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Gênero e segurança

Rede Femjusp, da Fafich, aborda a violência sob a perspectiva feminina

Grupo atua para formar pesquisadoras de ponta e contribui para que as mulheres sejam efetivamente alcançadas pelas políticas públicas

Por Álvaro Goulart e Enzo Beber

Sinal universal de pedido de ajuda para mulheres em situação de violência: casos de feminicídio vêm crescendo no Brasil em um contexto de queda de outros tipos de mortes violentas
Foto: Jebs Lima | UFMG

Apesar dos avanços na legislação e da ampliação do debate público sobre a segurança da mulher no Brasil, crimes motivados pela condição de gênero, como a violência doméstica e o feminicídio, têm apresentado números alarmantes. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número da última década no país.

Por trás dessa estatística, subsistem histórias pautadas pelo medo, famílias devastadas e uma estrutura social que ainda reproduz relações de poder desiguais entre homens e mulheres. Esse cenário pauta a atuação da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões (Rede Femjusp) na UFMG, que pesquisa o tema, seu impacto social e formas de superá-lo.

“A gente partiu da ideia de que, na Universidade, existem muitos núcleos de estudo que pesquisam segurança pública e muitos outros que estudam a questão da mulher, mas faltava um que unisse os dois temas”, explica a professora Ludmila Ribeiro, do Departamento de Sociologia da UFMG e pesquisadora da Rede Femjusp. O projeto foi idealizado por ela juntamente com as professoras Valéria Oliveira, da Faculdade de Educação (FaE), e Paula Vasconcelos, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich).

 “Todos os nossos projetos são relacionados à junção dos estudos de justiça, prisões, violência em uma perspectiva feminina. Abordamos as mulheres não só como vítimas, mas também no papel de autoras de crimes”, explica Ludmila.

Para pesquisar os temas com profundidade, dois caminhos são seguidos pelo grupo. O primeiro segue a chamada “Demanda induzida” – com base em algum questionamento por parte dos poderes públicos, o grupo busca entender determinadas características pouco visíveis no âmbito das estatísticas mais gerais. Um exemplo são questões acerca da velocidade do julgamento efetivo de casos, em que crimes de feminicídio são confrontados com outros crimes, ou da ocupação de cargos de liderança por mulheres nas forças policiais.

Em outras situações, a própria Femjusp propõe demandas de pesquisa. O objetivo é realizar estudos que demonstrem, por exemplo, se a lei está sendo devidamente aplicada em situações que envolvam mulheres, como o número de casos de violência contra a mulher registrados em determinado período e a eficiência das medidas protetivas.

“Isso acontece muito na pesquisa sobre sistema prisional. A pena (juridicamente) não pode ultrapassar o condenado, porém, quando se trata das mulheres, isso necessariamente vai envolver toda a família. Essas mulheres têm de um a dois filhos e, quando elas são presas, as crianças acabam sendo ‘distribuídas’ para cuidados entre diferentes membros da família da presa”, destaca Ludmila.

Para além do ambiente universitário
“Nós não queremos falar para convertidos”, sentencia Ludmila Ribeiro, ao argumentar que os projetos são idealizados para alcançar pessoas fora dos limites acadêmicos – ela avalia que, na universidade, esse tipo de discussão normalmente encontra mais acolhida. “Isso contribui para que a gente tenha políticas públicas mais baseadas em evidências e para que seja possível construir uma sociedade mais segura para as mulheres.”

Ludmila Ribeiro: ‘Não queremos falar para convertido’
Foto: Acervo pessoal

Ludmila Ribeiro delimita dois objetivos da Rede Femjusp. “O primeiro é bem acadêmico, relacionado à formação de novas gerações. A gente quer formar mulheres que sejam pesquisadoras de ponta na área de ciências humanas, pensando em como as meninas têm mais dificuldade de seguir uma carreira acadêmica. Isto não quer dizer que homens não sejam bem-vindos, mas avaliamos que eles já ocupam, com mais facilidade, muitos espaços da universidade.”

