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UFMG Centenária

‘Não é que o fascismo tenha voltado; ele nunca foi embora’, afirma Vladimir Safatle em aula magna

Em conferência, o filósofo destacou que o fenômeno é estrutural e associado a escolhas racionais em momentos de crise

Por Luana Macieira

Vladimir Safatle fala para o público o auditório da reitoria. Ao fundo, uma imagem do magnata Elon Musk, dono do X
Safatle: função do pensamento crítico é nomear os problemas de forma correta
Foto: Raphaella Dias | UFMG

O auditório da Reitoria, no campus Pampulha da UFMG, ficou lotado nesta segunda-feira, 2, para a aula magna proferida por Vladimir Safatle. O filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) foi o quarto convidado do ciclo de Conferências UFMG Centenária – universidade e democracia, iniciativa que integra as comemorações dos 100 anos da Universidade, a serem celebrados em 2027.

Safatle dirigiu-se aos estudantes no primeiro dia do ano letivo de 2026, salientando a importância de nomear com precisão o fascismo que permeia a sociedade contemporânea. Sua exposição dialogou com seu livro mais recente, A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. O professor iniciou a aula magna lamentando o fato de vivermos em uma época em que o pensamento crítico se encontra sempre um passo atrás da catástrofe, quando sua função deveria ser a de antecipá-la, favorecendo a autorreflexão da sociedade acerca dos desafios que se colocam no horizonte.

Segundo o professor, esse atraso na autorreflexão favorece a consolidação de um fascismo de alcance global. Ele recordou que o Brasil foi o país que abrigou o maior partido fascista fora da Europa, a Ação Integralista Brasileira (AIB), que, na década de 1930, chegou a reunir mais de 1,2 milhão de filiados. “Essas pessoas não desapareceram ao longo do tempo; nós temos um fascista na nossa árvore genealógica. Quando a gente viu, em 2021, o então presidente Jair Bolsonaro assinar uma carta à nação, afirmando que não daria um golpe, mas escrevendo embaixo ‘Deus, pátria e família’ (um lema integralista), isso foi a assunção de um processo histórico que nos é constituinte.”

Ele acrescentou que um dos maiores equívocos das universidades brasileiras foi ter negligenciado o fato de que o fascismo nacional constitui um eixo central da formação da sociedade brasileira e representa um risco sempre presente. “Vivemos em uma época de miríade de termos usados por todos os lados para substituir a falavra ‘fascismo’, como ‘conservadorismo’ e ‘populismo de direita’, por exemplo. Isso acaba criando uma incapacidade de percepção de certos processos que se repetem no interior da nossa sociedade. Não é que o fascismo tenha voltado. Na verdade, ele nunca foi embora.”

Vladimir Saflate ministra aula magna
Safatle explicou o conceito de fascismo estrutural
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Escolha racional
Vladimir Safatle explicou que há, ao menos, duas formas de compreender o fascismo. A primeira, de caráter histórico, circunscreve-o a um processo específico, que não retornaria nos mesmos moldes, uma vez que os contextos social e histórico se transformam. A segunda abordagem – considerada por ele a mais adequada – concebe o fascismo como um fenômeno estrutural, isto é, como uma tendência interna aos próprios processos de modernização social liberal. Nessa perspectiva, o fascismo não seria um desvio irracional nem fruto de impulsos descontrolados, mas uma possibilidade inscrita na dinâmica das sociedades modernas, que ganha força especialmente em contextos de crise.

“Há um elemento estrutural idêntico naquele fascismo de antes e no de agora. Em ambos os casos, ele tende a se expandir em situações de crises estruturais, mas sua forma de violência permanece, em larga medida, na relação de nossas sociedades a certos setores da população. Ele aparece nos momentos de crise econômica, política, social, demográfica e ecológica. O fascismo se mantém por meio dessas crises, porque elas criam uma nova forma de gestão da sociedade. Dessa maneira, o fascismo se torna uma escolha racional”, disse.

