Especialistas em educação condenam conteúdos virais contra cursos superiores
O discurso segundo o qual “faculdade não vale a pena" é analisado em reportagem especial da Rádio UFMG Educativa
Por Ruleandson do Carmo
•Com Breno Rodrigues
Dezenas de milhares de vídeos em redes sociais, como YouTube, TikTok e Instagram, viralizam, alcançando milhões de pessoas, com falas como: “priorize trabalhar e não estudar”, “faculdades não servem mais para nada e as pessoas insistem em fazer” ou ”se você for embora para os Estados Unidos da América e rodar de Uber, você ganha mais do que quem tem curso superior no Brasil”, entre outras ideias, que não encontram ancoragem nos dados oficiais sobre o tema.
Entidade destinada à promoção do bem-estar econômico e social dos países é a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Uma das métricas usadas pela organização para mensurar o avanço de uma nação é a porcentagem de pessoas com curso superior completo. Hoje, nos países desenvolvidos, a média é de 40% da população adulta e de 48% da população jovem com graduação. Enquanto isso, no Brasil, os números não chegam sequer à metade alcançada pelas nações desenvolvidas: apenas 18% da população brasileira concluiu algum curso superior, de acordo com o último Censo da Educação 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no último ano.
Empreendedorismo x faculdade
Entre os vários vídeos e textos contra as faculdades circulantes nas redes sociais, muitos dizem que empreender é supostamente melhor e mais vantajoso do que fazer uma graduação. Teria algum sentido colocar o empreendedorismo como inimigo do estudo superior?
Quem responde estudou o tema e entende de empreender, a professora Cleonice Borges de Souza, diretora do Centro de Empreendedorismo e Incubação da Universidade Federal de Goiás (UFG). Segundo Cleonice, “estudar é essencial para se criar e se manter um negócio, especialmente negócios mais potentes e de longa duração, fugindo daquele empreendedorismo de necessidade, em que a pessoa apenas faz algo com o que tem e para sobreviver. A partir da graduação, por meio das atividades de ensino, pesquisa e extensão, a pessoa conseguirá conectar os conhecimentos gerados dentro da academia com a sociedade, de modo a ampliar as possibilidades de negócios mais robustos e consolidados”.
O biólogo Alexsander Adonis concorda: “formei-me em Ciências Biológicas, essa foi a decisão mais importante da minha vida, porque me deu a base necessária para empreender e criar a minha empresa, a Belo Verde. Eu pude identificar uma demanda e dominar os processos de produção de brotos para restaurantes e para pessoas que desejam uma alimentação mais saudável e orgânica. A graduação me permitiu transformar o sonho de empreender em algo concreto e, assim, ter a satisfação de saber o que faço e trabalhar com o que eu acredito”.
Desinformação em forma de conteúdo: a quem interessa tal discurso?
Por meio do estudo, em especial da educação superior, na graduação e na pós-graduação, a professora da Faculdade de Educação da UFMG Bréscia Nonato viu a própria vida ser transformada: negra e vinda de uma família pobre da capital mineira, a doutora em Educação e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Educação Superior da Universidade,viveu uma ascensão social proporcionada pelo curso superior.
Ao visualizar alguns dos conteúdos virais contrários à graduação, Bréscia se assusta, em especial porque tais publicações propagam desinformação, enquanto os dados e estudos científicos mostram justamente o contrário – a faculdade vale, sim, a pena. “O ensino superior ainda é um dos principais caminhos de mobilidade social no Brasil. Temos dados do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], que mostram que ele amplia não só a renda, mas também o acesso a ocupações mais qualificadas. A gente sabe que não é uma garantia automática, mas a chance de uma vida mais tranquila, com mais qualidade, é mais facilmente alcançada com essa formação. Além disso, a universidade oferece repertório cultural, redes de contatos, com vínculos de apoio, e formação crítica, que ampliam possibilidades de vida, o que inclusive vai além do salário”, explica a pesquisadora, citando dados do Ipea de 2023, segundo os quais as pessoas com ensino superior completo ganham até quatro vezes mais do que quem tem apenas o ensino médio.
