coletivamente os impasses territoriais. Em vez de uma entrevista estruturada, a técnica utiliza a associação livre coletivizada, metodologia que permite que os elementos simbólicos que organizam a vida desses jovens emerjam de forma espontânea.

Dessa base coletiva, serão selecionados voluntários para as narrativas memorialísticas, focadas em trajetórias de vida e nos chamados turning points (marcos de inflexão) — momentos cruciais como a perda de um amigo ou a saída do pai de casa. “Por meio de um, a gente aprende como vários deles funcionam na relação com a desistência do crime e com as possibilidades de outras trajetórias que não terminem nos ‘três cês’: cadeira de rodas, caixão ou cadeia”, reflete Andréa Guerra.

O material coletado nas entrevistas será entregue a artistas que traduzirão a humanidade dos relatos em fotografias, pinturas ou poesias — obras de arte que serão entregues aos jovens. “Esse processo não é meramente estético; é uma forma de validar a humanidade daqueles relatos, transformando dor em potência antes da construção final das políticas públicas”, esmiúça a professora.

Saiba mais na matéria completa de Matheus Espíndola para o Portal UFMG.

Fonte

Assessoria de Imprensa da UFMG

assessoriadeimprensa@ufmg.br

https://www.ufmg.br/comunicacao/assessoria-de-imprensa