Historiador Eliseu Assis, da Ufop, alerta para ‘disfarce humanizado’ da lógica manicomial
Ao rastrear os registros de 94 mil pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, conferencista defendeu o rigor documental contra a memória seletiva e denunciou a permanência da perspectiva do "depósito humano"
Por Matheus Espíndola
Na manhã desta segunda-feira (18), o auditório da Reitoria sediou a abertura da 14ª Semana de Saúde Mental e Inclusão Social da UFMG. Na conferência inaugural, o historiador Eliseu Assis, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), alertou para o risco de as comunidades terapêuticas contemporâneas reatualizarem a velha lógica manicomial sob um “disfarce humanizado”.
Ao analisar o funcionamento do antigo Hospital Colônia de Barbacena, o pesquisador questionou estatísticas consolidadas e denunciou que novas formas institucionais de controle têm-se apropriado do vocabulário dos direitos humanos e do “léxico do cuidado” para legitimar práticas de confinamento, segregação e tutela moral.
Autor do livro Exilados na pátria, Eliseu Assis defendeu a necessidade urgente de confrontar a memória traumática com o rigor da pesquisa histórica documental. Com base no cruzamento de dados de mais de 94 mil pacientes que passaram por Barbacena entre 1903 e 1979, ele expôs a engrenagem econômica e a “geografia da exclusão” que alimentavam o hospital a partir de Belo Horizonte.
‘Lobo vestido de cordeiro’
De acordo com o pesquisador, as comunidades terapêuticas atuais passaram a adotar uma roupagem biomédica e jurídica para legitimar antigas práticas de segregação. “A reconfiguração semântica mascara o fato de que as dinâmicas internas dessas instituições permanecem focadas na exclusão e no monitoramento moral dos indivíduos”, apontou.
O conferencista recorreu a uma metáfora popular para definir o risco de retrocesso nas políticas públicas de saúde mental e o perigo de se aceitar reformas superficiais como rupturas estruturais. “Nesse cenário, a mudança da linguagem não significa necessariamente ruptura com a antiga racionalidade de controle. O confinamento, a tutela moral, a segregação social e a administração institucional da vulnerabilidade podem reaparecer organizadas sob o léxico contemporâneo da proteção terapêutica. Minha avó falaria assim: é um lobo vestido de cordeiro.”
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Engrenagem psiquiátrica
Por meio de um minucioso levantamento documental, o historiador rastreou o fluxo de internações no Hospital Colônia de Barbacena no período de 1903 a 1979, valendo-se da catalogação digital de livros oficiais de admissão. Foi revelado um volume de 125.537 internações e reinternações, correspondendo a um total de 94.012 pacientes individuais integrados à história da instituição. “Morreram, em Barbacena, de 23 mil a 25 mil pessoas”, informou. Um número, portanto, abaixo dos 60 mil divulgados em outros levantamentos. “Os números da historiografia divergem dos da memória”, ressaltou Assis.
Segundo o historiador, o Hospital Colônia não operava de forma isolada, mas funcionava como o ponto final de escoamento de uma engrenagem psiquiátrica ligada à capital mineira, que envolvia instituições públicas e a iniciativa privada. O fluxo de pacientes era estruturado por uma dinâmica de triagem e transferência em massa. Enquanto o Hospital Galba Veloso, inaugurado em 1961, funcionava como a porta de entrada da rede assistencial, o Instituto Raul Soares consolidava-se como o eixo de transferência para o interior. “O financiamento público de leitos privados também impulsionava a superlotação do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), alimentando um mercado centrado no faturamento por paciente”, revelou.
O cotidiano do Hospital Colônia também foi analisado por meio de indicadores sociais que revelam um paradoxo: a violência e a precariedade da instituição refletiam as condições de vulnerabilidade e exclusão do próprio território brasileiro antes da estruturação do SUS. O palestrante citou, como exemplo, o número de crianças nascidas no interior do hospício e o destino legal que lhes era imposto. “Nasceram 442 crianças dentro do hospital. Dessas, 229 foram retiradas pelos parentes ou encaminhadas para instituições para adoção, e 213 vieram a óbito”, informou.
Ao cruzar os dados de mortalidade infantil e de longevidade interna com as estatísticas gerais do país no século passado, a pesquisa constatou que as taxas do hospital, embora alarmantes, assemelhavam-se às do ambiente externo. “A expectativa de vida das pessoas no manicômio era de 34 anos, enquanto no Brasil era de 32. A taxa de mortalidade de crianças lá dentro era, inclusive, um pouco menor do que a do país”, revelou.
