Em livro, professor da Belas Artes resgata saberes negros presentes na origem da improvisação teatral
Obra de Altemar Di Monteiro será lançada neste sábado, 13, no Espaço do Conhecimento
Por Alessandra Ribeiro
•Com Editora UFMG
O dramaturgo e professor da Escola de Belas Artes (EBA) Altemar Di Monteiro lança o livro Jogo negro no mundo, publicado pela Editora UFMG, neste sábado, 13 de junho, às 10h, no Espaço do Conhecimento. Na obra, o autor constrói uma reflexão sobre teatro, pedagogia e existência. O Espaço do Conhecimento fica na Praça da Liberdade, 700, bairro Funcionários, em Belo Horizonte.
O livro é resultado de investigações práticas em diálogo com as vivências de estudantes da Oficina de Improvisação, disciplina que integra o currículo obrigatório dos cursos de bacharelado e licenciatura em Teatro da UFMG. A obra reflete também a experiência do autor na Escola de Teatros Periféricos, projeto de formação do grupo Nóis de Teatro, do qual é um dos fundadores e que tem sede em Fortaleza, no Ceará.
“Eu trouxe para a oficina da UFMG a possibilidade de pensarmos uma formação em improvisação a partir dos saberes negros, sobretudo defendendo a relação original do pensamento sobre a improvisação com a dimensão dos teatros e das teatralidades africanos, das cenas negras das periferias, dos movimentos culturais das juventudes, das batalhas de MCs, dos duelos de vogue, da relação com os saberes dos terreiros”, conta.
O objetivo é pensar a formação de atores e futuros professores com base em outros modelos, construindo o que ele chama de “projeto de formação integrada”. “Na formação em improvisação desenvolvida nas escolas de teatro, ainda temos uma forma de lidar com esses conteúdos muito focada na tradição europeia e norte-americana”, observa.
Em Jogo negro no mundo, a improvisação é mobilizada para se pensar além da técnica teatral. Sob essa perspectiva, ela passa a ser compreendida como estratégia histórica de criação e sobrevivência das populações negras diante do apagamento de suas cosmopercepções.
“É importante dizer que isso não é uma negação da formação técnica, muito pelo contrário. Estamos falando também de saberes pautados na técnica, na repetição, na construção de métodos e fundamentos, que podem organizar outros modos de trabalho com a performance. Eu sempre digo que é necessário tomar muito cuidado, pois pode parecer que os saberes da negrura não habitam a seara da técnica, mas habitam, sim”, ressalta.
Exu e encruzilhada
A data do lançamento, 13 de junho, foi escolhida por ser tradicionalmente associada às celebrações de Exu – entidade fundamental em cosmologias afro-brasileiras, ligada à comunicação, ao movimento, às encruzilhadas e à abertura dos caminhos. Presença conceitual decisiva no livro, Exu aparece não apenas como referência simbólica, mas também como fundamento epistemológico e político de uma pedagogia teatral negra baseada na invenção, na relação e no deslocamento.
Com prefácio assinado pela encenadora brasileira Onisajé, uma referência dos teatros negros, o livro se organiza com base em sete saberes estético-corpóreos negrodiaspóricos – Agô, Axé, Encruzilhada, Auê, Ginga, Ebó e Adúpé – que articulam práticas de ensino, criação, metodologia e convivência. O autor propõe campos relacionais de experiência nos quais corpo, memória, estética e política se entrelaçam.
A encruzilhada, território simbólico de Exu, surge como uma das imagens centrais da obra: espaço de trânsito, conflito, encontro e transformação. É nesse lugar que o teatro deixa de ser apenas representação para se tornar modo de existência e relação com o mundo.
Na orelha da publicação, o professor Rogério Lopes destaca que a singularidade da obra reside na construção de um ensino de teatro negrorreferenciado que articula arte, vida e espiritualidade. “Mais do que um conjunto de técnicas, o que interessa são os princípios que regem esses jogos”, afirma.