Outra frente, já numa perspectiva de alcance do público externo, diz respeito a contribuir para que as mulheres sejam efetivamente contempladas por políticas públicas não apenas corretivas, mas também preventivas dos efeitos das relações de desequilíbrio de gênero, por exemplo.

Nesse esforço de “não pregar para convertidos”, a Rede tem investido em frentes menos acadêmicas de divulgação do conhecimento sobre o sistema de justiça. Uma das que mais se destacam é o desenvolvimento de jogos. Um deles, idealizado por Isabela Lewandowski, é um jogo de verdadeiro ou falso que trata de temas relacionados aos direitos no sistema prisional. “Ele foi criado com a ideia de trabalhar temáticas diversas relacionadas aos direitos de pessoas privadas de liberdade”, explica a graduanda do último período do curso de Psicologia, Júlia Santos, que faz parte da Rede Femjusp e auxiliou na criação do jogo.

A dinâmica funciona como um “disparador” de discussões. Isso significa que, além de testar os conhecimentos dos participantes, o jogo propõe debater como os direitos previstos em lei se efetivam (ou não) na prática cotidiana do sistema prisional. Ele também busca democratizar a informação jurídica – de modo a tornar o vocabulário mais acessível ao público – e gerar “estranhamentos” nas pessoas, provocando questionamentos sobre a naturalização das violações de direitos.

O jogo é composto de 40 afirmativas e placas de verdadeiro ou falso. Os participantes, individualmente ou divididos em grupos, decidem se as afirmativas apresentadas pelo mediador são verdadeiras ou falsas. Ao fim da rodada, o mediador revela a resposta correta e abre espaço para discutir por que aquela dúvida existe e como aquele direito é aplicado no dia a dia.

As afirmativas baseiam-se em temáticas abordadas no curso de extensão Cadê meus direitos? e têm o objetivo de ampliar o conhecimento do público sobre questões relacionadas ao sistema prisional.

Inicialmente, o jogo foi criado para ser aplicado na Feira de Ideias, iniciativa da Conectas Direitos Humanos em parceria com o Sesc São Paulo realizada em dezembro de 2025. Neste ano, Júlia aplicou o game na Mostra Sua UFMG, com jovens interessados em conhecer o curso de Gestão Pública. Segundo ela, o engajamento foi muito positivo. “Uma coisa que apareceu muito foi essa diferenciação do que é previsto legalmente e o que acontece na prática. Eu fiz essa dinâmica de perguntar ‘legalmente você acha que isso é garantido?’, e depois a gente discutiu como esses direitos eram efetivados ou não na prática”, comenta Júlia.

O homem no debate da igualdade
Embora a Rede seja focada em mulheres, Ludmila avalia que é fundamental envolver os homens no debate público sobre a igualdade de gênero, de modo que desenvolvam consciência sobre os mecanismos sociais que promovem a desigualdade. “Boa parte dessa discussão deveria estar sendo feita ainda na primeira infância, para despertar nas crianças um sentido de igualdade”, defende a pesquisadora.

“A maior urgência [do debate], principalmente nesse contexto pré-eleição, é o que vamos fazer para deixar as mulheres vivas”, reflete Ludmila. Para ela, garantir o controle de armas de fogo e instituir ferramentas seguras de denúncia de violências são urgentes. 

“Uma das formas de sair desse ciclo de violência e posterior ‘perdão’ do agressor é ampliar o acesso à informação. As mulheres devem ser informadas na escola, em campanhas veiculadas em redes sociais e, sobretudo, nos equipamentos públicos. A capacidade de uma mulher resistir à violência será maior se ela tiver consciência da violência que sofre e do quanto ela pode escalar”, argumenta.

Medidas protetivas também têm papel fundamental, e a responsabilidade do Estado em relação a elas deve ser repensada, na avaliação da professora. Atualmente, a mulher é responsável por controlar e ficar “alerta” em relação à aproximação do agressor, atribuições que deveriam caber ao Estado, de acordo com a pesquisadora.

