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FESTIVAL RAÍZES ANCESTRAIS

Lideranças celebram identidade originária do país e criação da primeira Universidade Federal Indígena

Urgência da demarcação de territórios, combate ao racismo institucional e a força política da "bancada do cocar" também foram destacados na cerimônia, marcada por forte dimensão espiritual e afetiva

Por Matheus Espíndola

Cerimônia foi marcada por rituais e cânticos indígenas
Foto: Jebs Lima | UFMG

A UFMG sediou, na manhã desta quinta-feira, dia 27, a abertura do Festival Raízes Ancestrais – pela cura da terra. O evento promove um encontro cultural, político e simbólico, reunindo lideranças indígenas, artistas, intelectuais, representantes de movimentos sociais, das universidades e das juventudes para debater temas como território, democracia, cultura, clima e futuro. 

Na atividade inaugural do Festival, realizada no Centro de Atividades Didáticas (CAD) 1, os convidados discorreram sobre a urgência de pautar a identidade e a história do país com base em uma perspectiva originária, contestando apagamentos históricos e a lógica puramente mercantil que ameaça os biomas brasileiros. Durante a cerimônia, marcada por forte dimensão espiritual e afetiva, as lideranças celebraram conquistas políticas históricas, como a atuação da “bancada do cocar” e a iminente sanção da primeira Universidade Federal Indígena do Brasil, vista como marco de reparação e de transformação da academia. 

Também foram repercutidos entraves na demarcação de territórios em Minas Gerais, o racismo nos espaços de poder, a herança de violência da ditadura militar e os impactos dos crimes ambientais na bacia do Rio Doce. Cerca de 500 pessoas participaram da cerimônia, incluindo representantes de comunidades indígenas vindos de várias partes do estado.

Indigenizar para reduzir racismo
A presidente da Funai, Lúcia Baré, destacou os avanços conquistados desde o início de 2023, quando o presidente Lula entregou a gestão da política indigenista aos próprios povos originários, resultando na criação do Ministério dos Povos Indígenas e na garantia de pelo menos 12 milhões de hectares de terras demarcadas no país em pouco mais de três anos. Ela ponderou que, embora as terras indígenas registrem apenas 1% do desmatamento e das queimadas nacionais – provando que as comunidades “sabem fazer a gestão, a proteção e a vigilância de suas terras” –, o avanço dessas demarcações ainda enfrenta forte resistência jurídica nos territórios locais. 

“O estado de Minas Gerais é considerado anti-indígena. No primeiro ato que foi feito para regularizar uma terra indígena aqui em Minas Gerais, do povo Krenak, muitas ações judiciais foram apresentadas”, denunciou a presidente. Ao celebrar a sanção da primeira universidade indígena do país como uma “reparação histórica”, Lúcia Baré lembrou que “precisamos indigenizar todas as universidades, porque esses espaços podem contribuir para diminuir o racismo no país”. 

Para o ministro de Estado dos Povos Indígenas, Eloy Terena, a criação da primeira Universidade Federal Indígena do país representa uma reviravolta histórica, após décadas de apagamento institucional e perseguições. “Em 20 anos, a gente saiu de uma situação em que éramos totalmente subjugados, massacrados, e demos a volta por cima”, comemorou. A lei que criou a universidade indígena deverá ser sancionada nesta quinta-feira, dia 28, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

A cantora Marina Sena foi uma das homenageadas na cerimônia conduzida pela ativista e deputada federal Célia Xakriabá
Foto: Jebs Lima | UFMG

Sobre o mesmo tema, a deputada federal Célia Xakriabá celebrou sua atuação como relatora do projeto no Congresso Nacional, definindo o novo espaço como a “universidade da terra”. A parlamentar questionou as bases geopolíticas do poder tradicional, afirmando que, embora os povos originários não tenham contribuído para que o Brasil se tornasse um país de primeiro mundo sob a lógica mercantil, eles são, de fato, os “primeiros” do país. 

Primeira mulher indígena doutora em Antropologia pela UFMG, Célia confrontou visões que enxergam as comunidades tradicionais como entraves ao desenvolvimento econômico e denunciou tanto a violência histórica quanto o “racismo da solidão” vivenciado nos corredores de Brasília e da própria academia. “Antes da Minas Gerais da coroa, existe a Minas do turbante, do cocar”, bradou.