Para explicar a escolha racional do regime fascista, Safatle explicou que é necessário estar atento às formas de violência que permanecem na sociedade ao longo dos anos. Para o professor, a definição de fascismo é contra uma concepção taxonômica, visto que é impossível definir características fixas para o regime.

“Fenômenos políticos nunca retornam da mesma maneira, mas se adaptam a novos contextos. Há fascismos sem expansionismo militar, como o ocorrido na Espanha de Franco, ou sem liderança personalizada, como aquele visto na África do Sul, na época do Apartheid. Essas diferenças se manifestam porque o fascismo é uma forma de violência que visa reconstruir os laços sociais a partir da generalização da dessensibilização e da indiferença como afeto social central.”

Ele acrescentou que a tendência de psicologizar comportamentos de extrema direita acaba dificultando o entendimento da escolha racional que culmina no fascismo. “Tendemos a achar que o sujeito é fascista ou de extrema direita porque tem um déficit cognitivo ou moral. Isso é mais uma crença narcísica para nossa superioridade moral do que uma descrição daquilo que de fato está acontecendo. Essa explicação não dá conta do problema central que é entender o cálculo racional por trás da escolha do fascismo. O esclarecimento nunca foi um anteparo contra a barbárie”.

Vladimir Saflate ministra aula magna
Safatle: relação entre neoliberalismo e fascismo
Foto: Raphaella Dias | UFMG

O fascismo dessensibiliza
Para Vladimir Safatle, as universidades, além de desempenharem papel fundamental na compreensão e na nomeação dos fenômenos sociais, contribuem para interpretar o fascismo como um projeto de reconstrução da sociedade fundado na dessensibilização.

“Uma das funções do pensamento crítico é nomear os problemas de forma correta. O fascismo é uma forma específica de violência que visa reconstruir os laços sociais, é a violência como a linguagem da sociedade. Essa violência reconstrói a sociedade porque a faz entrar em um regime onde os afetos sociais são a dessensibilização e a indiferença. Isso faz a violência circular de outra forma porque  os vínculos são construídos  a partir da ausência de vínculos”, explicou.

Safatle acrescentou que o liberalismo e o neoliberalismo também devem ser responsabilizados pelo aumento da indiferença e da dessensibilização que afeta as relações sociais. “Temos que abandonar a ideia de que o liberalismo está baseado na democracia representativa e na institucionalização da liberdade individual, até porque liberdade individual é um termo que não faz sentido. Liberdade não é um predicado de indivíduos: é impossível um indivíduo ser livre em uma sociedade não livre.”

O liberalismo, afirmou o filósofo, está assentado no colonialismo e em regimes de gestão fascista de populações. Essa relação se estabelece porque a dinâmica liberal exigiria um processo profundo de dessensibilização social. “As sociedades que chamamos de democracias liberais são, na verdade, fascismos restritos a certos grupos de pessoas, enquanto as democracias são direcionadas a outros grupos. Há uma divisão clara entre dois tipos de sujeitos: os que são reconhecidos como ‘pessoas’ e aqueles que são reconhecidos como ‘coisa’.”

A esse raciocínio, Safatle acrescentou que o colonialismo também está na raiz do fascismo, uma vez que todas as tecnologias de violência associadas a ele teriam sido inicialmente desenvolvidas nos espaços coloniais – primeiros territórios a experimentar genocídios, práticas sistemáticas de segregação e massacres. “O que é a dinâmica de dessensibilização que é a nossa herança colonial? É a normalização do direito de massacre. É uma política de Estado que mostra em que regiões e contra quais populações nossos estados sempre foram fascistas. O colonialismo dessensibiliza. No Brasil, as relações coloniais nunca desapareceram.”

Vladimir Saflate ministra aula magna
Safatle falou para uma plateia que lotou o auditório da Reitoria no primeiro dia letivo
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Crise psíquica e decomposição do corpo social
No momento final da aula magna, Vladimir Safatle afirmou que, quando as pessoas se percebem aprisionadas em crises estacionárias – que parecem não ter fim –, tendem a deixar de acreditar na existência de forças políticas capazes de alterar os modos de reprodução material da sociedade. Para o filósofo, essa descrença no futuro engendra uma crise psíquica profunda.