Para Bréscia, as postagens virais contra o curso superior são planejadas, para manter a desigualdade social: “Esse tipo de discurso não é neutro. Quando olhamos os dados, vemos que ele contraria evidências importantes: no Brasil e no mundo, quem tem ensino superior ganha mais. Portanto, desvalorizar a universidade pode funcionar como uma forma de desmobilizar o acesso a melhores condições de vida. Propagar esses conteúdos interessa, especialmente, àqueles que desejam a manutenção das desigualdades, porque afasta os jovens, especialmente os mais pobres, de um dos caminhos ainda mais consistente e seguro de mobilidade social: o curso superior”.
Ativista em defesa do acesso à educação, a presidenta da União Nacional dos Estudantes (Une), Priscila Borges acredita que os conteúdos virtuais contrários ao ensino superior desejam tornar as pessoas mais facilmente manipuláveis, no mercado de trabalho, e erram ao reduzirem a faculdade a uma visão utilitarista: “são discursos que miram as pessoas mais vulneráveis socioeconomicamente, que quer convencê-las de que não precisam do estudo superior para terem uma vida melhor. Quanto mais qualificada a classe trabalhadora, mais exigente ela se torna e mais luta por um emprego digno, pelo fim da escala 6×1, pelo fim da precarização e pela volta das oportunidades com carteira assinada, em vez do aumento dos trabalhos sem vínculo e sem direitos básicos. Querem afastar as pessoas do ensino superior justamente porque sabem do potencial transformador da educação, que ultrapassa um salário melhor. Mas não haverá desenvolvimento econômico e social se esvaziarem o papel da universidade”.
Novos valores
Filósofo por formação, o doutor em Educação pela UFMG Paulo Henrique Nogueira se dedica à filosofia da diferença e à defesa dos direitos humanos. Também professor da Universidade, Nogueira afirma: o fenômeno dos conteúdos virais na internet contra as faculdades é complexo e mistura alguns valores de parte da atual juventude. Segundo o pesquisador, “muitos dos jovens acreditam que podem acessar renda sem estudo, se tornando criadores de conteúdo para redes sociais. Além disso, há uma crítica e um deboche ao trabalho de carteira assinada, regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Parte considerável da juventude não quer ser CLT porque, para eles, isso significa ser escravo do trabalho, se submeter a horários rígidos durante mais de 30 anos, sem ter controle sobre a própria vida. Isso tudo coloca a formação superior em questão, especialmente porque, no Brasil, há a histórica luta por uma vaga no ensino superior, ainda mais intensa devido à desigualdade social. Os jovens estão exigindo novas formas de vida e trabalho e questionado se a faculdade vai garantir isso. São questionamentos, por vezes, pertinentes, mas é preciso entender que o curso superior continua sendo uma das poucas estratégias de mobilidade social que nós temos no país”.
Principal público-alvo dos vídeos contra as faculdades, estudantes do ensino médio têm sido impactados pelos conteúdos que sugerem não valer a pena fazer uma faculdade. Entretanto, a renda ainda impacta mais a decisão. De acordo com o Censo da Educação Superior de 2024, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a maior parte das matrículas do ensino médio, no Brasil, está nas escolas estaduais, na rede pública, comumente acessada por quem não tem como pagar para estudar. Entre os concluintes do ensino médio nas escolas estaduais, apenas 27% iniciaram um curso superior, enquanto o índice mais do que dobrou entre concluintes na rede privada: 60% dos que pagaram para cursar o ensino médio iniciaram um curso superior.
Reportagem em áudio
A Rádio UFMG Educativa disponibiliza a reportagem completa, em áudio, produzida pelos jornalistas Ruleandson do Carmo e Breno Rodrigues, com sonoplastia de Cláudio Zazá, nas principais plataformas sonoras, como Spotify e SoundCloud.
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