Em quatro volumes, João Antonio de Paula passa a limpo a história da UFMG
Os dois primeiros serão lançados nesta segunda; os dois últimos sairão do prelo nos próximos meses, como preparação para as comemorações do primeiro século de fundação da instituição
Por Ewerton Martins Ribeiro
Nesta segunda-feira, 2, às 10h, serão lançados, no auditório da Reitoria, os volumes 1 e 2 (de um total de 4) da coleção O centenário da UFMG: 1927-2027, escrita pelo professor da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) João Antonio de Paula e publicada pela Editora UFMG. Os volumes “reúnem registros históricos que ajudam a compreender a complexidade e a grandeza da UFMG, além de evidenciar a força humana e coletiva que sustenta a instituição desde a sua fundação”, afirma a reitora Sandra Regina Goulart Almeida, na apresentação da coleção.
Professor cuja trajetória se confunde com a própria história recente da instituição, “João Antonio construiu uma narrativa rigorosa e, ao mesmo tempo, sensível sobre a Universidade, digna do orgulho que por ela sentimos”, diz Sandra.
“O que João Antonio de Paula oferece ao leitor é a apurada análise do que cercou a fundação da ‘Universidade de Minas Gerais’, destacando-se três aspectos: 1) são instituições republicanas; 2) estabelecidas no contexto da crise do capitalismo liberal; 3) e na efervescência do modernismo cultural”, completa Jacyntho Lins Brandão, professor emérito da Faculdade de Letras, no prefácio do primeiro volume.
Sandra Goulart ressaltou ainda o pioneirismo da Universidade e sua trajetória marcada pelo compromisso com o desenvolvimento social e econômico do Brasil, destacados por João Antonio em seu texto. “Contar a história da UFMG é contar a história de Minas e do Brasil. Afinal, a Universidade nasceu do sonho inconfidente de tornar Minas Gerais um território de liberdade, democracia e justiça”, anotou a dirigente. “Uma universidade não apenas acompanha a história do Brasil, mas ajuda a construí-la, afirmando, em cada gesto, seu projeto de futuro, baseado em sua vocação pública, e sua defesa inconteste da democracia e da soberania nacional”, registrou.
Para dar conta do tempo
No prefácio em que introduz o primeiro volume da coleção, Jacyntho Lins Brandão parte de uma reflexão sobre o caráter nunca de todo apreensível do tempo para ponderar a importância que o alcance de um centenário pode ter para uma instituição como a UFMG. Para Jacyntho, “alcançar tal cifra só é possível em regime de solidariedade quanto aos ideais e ininterrupta cooperação com vista a atingi-los”. Nesse sentido, os centenários teriam “a função de dar a ver o quanto instituições e comunidades ultrapassam os indivíduos, pois raros serão aqueles que, tendo-as visto no nascedouro, estarão ainda presentes cem anos depois”.
“Dito de outro modo: quem funda, porque funda, não tem a expectativa de comemorar os cem anos; quem comemora, por comemorar, tem a consciência de que o faz por se incluir numa espécie de corrida de revezamento à qual só chegou pelo valor daqueles que o antecederam”, completa Jacyntho, em diálogo com o postulado agostiniano sobre o problema da apreensão abstrata e concreta – ou coletiva e pessoal – do tempo. “Nos dois casos, entre o pessoal e o coletivo, o que se faz ver é a grandeza da experiência humana do tempo – e se, em termos abstratos, não sei dizer o que ele é, no nível dos sentidos e cognição sei como se deixa experimentar enquanto compartilhamento e participação”, conclui o intelectual.
Os quatro volumes
O primeiro volume aborda as origens da UFMG, da fundação da Faculdade de Direito, sua “história precedente”, à efetiva criação da “Universidade de Minas Gerais”, ocorrências compreendidas no período 1892–1927. São oito capítulos nesse primeiro caderno.
