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BH. A cidade de cada um

Em livro, jornalista da UFMG ilumina a memória do bairro Pindorama e debate tensões entre centro e periferia

Resultado de minuciosa pesquisa documental, obra de Ewerton Martins Ribeiro faz um relato afetivo e crítico do local onde morou por mais de duas décadas

Por Tiago de Holanda

Vista do bairro Pindorama, retratado no mais recente livro da coleção ‘BH. Cidade de cada um’
Foto: Ewerton Martins Ribeiro

Uma cidade violentamente cindida emerge no livro Pindorama (Conceito Editorial), de Ewerton Martins Ribeiro, jornalista do Centro de Comunicação (Cedecom) da UFMG e doutor em estudos literários pela Universidade. A obra será lançada neste sábado, 25, das 11h às 14h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi).

Trata-se do 43º título da coleção BH. A cidade de cada um, destinada a reunir afetos e histórias vinculados a diversos lugares da capital mineira. O novo trabalho, como indica seu nome, dedica-se ao bairro Pindorama, situado na região Noroeste de Belo Horizonte, na divisa com o município de Contagem. Um bairro exemplar da convivência solidária e das dificuldades das periferias, descreve Martins Ribeiro, que lá chegou aos três anos de idade e residiu por cerca de duas décadas.

Na obra, memórias pessoais do autor e de moradores entrevistados misturam-se a informações históricas, que incluem algumas de caráter linguístico (busca-se reconstituir a problemática origem da palavra “Pindorama”) e até rodoviário (um capítulo recorda os meios e obstáculos para chegar ao bairro, desde o tempo dos bondes).

“Para [escrever] este livro, perambulei adoidado pelo Pindorama, revirei leis e documentos em arquivos públicos, consultei teses e dissertações em bancos de dados, garimpei e comparei os mais antigos mapas, buquinei um sacolão de livros em sebos e bibliotecas, espanei ácaros dos mais variados jornais nas hemerotecas”, relata o autor, em um trecho da obra.

‘Pindorama’ mistura resgate histórico e análise social de um bairro periférico de Belo Horizonte
Imagem: Conceito Editorial

A capa da publicação exibe um dos resultados da esmerada pesquisa: em preto e branco, pessoas aglomeram-se em torno de ônibus enfileirados, em 1966, no dia da inauguração da linha 107-Pindorama, primeira a atender o bairro. “Foi um périplo conseguir essa foto. Ela circulava em fóruns da internet em baixíssima resolução e sem nenhum crédito”, contou o jornalista, que, em busca da imagem original, examinou mais de 12 mil fotos do acervo do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte (APCBH). “Encontrei-a ‘no braço’, por assim dizer. Pude recuperá-la em alta resolução, com crédito e tudo o mais. Imagine a felicidade. A capa do livro é, portanto, a primeira aparição pública dessa foto devidamente creditada”, acrescentou.

A imagem pertence ao Fundo Ascom do APCBH. “A escolha da capa reafirma o espaço privilegiado que o tema ônibus-transporte público tem no livro. Para as periferias, essa é uma questão mais premente do que para os bairros mais centrais”, explicou o jornalista.

Campo de concentração pós-moderno
Em alguns trechos de Pindorama, Ewerton Martins Ribeiro relata, em perspectiva mais ampla, a oposição entre os centros de poder e os espaços periféricos: “periferias como a do Pindorama funcionam como campos de concentração pós-modernos, quando não de extermínio. Na prática, são áreas de detenção subjetiva, supermonitoradas e subatendidas, que subtraem subjetividades e confinam pessoas numa condição de existência e dignidade inferior àquela que é oferecida aos que residem no espaço exterior a esses campos”. A denúncia sobressai em comentários ao aterro sanitário instalado, em 1975, numa das margens do Pindorama. O autor constata que a dualidade centro/periferia alcança o auge em Belo Horizonte: à periferia cabe “fazer a depuração (objetiva e subjetiva) dos humores putrefatos produzidos pelo sôfrego centro citadino, onde ocorre a fruição monárquica do poder”.

Por outro lado, o aterro sanitário permite ressaltar que o Pindorama, a despeito da unidade (geográfica, cultural, ética) que o ex-morador lhe atribui, tem suas próprias cisões socioeconômicas. O lixão atraiu para as vizinhanças famílias que nele esperavam encontrar alimentos e outros recursos. Surgiu, assim, a Vila Coqueiral, à qual o livro se refere ora como parte do Pindorama, ora como se não o integrasse. Entre a favela e outras partes do bairro, o autor nota uma “decisiva diferença” quanto às condições de vida. Mesmo fora da favela, a pobreza geral teria divisões que, eventualmente, separariam “a nutrição e a desnutrição, a alimentação e a fome”.

