Celebração à mulher negra: Rádio UFMG Educativa veicula leitura de ‘Úrsula’, de Maria Firmina dos Reis
Leitura coletiva feita por 21 mulheres negras que fazem parte da história da emissora vai ao ar no próximo domingo, Dia Internacional da Mulher, a partir das 11h
Por Hugo Rafael
O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, será especial na UFMG Educativa: a emissora veicula, a partir das 11h de domingo, uma leitura coletiva do livro Úrsula, da escritora Maria Firmina dos Reis. A produção especial celebra a mulher e os 20 anos da rádio, completados em setembro de 2025, e será veiculada sem intervalos na programação. No dia, excepcionalmente, não será veiculado o programa Batuque na Cozinha.
Como aquecimento para a leitura, o programa Universo Literário leva ao ar, a partir desta terça-feira, 3, uma série de entrevistas sobre a obra e a autora. O programa começou às 8h. O primeiro convidado foi o editor, professor e poeta Eduardo Rodrigues Vianna, que falou da edição de Úrsula publicada pelo projeto Cadernos do Mundo Inteiro – editora nacional e popular, a primeira do Brasil especializada em Recursos Educacionais Abertos. Na quarta-feira, 4, a pesquisadora pós-doutoral e professora no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp Laísa Marra de Paula Cunha Bastos aborda sua pesquisa de doutorado, defendida em 2020, no Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Literários da UFMG. Intitulada A narrativa de Maria Firmina dos Reis: nação e colonialidade, o estudo investiga as maneiras pelas quais a narrativa da autora maranhense articula os conceitos de nação e colonialidade.
Na quinta-feira, 5, a escritora, cordelista e contadora de histórias Madu Costa vai abordar a diferença da recepção e da leitura do livro na época do seu lançamento, ao longo dos anos e atualmente. Madu atua como mediadora e coordenadora do Clube do Livro Letramento Racial, que discutiu Úrsula e obras de outras autoras negras brasileiras.
A última entrevista será na sexta-feira, 6, com a professora Aline Alves Arruda, do Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Betim. Doutora em Estudos Literários pela UFMG, com estágio pós-doutoral em Literatura e Estudos da Linguagem na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), ela desenvolve projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados à literatura afro-brasileira, à formação de leitores e às relações entre arte, educação e cultura.
Vozes negras
A obra de Maria Firmina dos Reis vai ao ar na voz de 21 mulheres negras que fazem parte das duas décadas de história da Rádio UFMG Educativa. Uma dessas mulheres é a jornalista Jaiane Souza, produtora do programa Universo Literário, que também dirigiu o especial. Ela explica que as mulheres que participam da leitura – que inclui prólogo, epílogo e 20 capítulos – são ex-bolsistas, integrantes do quadro de funcionárias do Centro de Comunicação (Cedecom) da UFMG, professoras e entrevistadas.
“Inicialmente foi um desafio reunir os nomes, já que o ambiente da universidade e do mercado de trabalho é majoritariamente composto de pessoas brancas. Superado esse desafio inicial, foi emocionante receber cada uma das mulheres no nosso espaço, conversar e saber um pouco mais sobre elas, suas histórias, percepções sobre o livro e sobre Maria Firmina dos Reis. Foi um trabalho de produção e gravação minucioso, que durou alguns meses, mas acredito que tenha sido o tempo certo para que ele fosse construído e concretizado da forma que deveria ser”, assegura.
A leitura coletiva atual remete a uma das iniciativas de comemoração da primeira década da emissora, em 2015: a leitura do clássico Dom Casmurro, de Machado de Assis. “Desta vez decidimos fazer a leitura de um livro escrito por uma mulher negra – possivelmente o primeiro publicado em toda a América Latina, quando isso ainda não era visto como uma possibilidade real. Úrsula é um livro considerado revolucionário para a sua época. É uma obra abolicionista, uma vez que já criticava o sistema escravocrata, mesmo que indiretamente”, exemplifica Jaiane Souza.
