IA amplia presença nas artes e tensiona limites, afirmam especialistas
Evento reuniu, nesta quarta-feira, professores da EBA, da Fafich, da ECI e da Escola de Música em mais uma rodada de discussão sobre o uso dessa tecnologia no cotidiano acadêmico
Por Laura Portugal
A Comissão Permanente de Inteligência Artificial da UFMG promoveu, na noite de quarta-feira, 26, o 3º Seminário da Comissão de IA, dedicado às relações entre inteligência artificial, práticas artísticas e formação universitária. Realizado no Auditório B107 do CAD 3 e aberto ao público, o encontro integrou a agenda de debates que a Universidade vem conduzindo para qualificar o uso responsável, crítico e criativo dessas tecnologias.
Mediada por Ricardo Fabrino Mendonça, professor do Departamento de Ciência Política e presidente da Comissão, a mesa reuniu docentes de diferentes áreas que têm investigado, sob distintas abordagens, a presença crescente da IA em processos artísticos, formativos e culturais.
A professora Maria Aparecida Moura, da Escola de Ciência da Informação, abriu o seminário destacando que as práticas artísticas mediadas por IA carregam disputas que antecedem o próprio ato de criação. Ao trazer à tona o questionamento sobre os futuros considerados possíveis ou desejáveis pela universidade em um cenário já estruturado por tecnologias generativas, sublinhou que o debate sobre IA precisa enfrentar as desigualdades inscritas na formação de acervos, na lógica dos algoritmos e nos padrões estéticos que orientam a produção imagética.
Maria Aparecida Moura destacou que os padrões estéticos que circulam nas redes e nos conjuntos de dados são “profundamente racializados”, operando como dispositivos que enquadram subjetividades e restringem possibilidades de representação. Ao discutir a “semiótica dos prompts” – a construção de sentido produzida com base nas instruções dadas às máquinas –, ela apresentou o conceito de vulnerabilidade escópica enfrentada por grupos marginalizados, marcada por vigilância, estereotipização e constrangimentos sociais.
“É papel da universidade assumir a tarefa de produzir desconfortos”, afirmou, ressaltando que enfrentar a parcialidade dos dados é passo fundamental para formular usos éticos da IA que ampliem, e não reduzam, horizontes de imaginação.
Crítica, especulação e exploração estética
Em seguida, o professor André Mintz, da Fafich, apresentou reflexões sobre a inteligência artificial como tema e provocação para as artes contemporâneas. De acordo com Mintz, os experimentos artísticos com IA acompanham praticamente todo o desenvolvimento da tecnologia, operando também como formas de crítica, especulação e exploração estética. O professor discutiu ainda a relação entre IA, arquivos e práticas de criação, ilustrando o debate com trabalhos de artistas contemporâneas que utilizam ferramentas generativas para tensionar limites entre controle, autoria e imaginação – como a série Álbum de Desesquecimentos (2024), de Mayara Ferrão, composta de imagens geradas por IA que retratam mulheres negras e originárias em momentos de afeto.
A discussão sobre simulação, arquivo e criação foi aprofundada pela fala da artista e professora Marina RB (Romagnoli Bethônico), da Escola de Belas Artes, que apresentou perspectivas visuais com base em experimentações com retratos compostos, da fotografia analógica às redes neurais. Ao analisar diferentes materiais, destacou como práticas históricas de composição facial dialogam com ciência, vigilância e padronizações sociais. Recuperou ainda obras de artistas como Thomas Ruff, conhecido por editar e recombinar fotografias digitalmente, para discutir a “capacidade da imagem de criar mundos” – sejam eles formulados por técnicas analógicas ou por ferramentas computacionais.
Remédio e veneno
O professor Rogério Vasconcelos, da Escola de Música, abordou a IA com base em leituras sobre a história da tecnologia e da noção de pharmakon – conceito que compreende a técnica simultaneamente como remédio e veneno. “Pela primeira vez na história, temos máquinas de linguagem”, afirmou, destacando a necessidade de distinguir o funcionamento da linguagem humana daquela produzida por modelos generativos, que “espiralizam” a partir de repertórios sociais sem reproduzi-los integralmente.
Vasconcelos apresentou exemplos de tecnologias aplicadas ao som e ao áudio, como descritores musicais e sistemas de análise, e mencionou artistas contemporâneos, a exemplo de Felipe Romagna, que exploram essas ferramentas em processos criativos. Para o professor, o desafio está em evitar a automação acrítica e em cultivar abordagens inventivas, que ampliem possibilidades expressivas.
‘Trabalhar nas frestas’
Encerrando a mesa, o professor Ricardo Fabrino Mendonça retomou elementos presentes nas diferentes intervenções para destacar que pensar IA na arte e na universidade implica enfrentar um cenário de mudanças contínuas, no qual tecnologias emergentes não só reorganizam o mercado de trabalho, mas também tensionam fundamentos das próprias áreas de conhecimento. Em sua fala de fechamento, enfatizou a necessidade de a universidade “trabalhar nas frestas”, criando espaços para composições que não se limitem a reconstruir passados idealizados, mas que possibilitem projetar futuros possíveis.
O seminário integra a série de encontros promovidos pela Comissão de IA ao longo de 2025 e reforça a aposta institucional em ampliar o debate sobre tecnologia, artes e formação, reunindo especialistas de diferentes campos para refletir sobre os usos da IA na UFMG e seus desdobramentos sociais, éticos e criativos.
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