“Se as crises são ingovernáveis, há de se aceitar que não há sociedade para todos. Então resta salvar uma parte dela e deixar o resto perecer, submetê-lo à miséria, expulsá-lo da nossa sociedade, deportá-lo em massa. É uma lógica de explicitação da guerra civil, que se torna a forma fundamental do laço social. A guerra se torna uma forma paradoxal de estabilização social e é uma guerra que não é feita para se resolver, mas para permanecer.”

A função de proteção social é, então, segundo Safatle, abandonada pelo Estado, o que provoca a implosão das estruturas de solidariedade que articulam a vida coletiva. Esse processo é por ele denominado “era de crise psíquica produzida pelo neoliberalismo”, uma vez que a centralidade conferida à identidade individual neoliberal cria condições favoráveis às dinâmicas fascistas contemporâneas.

“A guerra se torna elemento constituinte dos Estados nações, com expansionismo militar e seu suprematismo necessário. A decomposição neoliberal do corpo social significou a implosão de todas as estruturas de solidariedade. A única linguagem que passa a existir é a da ‘racionalidade econômica’. O cidadão passa a se auto avaliar por desempenho, performances e rendimento. Deixa de existir essa ‘coisa de sociedade’. Há, então, um aumento exponencial do sofrimento psíquico como saldo normal de nossos processos de socialização”, disse.

Safatle concluiu que a dinâmica fascista encontra no neoliberalismo suas condições ideais de desenvolvimento “porque o neoliberalismo necessita da despolitização da sociedade para impor a sua noção de liberdade como livre iniciativa e propriedade de si. Essa despolitização só pode ser violenta, então é por isso que as suas aplicações sempre foram através da lógica da guerra civil, seja por meio dos golpes militares, seja através da criminalização do conflito social.”

O professor exemplificou a crise psíquica com o aumento do número de pessoas com diagnósticos de depressão, estresse e ansiedade no Brasil. “Hoje, 28% da população brasileira sofre com esses problemas. Ao decompor o corpo social, você responsabiliza o ‘eu’, aumentando os casos de sofrimento psíquico. Esse  sofrimento é a expressão dos dilemas sociais atuais”, concluiu.

Capas dos volumes 1 e 2 da coleção O Centenário da UFMG
Obras foram lançadas na cerimônia de hoje
Foto: Raphaella Dias | UFMG

Lançamento dos volumes 1 e 2 da coleção O Centenário da UFMG
Além da aula magna de Vladimir Safatle, o ciclo de Conferências UFMG Centenária – universidade e democracia contou com o lançamento dos volumes 1 e 2 da coleção O Centenário da UFMG, de autoria do professor João Antonio de Paula, do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade. 

A obra, publicada pela Editora UFMG, “reúne registros históricos que ajudam a compreender a complexidade e a grandeza da Universidade, além de evidenciar a força humana e coletiva que sustenta a instituição desde a sua fundação”, afirmou a reitora Sandra Regina Goulart Almeida, na apresentação da coleção.

O momento também foi marcado por uma homenagem ao professor João Antonio de Paula, que completou 50 anos de docência e acaba de se aposentar da Universidade. Segundo a reitora, trata-se do reconhecimento de sua contribuição para celebração da memória e da história da UFMG.

As obras lançadas nesta manhã foram tema de reportagem publicada no Portal UFMG. 

A reitora Sandra Regina Goulart Almeida, o professor João Antonio de Paula e o vice-reitor Alessandro Fernandes Moreira durante o lançamento dos volumes 1 e 2 da Coleção O Centenário da UFMG
Sandra Goulart Almeida e Alessandro Fernandes Moreira homenagearam o professor João Antonio de Paula
Foto: Raphaella Dias | UFMG

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