Compromisso com a pluralidade
Presente em todas as fases do projeto, a produtora e diretora do especial destaca a alegria e a responsabilidade de conduzir um processo como este para celebrar as mulheres e as duas décadas da Rádio UFMG Educativa, emissora comprometida com uma comunicação pública e democrática. “É de extrema relevância que esse projeto tenha sido desenvolvido e executado dentro de uma rádio educativa, como a UFMG Educativa. Isso reforça nosso papel e nosso compromisso com a informação, a reflexão e a pluralidade de vozes em transmissão”, garante Jaiane Souza.
A escolha por Maria Firmina dos Reis foi feita pela equipe após a decisão de promover um resgate da história da literatura feminina no Brasil, especialmente de obras escritas por mulheres negras. Uma das iniciativas da UFMG que promove esse tipo de resgate, focado na literatura afro-brasileira escrita por homens e mulheres, é o Literafro. O professor Eduardo de Assis Duarte, que compõe a Comissão Editorial Executiva do projeto, conta, em texto publicado no Portal Literafro, que Úrsula foi publicado sem o nome da autora na capa.
“Como era comum numa época em que as mulheres viviam submetidas a inúmeras limitações e preconceitos, Maria Firmina dos Reis omite seu nome tanto na capa quanto na folha de rosto de Úrsula, ali consignando apenas o pseudônimo ‘uma maranhense’. Desta forma, a ausência do nome, aliada à indicação da autoria feminina e, ainda, a procedência da distante província nordestina, juntam-se ao tratamento absolutamente inovador dado ao tema da escravidão no contexto do patriarcado brasileiro”, destaca.
Para Eduardo Duarte, de tal ausência resulta “uma espessa cortina de silêncio” que envolve Maria Firmina dos Reis ao longo de mais de um século. “Sílvio Romero e José Veríssimo a ignoram. E os demais expoentes de nossa historiografia literária fazem o mesmo. À exceção de Sacramento Blake, nenhum deles a menciona. O romance está ausente das páginas de Antonio Candido, Afrânio Coutinho, Lúcia Miguel Pereira, Nelson Werneck Sodré e Alfredo Bosi, entre outros”, escreve.
Civilização e liberdade
Filha de Leonor Felipe dos Reis e João Pedro Esteves, Maria Firmina dos Reis nasceu em 11 de outubro de 1825, em São Luiz, capital do Maranhão. Em 1830, mudou-se com a família para a vila de São José de Guimarães, onde viveu parte de sua vida na casa de uma tia materna. Aos 22 anos, começa a atuar como professora de primeiras letras, atividade que exerce até se aposentar, em 1881. Maria Firmina atuou também na imprensa maranhense e, em sua produção literária, escreveu e publicou romances, poesias e crônicas. Morreu em 11 de novembro de 1917, aos 92 anos.
Publicado por ela em 1859, o livro Úrsula narra, aparentemente, uma história de amor entre a protagonista, que dá nome à obra, e Tancredo. Entretanto, Maria Firmina apresenta temáticas e propõe discussões que vão muito além de um mero romance: ao longo da história, a autora debate, de forma inovadora, o sequestro e tráfico de pessoas e o processo de escravização. O perfil biográfico da autora no Portal Literafro destaca ainda que “ela traz para a nascente ficção brasileira a África como espaço de civilização e de liberdade. [Firmina também] denuncia os traficantes europeus como ‘bárbaros’, contrapondo-se desta forma ao pensamento hegeliano voltado para justificar a colonização escravista como empreendimento civilizatório. E [faz isso] bem antes de Navio negreiro, de Castro Alves”.
Equipe completa
Participaram da leitura do livro as seguintes mulheres negras: Alícia Coura, Aline Assis, Camila Meira, Claudia Guarnieri, Cristina Souza, Eliane Estevão, Estela Costa Tibúrcio, Jade Barbosa, Jaiane Souza, Juhlia Santos, Júlia Dornelas, Késsia Teixeira de Paula, Licínia Maria Correa, Madu Costa, Maíra Souto, Mayara Nicolau de Paula, Nilma Lino Gomes, Soraya Fideles, Valéria Cristina de Oliveira, Viviane de Souza Alves e Yolanda Assunção.
A produção e a direção da leitura especial de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, são da jornalista Jaiane Souza, que também participou da edição, ao lado de Clarice Oliveira, e dos trabalhos técnicos, junto a Breno Rodrigues, Clarice Oliveira e Cláudia Zazá. A supervisão geral de produção e conteúdo é da jornalista Luíza Glória.
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