Simpósio internacional vai discutir avaliação e comunicação de riscos associados ao consumo de alimentos
Faculdade de Farmácia reunirá especialistas para abordar aspectos regulatórios e de fiscalização; temas abrangem desde a IA até o uso da linguagem em quadrinhos na divulgação científica
Por Matheus Espíndola
De 30 de junho a 3 de julho, a UFMG sediará, no auditório da Faculdade de Farmácia, o 4° Simpósio Latino-Americano e Caribenho de Avaliação de Riscos (Laras – do inglês Latin American and Caribbean Risk Assessment Symposium), um dos mais importantes fóruns internacionais para discussão e troca de conhecimentos na área de análise de riscos para a segurança alimentar. Realizado pela primeira vez no Brasil, o simpósio terá como tema Segurança alimentar baseada na ciência. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 29 de junho, por meio da plataforma Even3.
Coordenado pela professora Flávia Beatriz Custódio, do Programa de Pós-graduação em Ciências dos Alimentos (PPGCA), o simpósio abordará aspectos regulatórios e de fiscalização relacionados aos riscos decorrentes de agentes biológicos, químicos e físicos presentes nos alimentos. Confira a programação.
Doenças e vulnerabilidade
Como salienta Flávia Custódio, é comum que as pessoas, em geral, desconheçam a importância da investigação e da aplicação de medidas para diminuir os riscos alimentares. Dados da OMS, segundo ela, dão conta de que uma em cada dez pessoas no mundo adoece após ingerir algum alimento contaminado seja por microrganismos – como bactérias e parasitas – ou por substâncias químicas.
“Costuma-se focar nas dores de barriga, nas intoxicações e infecções alimentares causadas por bactérias, mas existem muitos outros malefícios causados pelo consumo de alimentos. Há, por exemplo, microrganismos que aumentam os casos de aborto recorrente e outros que causam insuficiência renal. Além disso, temos muitas substâncias químicas que podem aumentar o risco de câncer e causar doenças em longo prazo, o que torna ainda mais difícil para o cidadão identificar essa relação no dia a dia”, argumenta a professora.
De acordo com a Flávia Custódio, as crianças, os idosos e as pessoas imunocomprometidas são os mais vulneráveis. “No Brasil, o Ministério da Saúde registra mais de 662 surtos anuais notificados”, informa.
Comunicação
Além da avaliação (estudo da probabilidade do dano) e do gerenciamento, a comunicação é uma importante etapa da gestão dos riscos alimentares, como explica a coordenadora do evento. “Precisamos de estratégias para falar tanto com governos e pesquisadores quanto com a população. O que faz o público trocar os vídeos virais em profusão na internet pelo conteúdo de ciência dos alimentos? É preciso explorar novas ferramentas. A linguagem dos quadrinhos, por exemplo, é uma dessas abordagens para atrair as pessoas”, argumenta Flávia Custódio, ao anunciar a conferência The art of storytelling: using comics as a risk communication strategy, uma das atividades que integram a programação do Simpósio.
Como destaca a professora, o Laras tem a proposta de promover a articulação entre instituições do Brasil e do exterior. A edição na UFMG contará com a participação de profissionais das vigilâncias sanitárias municipais de Minas Gerais, da vigilância estadual e também de outros estados brasileiros. “É momento de buscar compreender a nossa atuação no cenário de vigilância sanitária junto com quem produz alimentos (setor privado), com quem fiscaliza e com quem pesquisa os caminhos da avaliação, prevenção e redução desses riscos”, detalha.
Flávia Custódio reforça que o Laras é uma “oportunidade fundamental para trocar experiências com outros países”. “Teremos palestrantes da Alemanha, especificamente do Instituto Federal Alemão de Avaliação do Risco (BfR), que é referência na área. Mas o simpósio também foca nas nossas experiências da América Latina e do Caribe, pois a avaliação do risco deve ser feita dentro da nossa própria realidade de produção e consumo de alimentos”.
Organizações como a Mundial de Saúde (OMS), a Pan-americana da Saúde (Opas) e das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), terão representantes no evento, assim como o Instituto Técnico da Dinamarca (DTU). “O Organismo Internacional Regional de Sanidad Agropecuaria (Oirsa) vai apresentar ferramentas fáceis e gratuitas de análise probabilística de exposição a contaminantes químicos para que todos nós, na América Latina, possamos utilizá-las de forma integrada”, anuncia a professora. “É um evento de relevância fundamental para as políticas públicas e para a compreensão da nossa realidade, que tem características climáticas e perfis de alimentos e perigos muito específicos, em comparação com a Europa”, avalia.
UFMG na vanguarda
Sobre a contribuição da UFMG no cenário global de pesquisa e regulação, Flávia Custódio menciona que o PPGCA conta com a linha de pesquisa em Química, Bioquímica e Qualidade de Alimentos, que estuda os aspectos quantitativos e qualitativos da segurança alimentar por meio de projetos temáticos de pesquisa e extensão focados na avaliação, gestão e comunicação de riscos microbiológicos e químicos. “Os professores e alunos envolvidos mantêm uma interação contínua com a Vigilância Sanitária tanto para divulgar e debater os dados gerados na Universidade quanto para servir de base científica para as discussões”, informa.
De acordo com Flávia Custódio, as pesquisas levadas a cabo no âmbito da UFMG geram impactos diretos na sociedade e em decisões regulatórias. “Desenvolvemos trabalhos voltados para a presença de mercúrio em peixes e outros alimentos, atendendo a demandas que são muito discutidas atualmente. Outro exemplo é a nossa participação no projeto Brumadinho, avaliando o risco do consumo de peixes do Rio Paraopeba após o rompimento da barragem. Essa pesquisa gerou um relatório técnico que subsidiou o juízo da vara responsável pelo caso em relação à liberação da pesca e do consumo na região. Também estudamos como os processos industriais e caseiros conseguem eliminar, controlar ou proliferar microrganismos, gerando dados que servem de base para os códigos de boas práticas recomendados pela Vigilância Sanitária”, lista a docente.
Quanto à contribuição internacional da Universidade, Flávia Custódio cita como exemplo o estudo de aminas bioativas em alimentos, em especial a histamina. “Esse tema é trabalhado há décadas no Departamento de Alimentos e no PPGCA, liderado pela professora Maria Beatriz Abreu. Durante muitos anos, ela foi a única referência sobre o assunto no Brasil e, hoje, é uma referência internacional, tendo inclusive participado de comitês da OMS e da FAO para discutir o risco de histamina e tiramina em peixes”.
Como relata Flávia Custódio, com base nas informações científicas geradas na UFMG, a Anvisa atualizou, em 2019, a norma nacional de controle e garantia de qualidade e segurança de alimentos, incluindo formalmente a histamina nos parâmetros de controle de pescados. “Isso mostra de forma prática como a atuação dos nossos pesquisadores, coordenadores e alunos se transforma em políticas públicas regulatórias para proteger a população. Além de formar profissionais, a Universidade atua de forma ativa na avaliação do risco e funciona como ponto essencial de comunicação direta com a comunidade, preenchendo lacunas que os órgãos oficiais governamentais às vezes não conseguem cobrir de forma tão abrangente”, conclui a professora.
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