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Crise civilizatória
A deputada federal Sônia Guajajara rememorou que a articulação política das mulheres originárias ganhou força como uma resposta de enfrentamento ao genocídio e à falta de proteção durante a pandemia de covid-19, culminando na criação estratégica da “bancada do cocar” nas eleições de 2022. 

Ela destacou que, para além da disputa institucional, as lideranças lançaram um “chamado pela terra” para combater a atual crise civilizatória e o distanciamento da humanidade da natureza, um problema para o qual “não existem soluções de laboratório”. 

A educadora e cineasta Sueli Maxakali levou ao centro do debate a dimensão espiritual e a conexão indissociável entre os povos originários e o meio ambiente, afirmando que a verdadeira herança deixada pelos antepassados reside na memória, no conhecimento tradicional e no “remédio do mato”. “Hoje, estamos trazendo toda a força da natureza e o conhecimento ancestral para a universidade”, disse.

Célia Xakriabá, Alamanda Kfoury e Sônia Guajajara: chamado pela terra para combater a crise civilizatória
Foto: Jebs Lima | UFMG

Em seu pronunciamento, a professora e escritora Shirley Krenak manifestou orgulho de sua ancestralidade ligada ao bioma da Mata Atlântica e ao Rio Doce – que, segundo ela, deixou de estar vivo devido à lama de rejeitos de mineração. Ela ressaltou que, apesar dos crimes ambientais que se estendem desde o período colonial, o povo Krenak e outras etnias mineiras, como os Xakriabá, Maxakali e Pataxó, mantêm resistência histórica e legítima pelo direito à demarcação de suas terras.

Shirley convocou a sociedade civil e, em especial, as mulheres mineiras a escutarem o chamado da Terra e a compreenderem a urgência da pauta originária, rejeitando a exploração predatória que transforma o estado em mercadoria. “Política é a água que eu bebo; é a comida que eu como; é o território que eu piso. A gente vai determinar uma revolução política, uma revolução educacional, uma revolução humana”, conclamou.  

Romper estereótipos
Entre as 43 personalidades e instituições homenageadas na solenidade, a cantora mineira Marina Sena recebeu o título simbólico de “embaixadora pelo clima”. A artista – que descobriu durante o evento que o nome de sua cidade natal, Taiobeiras, tem origem indígena – defendeu o papel da arte no resgate da memória nacional e na superação de preconceitos. “Como brasileiros, a gente tem o dever de romper com todos os estereótipos que reforçam coisas que não fazem mais parte da nossa história”, enfatizou. 

Presentes à cerimônia, os artistas Sérgio Pererê e Renegado também receberam o título de embaixadores do clima. A cantora Maria Gadú, o cantor Djonga, o rapper Mano Brown e o líder indígena Davi Kopenawa, que não compareceram ao evento, também foram homenageados.

A distinção foi conferida, ainda, a dois professores da UFMG: Claudia Mayorga, do Departamento de Psicologia da Fafich, por seu vínculo com o Kilombo Souza e em reconhecimento à sua atuação como guardiã da memória afro-brasileira e em favor do fortalecimento das redes de cuidado, solidariedade e resistência nos territórios periféricos, e Roberto Andrés, da Escola de Arquitetura, cuja atuação é pautada na construção de iniciativas que aproximam cultura, cidade, ecologia e justiça climática, promovendo reflexões sobre preservação ambiental, democracia urbana e cuidado coletivo com a vida.

A vice-reitora Alamandra Kfoury definiu como “um privilégio pessoal” integrar a mesa composta de lideranças femininas de vanguarda e resistência. A professora declarou que a instituição “quer ser terra indígena”, sinalizando o compromisso da universidade em se consolidar como espaço de livre pensamento e pluralidade integrados ao ensino, à pesquisa e à extensão. Ela defendeu uma mudança profunda nos saberes acadêmicos e reforçou que o desafio contemporâneo supera a política de cotas. “Queremos transformar a cura da terra em cura da ciência”, concluiu a vice-reitora.

O público lotou as dependências do principal auditório do CAD 1 para acompanhar a abertura do festival
Foto: Jebs Lima | UFMG
Categoria: Institucional

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