Eugenia estrutural
Na sequência, uma mesa-redonda contou com a participação das professoras Luciana Diniz Silva, sub-coordenadora do Centro de Memória (Cememor) da Faculdade de Medicina; Andrea Silveira, diretora da mesma Faculdade; e Leida Uematu, representante do Fórum Mineiro de Saúde Mental.
Em sua fala, Luciana Diniz Silva propôs uma reflexão sobre a formação médica diante das transformações do século 21, que incluem desde as mudanças climáticas e o impacto da pandemia até o avanço da inteligência artificial. Ela defendeu a transdisciplinaridade e o resgate da história como ferramentas essenciais para frear o distanciamento humanístico e a violência na prática clínica atual. A docente recorreu ao conceito de “eugenia estrutural” para questionar as bases invisíveis que perpetuam a indiferença e o racismo médico na atualidade.
Andrea Silveira argumentou que os episódios de Barbacena não podem ser interpretados como meros desvios de conduta isolados, mas como o resultado de uma engrenagem oficial que chancelou a banalização do mal. Para a docente, o recolhimento de marginalizados e indesejados sociais demonstra que os hospitais psiquiátricos funcionavam historicamente como dispositivos de gestão social da exclusão, o que impõe à universidade o dever de exercer uma autocrítica permanente sobre suas práticas. “A universidade, as instituições e os serviços de saúde precisam desenvolver a capacidade de reconhecer seus próprios riscos de autoritarismo, naturalização da desigualdade e reprodução da violência”, defendeu.
Leida Uematu alertou que a lógica manicomial permanece ativamente camuflada na sociedade. Ela celebrou o fechamento definitivo do Hospital Colônia de Barbacena, previsto para o dia 25 de maio, com a transferência das últimas 14 pessoas remanescentes para ambientes dignos, mas denunciou que a estrutura manicomial se reatualiza no entorno por meio do subfinanciamento da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e de barreiras impostas pelo próprio controle social e político local. “Eles querem ser tratados com liberdade, não querem o manicômio”, reforçou.
Vulnerabilidade
A diretora da Universidade de Direitos Humanos e Cidadania (UDH), Luciana de Oliveira, contextualizou o tema da Semana, Democracia e cuidado: por um tempo de delicadeza, como uma resposta política imperativa ao adoecimento coletivo provocado por incertezas em relação à democracia e ao avanço de posições fascistas e fundamentalistas. Ao assinalar os 25 anos da Lei Federal 10.216, marco da reforma psiquiátrica no país, Luciana Oliveira defendeu a indissociabilidade entre a saúde mental e a perspectiva interseccional, demonstrando que o sofrimento psíquico atinge de maneira diferenciada grupos historicamente vulnerabilizados pelo racismo, machismo, capacitismo e LGBTfobia. “Dados oficiais de segurança pública indicam que o Brasil registrou um feminicídio a cada 5 horas e 25 minutos. A UFMG deve continuar sendo espaço de produção de conhecimento crítico, de defesa da democracia, de construção de práticas comprometidas com a justiça social e os direitos humanos”, conclamou.
O pró-reitor de Extensão, Glaucinei Rodrigues Corrêa, reafirmou o compromisso da nova gestão em dar perenidade e fortalecer a rede de saúde mental e o ecossistema extensionista da universidade, que atualmente descentraliza ações por todo o corpo acadêmico. O reitor Alessandro Fernandes Moreira concentrou seu pronunciamento nas ações estruturantes executadas pela administração e na necessidade de a universidade organizar-se de forma articulada e coletiva face às demandas de acolhimento. “A Universidade precisa falar de saúde mental”, frisou ele, anunciando o lançamento de uma cartilha de orientações e destacando que os novos núcleos de saúde mental descentralizados serão os pilares para capilarizar essa política junto a cada unidade acadêmica.
A vice-reitora Alamanda Kfoury compartilhou sua experiência pessoal como egressa da instituição para legitimar o impacto ético do pedido público de desculpas emitido pela UFMG – motivado pelo recebimento histórico de cadáveres de pacientes de Barbacena para as aulas de anatomia. “Eu cursava Medicina na UFMG, e estudei com esses corpos. O pedido de desculpas traz o reconhecimento de que devemos fazer diferente“, asseverou, apontando o resgate histórico como ponto de partida obrigatório para a reconfiguração das práticas de cuidado.
Neste vídeo, a TV UFMG trata da conferência de abertura, das ações de reparação da UFMG em relação à compra de cadáveres do Hospital Colônia de Barbacena, do desfile da luta antimanicomial e de outras atividades programadas até o fim desta semana. Assista:
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