O pluralismo ‘desencarnado’ e o ressentimento: em defesa da igualdade democrática
Sem uma perspectiva histórica, todas as ideias parecem plurais quando são apenas ideias particulares
Por Marco Aurélio Máximo Prado* e Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira**
Um grupo de professores e professoras lançou um manifesto intitulado Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica. Este texto é uma amplificação, uma posição e uma contraposição a esse manifesto. Não se trata de discutir a centralidade e a importância do pluralismo em nossas instituições universitárias. Isso é ponto nodal da atividade acadêmico-científica. A questão é outra: qual pluralismo queremos defender.
Aqui nos contrapomos ao manifesto de colegas que se reuniram no Centro MariaAntônia, na Universidade de São Paulo, em abril de 2026, para o seminário Pluralismo e liberdade acadêmica nas universidades. Ao fazê-lo, buscamos amplificar o debate e escutar, na vida universitária, uma multiplicidade de vozes democráticas, assumindo uma posição declaradamente favorável à igualdade democrática.
A questão nodal não é apenas diagnosticar o que denominamos “pluralismo desencarnado”: um pluralismo que, ao se desvincular da história e da sociedade, não pluraliza o poder, mas multiplica o ressentimento. E também argumentar em favor da liberdade acadêmica: não da liberdade abstrata, e sim da liberdade endossada pelo princípio da igualdade democrática, da liberdade que considera a história como movimento de lutas e disputas.
A racionalidade neoliberal exige um esforço adicional para que sua crítica se torne mais aguda. Um de seus mecanismos centrais é a desconsideração histórica, ou seja, a ausência de contexto histórico em relação a uma ideia. Sem uma perspectiva histórica, todas as ideias parecem ter o mesmo peso e a mesma validade. Parecem plurais quando são apenas ideias particulares de uma comunidade bastante específica: a comunidade do ressentimento.
Wendy Brown e Melinda Cooper chamaram a atenção para uma compreensão do neoliberalismo não apenas como conjunto de políticas econômicas, mas também como racionalidade governamental que incide sobre subjetividades, instituições e, sobretudo, sobre a própria noção de petição política (Brown, 2015; Cooper, 2017). Ao converter cidadãos em agentes de mercado e transformar questões coletivas em preferências individuais e opiniões, o neoliberalismo produz exatamente o a-historicismo que aqui criticamos: um presente eternamente novo, descolado de qualquer movimento histórico, incapaz de aprender e reconhecer os elementos relacionais do passado ou as conquistas arduamente construídas.
Ao converter cidadãos em agentes de mercado e transformar questões coletivas em preferências individuais e opiniões, o neoliberalismo produz exatamente o a-historicismo que aqui criticamos.
Sem memória coletiva das lutas e dos embates políticos, o debate de ideias perde sua dimensão de responsabilidade ética e política. A sociedade resultante de longos processos históricos de luta, negociação e conquista, aparece ao olhar desencarnado e ressentido como obstáculo irracional à “nova” ideia de pluralismo sem igualdade democrática e não como sedimentação complexa do esforço coletivo para constituir-se como sujeito político.
Em States of injury, Brown (1995) mostra que o ressentimento pode se tornar não apenas subproduto do pluralismo desencarnado, mas sua própria lógica constitutiva. Relendo Nietzsche (2009), a autora desenvolve o conceito de “identidades feridas” (wounded identities): aquelas que se formam em torno da dor, da vitimização e do dano sofrido.
O dano e existe, e reconhecê-lo é necessário e justo. O problema está em não compreender como a identidade passa a depender, estruturalmente, do obstáculo que a constitui como um momento intrínseco a ela, como seu próprio conteúdo. O ressentimento deixa de ser reação para se tornar posição melancólica que instala a petição marcada pelo objeto obstaculizador: uma identidade residual da própria dor.
Compreendido esse elemento constitutivo do pluralismo desencarnado, percebe-se que um debate de ideias não ancorado na responsabilidade histórica e social desliza facilmente para uma dinâmica em que grupos e comunidades não debatem mais propostas, mas agem como identidades feridas, depurando termos à luz de seus próprios interesses e se apresentando como vítimas de ataques, pois se entendem como “iluminados da liberdade acadêmica”.
Emitir opinião parece ser sinônimo de liberdade de expressão. Porém, da forma como está constituída e movida pela melancolia da ferida e pelo ressentimento, essa opinião encarna sempre a ideia de que os direitos do outro obstaculizam os próprios direitos.
É nesse contexto que a ideia de liberdade se apresenta completamente desvinculada de qualquer articulação com a igualdade, a não ser em relação de oposição. Emitir opinião parece ser sinônimo de liberdade de expressão. Porém, da forma como está constituída e movida pela melancolia da ferida e pelo ressentimento, essa opinião encarna sempre a ideia de que os direitos do outro obstaculizam os próprios direitos. Ernesto Laclau (2005) já demonstrou que petições podem ser oriundas de posicionalidades distintas, mas, para que inaugurem um campo político e um limite às lógicas hegemônicas, precisam criar uma cadeia de equivalências; do contrário, como elementos soltos e livres, alimentam e solidificam cada vez mais as hegemonias hierárquicas dos direitos como se fossem privilégios.