Pesquisadoras da Rede Femjusp: atuação dentro e fora da academia
Foto: Arquivo Rede Femjusp

Parcerias e ‘Sobrevida’
Os projetos de pesquisa da Rede Femjusp são diversificados quanto aos temas e ao uso de mídias. A iniciativa tem projetos próprios, que podem ser observados no site da rede – atualmente, sete iniciativas de pesquisa estão em andamento –, além de manter uma coluna semanal no portal BHAZ e desenvolver pautas permanentes relacionadas, por exemplo, à análise e ao monitoramento de situações como mulheres em audiências de custódia.

“A gente trabalha sempre com parcerias com outras instituições de pesquisa ou com o poder público”, destaca a pesquisadora. “Um exemplo é o Projeto Sobrevida, desenvolvido com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cujo objetivo é criar um índice de vulnerabilidade à violência perpetrada por parceiro íntimo”, pontua Ludmila.

“Esse recorte existe porque, quando se trata de feminicídios, em 99% dos casos estamos falando de cônjuges que matam as mulheres. O projeto se chama Sobrevida porque a ideia é entender melhor o que torna a mulher mais vulnerável a morrer nesses contextos. Nossa ideia é induzir políticas públicas que sejam relacionadas a essa temática”, completa. Resultados preliminares indicam, por exemplo, que mulheres que se relacionam com homens com porte de arma de fogo têm 27% mais chance de serem mortas do que mulheres com cônjuges sem posse. 

‘Em campo’
Um dos mais recentes projetos em andamento da Rede Femjusp é o podcast Em campo. “A proposta do podcast nessa primeira temporada é pautar o debate público do ponto de vista de questões que são urgentes, especialmente pensando que a segurança pública é uma das grandes pautas das eleições”, destaca a professora. O programa é apresentado pela própria Ludmila Ribeiro, por Isabella Matosinhos e por Rafael Rocha.

“Os jovens da nossa comunidade são ainda pouco informados sobre a segurança pública e sobre os papéis desempenhados por municípios, estados e União nesse contexto. Na promoção do programa na Mostra Sua UFMG, muitos jovens ficaram surpresos com o fato de que os presos têm direitos”, diz Ludmila, justificando o motivo da escolha do tema da temporada.

Podcast ‘Em campo’ reúne especialistas para discutir segurança pública
Imagem: Reprodução | Instagram (@redefemjusp)

No Episódio 1 – Enfrentamento ao crime organizado, o entrevistado foi o sociólogo Daniel Hirata, que falou sobre o impacto da disponibilidade de armamentos no poder das facções criminosas. Coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), ele é um dos principais pesquisadores brasileiros sobre crime organizado, mercados ilegais e violência urbana. Hirata também ocupa o cargo de assessor especial do ministro da Justiça e Segurança Pública.

O segundo programa da temporada, Redução da maioridade penal, recebeu Mariana Chies, que discutiu as evidências empíricas e os desafios teóricos que cercam a ideia de que punir jovens como adultos diminuiria a violência criminal. Professora do Insper, a convidada é graduada em Direito e Ciências Sociais, mestre em Ciências Criminais e doutora em Sociologia. Ela é uma das principais referências em estudos sobre justiça juvenil no Brasil.

O terceiro episódio, que foi ao ar em 3 de agosto, abordou Liberação das armas de fogo e as facções criminosas. O pesquisador Roberto Uchôa discutiu a relação entre o afrouxamento do controle de armas e o fortalecimento de organizações criminosas. Graduado em Direito e mestre em Sociologia, ele é especialista em segurança pública e autor do livro Armas para quem? A busca por armas de fogo. Ex-policial federal, atualmente é doutorando na Universidade de Coimbra, em Portugal.

O último episódio, lançado em 4 de setembro, tratou do aumento dos feminicídios e o que fazer para reduzir estes crimes, com a delegada da Polícia Civil do Piauí, Eugênia Villa. Professora titular da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e diretora de Avaliação e Risco da Secretaria de Segurança Pública do estado, Eugênia aborda duas questões centrais: por que os feminicídios continuam crescendo no Brasil, mesmo diante da redução de outras mortes violentas intencionais, e o que pode ser feito, na prática, para reduzir esses crimes? Graduada, especialista, mestre e doutora em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB, Eugênia é uma das referências brasileiras no enfrentamento à violência contra as mulheres.

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