Os dois primeiros introduzem as comemorações dos 100 anos da instituição, enquanto os quatro seguintes se dedicam ao contexto de fundação das primeiras unidades que viriam a compor a Universidade: a Faculdade de Direito, a “Escola de Odontologia e Farmácia” (mais tarde desambiguada na Faculdade de Odontologia e na Faculdade de Farmácia), a Faculdade de Medicina e a “Faculdade de Engenharia” (hoje denominada Escola de Engenharia).
Os dois últimos capítulos tratam da criação da Universidade, em setembro de 1927, como Universidade de Minas Gerais (UMG), e de sua relação com o modernismo. Como se sabe, a então UMG nasceu como um conglomerado de faculdades regionais. A federalização da instituição ocorreu em 1949, sendo que a adoção do nome “UFMG”, propriamente, só ocorreria em 1965.
O segundo volume vai da criação da UMG à sua federalização, período (1927–1949) que se poderia entender, nas palavras de Jacyntho Lins Brandão, como o da “construção da própria identidade”. “A crise mundial, iniciada em 1929, ao provocar o colapso das atividades exportadoras e dificuldades de importar, estimulou a elite intelectual, política e empresarial do estado, resgatando os ideais da inconfidência, a buscar um projeto de desenvolvimento”, escreve Clélio Campolina Diniz, reitor da gestão 2010-2014, na apresentação do volume.
Nesse segundo tomo, um capítulo introdutório de João Antonio de Paula discorre justamente sobre como o período, um contexto de busca por um projeto de desenvolvimento, foi propício tanto para a consolidação da UMG como para o surgimento de diferentes experiências universitárias no país.
Nos capítulos seguintes, João Antonio vai tratar da fundação de mais três unidades da UFMG: a Escola de Arquitetura, a Faculdade de Filosofia e a Faculdade de Ciências Econômicas. Os dois últimos capítulos – são seis nesse volume – tratam da institucionalização da Universidade de Minas Gerais e de sua relação com a segunda geração modernista.
“Pensar o itinerário da Universidade de Minas Gerais entre 1927 e 1949 é, inevitavelmente, também discutir as determinações estruturais do capitalismo brasileiro em seus amplos rebatimentos e, em particular, sobre a experiência universitária brasileira”, demarca João Antonio em dado momento desse tomo.
A ser lançado nos próximos meses, o terceiro volume cobrirá da federalização à reforma universitária (1949-1968), período marcado pela consolidação da Universidade como instituição federal. O último volume abrange da reforma universitária aos dias atuais (1968–2027), período em que a UFMG se redesenhou, tornando-se o que é hoje.
Dedicatórias: uma história à parte
Cada volume foi dedicado a três nomes cujas biografias pessoais ajudam a contar a centenária história da Universidade. Os escolhidos são personagens que, “em sua diversidade de áreas e épocas, refletem, vagamente, a rica e exitosa matéria da UFMG”, escreve João Antonio de Paula. Como critério, o autor selecionou apenas nomes “que já não estão mais entre nós”, além de se ter focado em pessoas que teve “o privilégio de conhecer e mesmo de conviver, em alguns casos, com viva amizade”. O objetivo, com esses recortes, era enfrentar o desafio de escolher doze pessoas a quem homenagear em uma instituição na qual avultam centenas de nomes de relevância nacional e mesmo internacional.
O primeiro calhamaço é dedicado a Ângela Tonelli Vaz Leão (1922-2024), primeira diretora da Faculdade de Letras, responsável por sua implementação em 1968; a Antônio Luiz Paixão (1947-1996), sociólogo pioneiro nos estudos sobre o crime e a violência no Brasil, professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich); e Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002), docente do Departamento de Filosofia da Fafich que dedicou sua carreira a colocar em diálogo o pensamento cristão, a modernidade e a ciência (assim como a ação) de perspectiva humanista e revolucionária.
O segundo volume é dedicado a Evando Mirra de Paula e Silva (1943-2018), professor da Escola de Engenharia, referência nas pesquisas do campo da metalurgia e dos materiais, com larga atuação também em cargos de gestão, tendo sido vice-reitor na gestão 1990-1994; Francisco Iglésias (1923-1999), professor da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) que se destacou por estudos da história econômica, política e social dos séculos 19 e 20; e Helena Greco (1916-2011), ativista e política brasileira reconhecida nacional e internacionalmente por sua atuação na resistência à ditadura, graduada em Farmácia pela UFMG.