Em meio a essa gradação, o autor avalia ter sido um dos “privilegiados”, uma das exceções à regra. Tal posição, de uma quase exterioridade dentro do bairro, além de expandida quando Ewerton se mudou da região (ou, como ele escreve: teve a “sorte de sair“), continuou a se desenvolver no livro: o autor-narrador oscila entre um autodenominado “periférico” e alguém inelutavelmente deslocado dessa situação; entre a pretensão de falar em nome da suposta identidade “pindoramense” e a ideia de uma voz múltipla, incoerente, soando por e contra si mesma. O caráter oscilante é, às vezes, vislumbrado pelo narrador, quando enuncia, por exemplo, sua própria “ambiguidade ontológica”, na qual ainda pertence ao Pindorama, mas “não integra mais”, apesar de, paradoxalmente, “ainda integrá-lo, enquanto pertença”.

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Realidade, imaginação e utopia
Essa oscilação é sugerida na variação pronominal em que o bairro é ora um terceiro (“seu povo”, “seus quinhões”), ora um “nós” (“nossa gente”, “nossas ruas”). A relação dúbia com Pindorama é perceptível, também, nas citações literárias a que o narrador recorre, com o intuito de comunicar “aos de fora os sentidos do dentro”. Uma espécie de rotatória situada no bairro “faz lembrar o Odradek kafkiano”; a Rua Guararapes, uma das principais vias locais, é introduzida pelo poema do mesmo nome, de Oswald de Andrade. Essas e outras referências remetem ao percurso pelo qual o autor se apartou do Pindorama, levado pelo propósito de voltar-se à literatura, ou, como ele define, de “encontrar lugar sob o sol literário desta nossa obnubilada metrópole”. Desse modo, o próprio “dentro” do pindoramense Ewerton Martins Ribeiro direcionava-se para fora, para o trajeto que, exitosa e incomodamente, conduziu aos “salões parisienses da nossa Centro-Sul” e à “natureza já bastante aburguesada do autor”.

Ao construir “seu” Pindorama, talvez o autor se coloque nem dentro nem fora de um lugar, mas num instável entremeio, como sugere a imagem de alguém que, desprendido do chão, não consegue voar. O capítulo que apresenta essa imagem é concluído no ensaio “O mapa do desterro”, no qual a flutuante interrogação ganha a forma de uma queda interminável, sem fundo. “Desterrado é o homem que vive em país algum, exceto sua nação virtual, sua cidade imaginada, seu bairro ficcional”, descreve Ewerton Martins Ribeiro.

O jornalista Ewerton Martins Ribeiro: relação ambígua com o bairro onde passou boa parte da sua juventude
Foto: Divulgação

Pindorama pode então ser percebido tanto como conjunto de dados que o escritor pretende retratar quanto como espaço potencial, que ganha corpo ao recriar esses dados e outros, isto é, aqueles que uma operação de leitura – promovendo um novo “desterro” – vier a mobilizar. Um ganhar corpo que o livro pede para não terminar, pois Pindorama, como representante das periferias, também é descrito como uma exequível utopia de um mundo feliz, animado pela “nossa experiência comunitária humana mais original, atravessada por certa noção natural de solidariedade e partilha, presença e pertencimento, integração”.

Outras publicações
Antes de Pindorama, Ewerton Martins Ribeiro publicou a novela A grande marcha (editoras Circuito, 2014, e galáxia, 2015, novela) e o livro infantojuvenil Ficções do minidicionário ou A guerra secreta dos insetos (editora Urutau, 2022). Também organizou, junto com Elcio Loureiro Cornelsen, a coletânea de ensaios Vida em tempos sombrios: narrativas de Franz Kafka (Labed/UFMG, 2024).

Além de Ewerton, outros autores ligados à UFMG já lançaram livros pela coleção BH. A cidade de cada um, que estreou em 2004, idealizada pelos jornalistas José Eduardo Gonçalves e Sílvia Rubião. Em 2005, a jornalista Clara Arreguy, ex-aluna da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), publicou Fafich, 5º volume da coleção. No ano seguinte, João Antonio de Paula, professor da Faculdade de Ciências Econômicas (Face), lançou Livraria Amadeu, o 8º título da série.

Em 2007, Flávio Carsalade, professor da Escola de Arquitetura, publicou Pampulha, 10º volume da coleção. Em 2012, a jornalista Nereide Brandão, ex-diretora do Cedecom da UFMG, lançou o 22º volume, Serra, sobre o bairro em que nasceu e foi criada. Em 2019, foi a vez de Heloisa Starling, professora do Departamento de História, publicar Campus UFMG, sobre o principal território da Universidade. A obra saiu como o 33º volume da série. Em 2025, a jornalista aposentada da UFMG Rosaly Senra lançou Santa Efigênia, o 41º volume da coleção. No mesmo ano, Regina Horta Duarte, professora do Departamento de História, assinou o volume seguinte, Jardim Zoológico.

Livro: Pindorama

Autor: Ewerton Martins Ribeiro

Editora: Conceito Editorial (Coleção BH. A cidade de cada um) R$ 50 / 152 páginas

Lançamento: 25/4, sábado, das 11h às 14h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi)

Categoria: Arte e Cultura

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