Soberania nacional está atrelada à pós-graduação, diz Denise Pires, presidente da Capes
Dirigente destacou desempenho da UFMG na mais recente avaliação quadrienal; evento de recepção aos novos mestrandos e doutorandos também foi marcado pela celebração dos 60 anos da PRPq
Por Matheus Espíndola
A pós-graduação brasileira é a engrenagem fundamental para que o país supere a condição de exportador de commodities e se consolide como uma nação soberana, capaz de produzir inovação e conhecimento de forma autônoma. Essa tese orientou a conferência Avanços e perspectivas para o futuro da pós-graduação no Brasil, ministrada na tarde desta sexta-feira (27) pela presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Denise Pires de Carvalho.
O evento, que lotou o auditório da Reitoria, marcou a recepção aos pós-graduandos que ingressaram na UFMG em 2025 e 2026 e integrou as celebrações dos 60 anos da Pró-reitoria de Pesquisa (PRPq). Gestores e comunidade acadêmica acompanharam a exposição da presidente da Capes em transmissão ao vivo, exibida no telão, já que a palestrante participou a partir de Brasília.
Denise Carvalho apresentou um balanço da última avaliação quadrienal (2021-2024). A UFMG registrou elevação das notas de 27,6% de seus cursos, índice que posiciona a instituição como a segunda que mais avançou entre as maiores universidades do país. Para a presidente da Capes, os resultados refletem a resiliência do corpo docente e discente diante dos desafios orçamentários enfrentados nos últimos anos. “Não há possibilidade de inovação sem produção de conhecimento nacional. É por meio da formação de mestres e doutores que vamos nos tornar uma nação verdadeiramente soberana”, afirmou.
Superação de gargalos
Ao analisar o panorama histórico da pós-graduação, Denise Carvalho sublinhou que a excelência acadêmica está intrinsecamente ligada à continuidade do investimento público. Ela classificou o subfinanciamento crônico como o principal obstáculo para o desenvolvimento científico brasileiro. Segundo a presidente da fundação, 70% dos programas com nota 3 que receberam aportes estratégicos da Capes a partir de 2023 conseguiram subir de nível na avaliação.
A recuperação orçamentária também foi abordada por Denise Carvalho. Ela destacou que, graças à recomposição do orçamento ocorrida em 2023 e 2024, o montante investido pela fundação em bolsas e custeio registrou incremento de 62% em relação ao valor executado em 2022. “O maior gargalo não é a nossa estruturação ou capacidade intelectual, mas a questão financeira”, pontuou.
Denise também propôs a reflexão sobre a redução das assimetrias regionais na ciência. Embora o Sul e o Sudeste concentrem o maior volume de programas de excelência, a região Norte foi a que registrou o maior avanço percentual em qualidade no último ciclo.
Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Denise Pires apresentou uma análise demográfica inédita, cruzando a oferta de cursos de pós-graduação com a população graduada de cada região. O diagnóstico revela que a raiz do problema reside na base: apenas 20,4% da população brasileira tem diploma de ensino superior, índice que sobe para 23% na faixa acima de 25 anos. O número é drasticamente inferior aos 40% registrados pela média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). “Precisamos aumentar o número de vagas de graduação de qualidade para que possamos, consequentemente, expandir a pós-graduação”, enfatizou.
Outro avanço estratégico mencionado foi a mudança na política de periódicos da Capes. A fundação deixou de firmar acordos apenas para leitura (acesso aos textos) e passou a negociar acordos transformativos, que incluem o custeio da publicação de artigos por brasileiros em revistas de alto impacto (Open Access). A estratégia, iniciada com a American Chemical Society e expandida para editoras como Elsevier e Nature, visa projetar a ciência produzida no Brasil para o topo do ranking mundial. Atualmente, o país ocupa a 13ª posição em produção científica global.
Avanço e inclusão
A reitora Sandra Goulart Almeida destacou que a UFMG vive um momento de dupla celebração, que reúne o início do semestre letivo aos resultados expressivos da última avaliação quadrienal. “A UFMG é uma das pós-graduações mais consolidadas e homogêneas em termos de qualidade no país. Ter 70% dos nossos cursos nos níveis de excelência é uma enorme satisfação. Esse dado nos coloca entre as quatro universidades mais importantes do Brasil”, afirmou.
Sandra ressaltou ainda a recente revisão das ações afirmativas na pós-graduação, que ampliou a inclusão de pessoas com deficiência, quilombolas e trans. “Qualidade e inclusão não são opostos; a diversidade é fundamental para a força da nossa instituição”, pontuou.
O vice-reitor Alessandro Fernandes Moreira celebrou a sinergia entre as pró-reitorias para enfrentar as assimetrias e manter a UFMG no topo da produção científica nacional.
A pró-reitora de Pós-graduação, Isabela Pordeus, detalhou os números que sustentam o prestígio da instituição. Com 93 programas de pós-graduação, a UFMG conta atualmente com cerca de 4.800 mestrandos e 4.500 doutorandos. A professora chamou a atenção para a representatividade de gênero no corpo discente: as mulheres somam 57% das matrículas no mestrado e 53% no doutorado, além de representarem metade do quadro de docentes da pós-graduação. “Temos muito orgulho de fazer parte de um sistema que é modelo mundial. A manutenção das notas 7 e o avanço dos nossos cursos mostram que estamos no caminho certo”, destacou.
O pró-reitor de Pesquisa, Fernando Reis, resgatou a trajetória histórica da PRPq, fundada em 1966, e destacou o crescimento exponencial da produção científica da UFMG: em 30 anos, a Universidade saltou de 400 para 5 mil artigos publicados anualmente em bases internacionais. “Nessas seis décadas, nossa produção cresceu em volume, impacto e abrangência. Hoje, gerimos uma infraestrutura de ponta e mais de 1.400 bolsas de iniciação científica por ano. Celebrar esses 60 anos é homenagear todos os servidores e pesquisadores que construíram essa excelência e maturidade que tanto nos orgulham”, concluiu.
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