A previsão é que os volumes 3 e 4, que completam a coleção, sejam lançados no decorrer de 2027, preparando terreno para as comemorações do dia 7 de setembro do próximo ano, quando a Universidade completará seu primeiro centenário.
O autor e os sentidos da instituição universidade
João Antonio de Paula é graduado em Ciências Econômicas pela UFMG, mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP). Professor titular do Departamento de Ciências Econômicas da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) e do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), foi também pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento e pró-reitor de Extensão.
Conhecido por seu trânsito entre campos distintos do saber, como a literatura e as ciências sociais, João Antonio é autor de dezenas de obras que abrangem amplo espectro temático. Seus livros transitam das ciências econômicas – tema de sua docência e de sua pesquisa mais formal – à história política, social, econômica, sanitária, biográfica e cultural de Belo Horizonte, de Minas Gerais e do país. Nesse sentido, uma das principais marcas de sua produção é a mirada transdisciplinar que lança para seus objetos de interesse.
Alguns livros que João Antonio publicou nas últimas décadas exemplificam essa amplitude de escopo de seus interesses intelectuais. Nas últimas décadas, ele lançou, entre outros: Livraria Amadeu (Conceito Editorial, 2006), Raízes da modernidade em Minas Gerais (Editora Autêntica, 2007), A transdisciplinaridade e os desafios contemporâneos (Editora UFMG, 2008), Crítica e emancipação humana: ensaios marxistas (Editora Autêntica, 2017), A presença do espírito de Minas: a UFMG e o desenvolvimento de Minas Gerais (Editora UFMG, 2019), Francisco Iglésias: o caminho do historiador (Conceito Editorial, 2020), O capitalismo no Brasil (Kotter Editorial, 2021), Capítulos de história do pensamento econômico do Brasil (Hucitec Editora, 2021) e História, epidemias e capitalismo (Editora UFMG, 2022).
Em 2020, por ocasião do aniversário de 93 anos da UFMG, João Antonio concedeu longa entrevista a este Portal. Na conversa, que preconiza vários temas tratados na coleção que agora lança, ele destacou que, no início do século passado, a UFMG nasceu e se assentou sobre a mesma tensão constitutiva que deu azo ao inconfidente estado de Minas Gerais. João falou da “permanente tensão” que, no estado, sempre articulou classicismo e modernismo, monarquia e república, tradição e modernidade, conservadorismo e disrupção, repressão e rebeldia – quando não insurreição, na velha luta pela liberdade.
João Antonio também defendeu que a instituição universidade segue sendo um instrumento incontornável para a emancipação ética humana, talvez o principal deles. “Para que serve a universidade, o que é específico da universidade? Entendo que há pelo menos quatro coisas aí. Primeiro, temos a universidade como uma espécie de ‘reserva moral’ da sociedade, de reserva de certos valores universais. Estamos falando das ideias de liberdade, de justiça, de verdade. Isto é parte da razão de ser da universidade: reafirmar esses valores universais. Esse é seu compromisso inegociável”, demarcou.
Em seguida, João destacou a instituição universidade como o “lugar de preservação do patrimônio cultural da humanidade”, isto é, o repositório do conhecimento “das grandes conquistas da civilização”; depois, a universidade como “o lugar da produção do conhecimento novo”, seara da inovação, da invenção e do avanço; e, por fim, a universidade como “um dos instrumentos da emancipação humana, que abrange liberdade, igualdade, diversidade e sustentabilidade”.
Livro: O centenário da UFMG: 1927-2027 (volume um)
Autor: João Antonio de Paula
Editora UFMG
R$ 70 / 211 páginas
Livro: O centenário da UFMG: 1927-2027 (volume dois)
Autor: João Antonio de Paula
Editora UFMG
R$ 65 / 211 páginas
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