O ressentimento é, antes de tudo, uma renúncia à ação. A comunidade do ressentimento não age: ela reage, imputa e acusa. É por esse caminho que um pluralismo robusto e democrático deverá se contrapor, assumindo a posição de que, sustentado pela história, pelo compromisso entre os e as participantes e pela ética da liberdade democrática, transforma a disposição para o conflito em deliberação, a dor do dano em demanda por equivalência e o afeto arruinador em projeto coletivo.
A comunidade ressentida passa a reivindicar ordenamentos e arbitragens normativas já em disputa, exigindo condenações e exclusões como se fossem opiniões livres e legítimas. Argumenta por crimes e exclusivismos exatamente porque, desencarnada da história e ressentida pela dor da melancolia, apresenta-se como defensora de uma suposta neutralidade do método e da ciência em pleno século XXI. Advogar pela neutralidade institucional é o mesmo que negar a própria história: quando as instituições universitárias foram neutras? Enquanto dominadas por certo grau de elitismo e por um sentido iluminista, as chamadas posições vanguardistas não tinham uma posição política definida?
Um debate socialmente engajado exige compromisso ético, empatia pela diferença e a busca pelo alargamento democrático da igualdade: o bem comum não é mais definido por uma elite que se julga iluminada e intelectual, mas pela cidadania. O pluralismo desencarnado, ao contrário, promove a “opinião” como direito absoluto e irredutível, sem o dever correspondente de engajamento prático e de consideração pelas consequências coletivas.
Quando as instituições universitárias foram neutras? Enquanto dominadas por certo grau de elitismo e por um sentido iluminista, as chamadas posições vanguardistas não tinham uma posição política definida?
É aqui, contudo, que esse liberalismo esvaziado tenta instalar uma comunidade de bem comum aparentemente neutra – como defende o manifesto dos e das colegas reunidos no Centro MariAntônia. Esse tipo de apelo ao “bem comum” ou à “comunidade neutra” normalmente envolve exclusões, diversas homogeneizações e novas formas de opressão, especialmente quando o bem comum é definido com base em uma identidade dominante que se apresenta como universal, legítima e representativa (Brown, 2019).
É preciso cuidado com esse tipo de liberalismo. Pode ser, ele sim, bastante autoritário, porque insensível às desigualdades. Essa tensão nos obriga a precisar: qual pluralismo estamos propondo? Um pluralismo que sustente a igualdade democrática e também defenda o bem comum e a liberdade com base na história de seu tempo, encarnada na igualdade e na democracia constitucional das lutas sociais.
O pluralismo de ideias só é construtivo quando encarnado, simultaneamente, em três dimensões (Brown, 2015): a história, a sociedade e a ética.
Encarnado na história: as ideias precisam ser avaliadas à luz de sua trajetória, de seus antecedentes e de suas consequências no tempo. Sem memória e aprendizagem históricas, o debate se torna um eterno presente de opiniões pseudoequivalentes, incapaz de distinguir o que foi tentado, o que falhou e o que ainda não foi realizado.
Encarnado na sociedade: as ideias precisam ser testadas pelo crivo da realidade coletiva, mediadas por instituições constitucionais e democráticas que transformem o conflito em deliberação e a diferença em proposta.
Encarnado na ética responsável: a liberdade de opinião, para não se tornar monólogo ressentido, exige o dever correspondente de engajamento, de se deixar transformar pelo argumento, de reconhecer o outro como interlocutor legítimo, de aceitar que a rejeição de uma ideia não é uma afronta pessoal, mas parte da vida democrática, e de compreender que as desigualdades não podem ser a garantia da validade de uma suposta opinião livre. Admitir que as universidades são hoje as pontes necessárias entre distintos e legítimos centros e contextos de pensamento e saberes nos parece fundamental para alargar os sentidos do reconhecimento da diferença e a radicalidade dos sentidos da igualdade.
Esse tripé é o que distingue o pluralismo democrático do mercado de ressentimentos em que a política contemporânea frequentemente tem sido convertida e depurada. Sem demos, sem história, sem responsabilidade ética, o pluralismo reivindicado pelo manifesto dos e das colegas reunidas no Centro MariAntônia não liberta: apenas multiplica as feridas e legitima ainda mais as hierarquias sociais da desigualdade.
Referências
BROWN, Wendy. States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity. Princeton: Princeton University Press, 1995.
BROWN, Wendy. Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution. New York: Zone Books, 2015.
BROWN, Wendy. In the Ruins of Neoliberalism: The Rise of Antidemocratic Politics in the West. New York: Columbia University Press, 2019.
COOPER, Melinda. Family Values: Between Neoliberalism and the New Social Conservatism. New York: Zone Books, 2017.
LACLAU, Ernesto. On Populist Reason. London: Verso, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. [1887]
*Doutor em Psicologia Social pela PUC-SP e professor da UFMG
**Doutor em Direito pela UFMG e professor titular da Faculdade de Direito da UFMG
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