Programação
Em diálogo com os princípios que estruturam o livro, a programação do evento de lançamento foi concebida como uma experiência artística e coletiva, que reunirá ritual, performance e leitura cênica.
As atividades começam às 10h, com Agô, saudação a Exu, conduzida por Babá Everton de Iyemojá, líder espiritual do Ilê Ogodo Lomiwa, de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e filho de Mãe Beata de Iemanjá (1931-2017), expoente da luta antirracista e do combate à intolerância religiosa no Brasil. A presença de Babá Everton dialoga diretamente com os fundamentos conceituais da obra, especialmente com a compreensão das culturas de terreiro como espaços de produção de conhecimento, memória e modos de existência.
Em seguida, haverá performance do Negruras, grupo de pesquisa da Escola de Belas Artes (EBA) liderado pelo autor. Às 10h30, Altemar Di Monteiro convida o artista e professor Gil Amâncio para uma leitura performativa de trechos da obra. A programação inclui ainda a apresentação da Coleção Artes Cênicas, da Editora UFMG, pela professora da Escola de Belas Artes Rita de Cássia Gusmão. O evento será encerrado com a tradicional sessão de autógrafos.
Livro: Jogo negro no mundo: teatro e improvisação na diáspora
Autor: Altemar Di Monteiro
Editora UFMG
R$ 69 / 332 páginas
Mais lidos
Semana
-
Expansão MEC autoriza credenciamento do campus da UFMG em Betim
Decisão abre caminho para a Universidade aprofundar a proposta de implantação da unidade acadêmica
-
Políticas públicas Seminário de Diamantina abre inscrições para participantes
Prazo para os quatro minicursos termina em 15 de julho; inscrições para participação geral podem ser feitas até 9 de agosto
-
Preservação ambiental Restauração da Mata Atlântica avança, mas evidências de eficácia ainda são desiguais em áreas estratégicas
Pesquisadores do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG fizeram ampla revisão de estudos científicos e de iniciativas de recuperação do bioma
-
EDITORA UFMG Em livro, Laura Gioeni mobiliza a filosofia para refletir sobre processos de restauração
Autora italiana discute restaurações que, em busca de uma hipotética originalidade, ignoram e apagam transformações vividas ao longo da história; obra foi traduzida por Wander Melo Miranda e Henrique Burigo
-
Lançamento Pesquisa qualitativa ganha manual inédito e acessível pela Editora UFMG
Guia prático elaborado pelo professor Marden Campos, da Fafich, também abre espaço para reflexão sobre os impactos da inteligência artificial
Notícias por categoria
Arte e Cultura
-
TV UFMG ‘Panorâmica Perspectiva’ discute novas formas de experimentar a arte
Professor Eduardo de Jesus, do Departamento de Comunicação da Fafich, reflete sobre o papel do artista contemporâneo, que já não pode mais ser enquadrado em suportes estanques
-
Panorâmica Janela Documentário ‘Meu avô: campeão do gelo’ entrelaça futebol e memórias de família
Atravessado pelo olhar afetuoso do neto, filme lança luz sobre a vida de Moreno, atleta que participou da histórica excursão do Atlético em gramados europeus em 1950
-
Drag King Arte que explora e questiona masculinidades
Reportagem da TV UFMG conversou com integrantes do coletivo Manos Específicos, dedicado a essa expressão em Belo Horizonte
-
Estraladabão Um peixinho de estimação e os desafios da memória: os novos lançamentos do selo infantil da Editora UFMG
Os pequenos leitores são estimulados a refletir sobre a relação com a natureza e com o Alzheimer, doença que afeta a convivência familiar
-
Tempo de equívocos Editora UFMG lança tradução inédita no Brasil de obra clássica de Henri Lefebvre
Volume traz entrevista histórica concedida pelo autor à Rádio France Inter, em 1975
Feed RSS
Receba atualizações das últimas notícias publicadas.