‘Ciência caminha para o fim do uso de animais’, prevê embaixadora de laboratório europeu de alternativas à experimentação
Doutoranda Nathalia Oliveira, da Faculdade de Farmácia, vai apresentar exemplos práticos e implicações éticas dos avanços regulatórios na área em palestra na próxima terça-feira, dia 26
Por Luana Macieira
A UFMG promove, na próxima terça-feira, 26, a partir das 13h30, palestra sobre métodos substitutivos ao uso de animais na ciência. O tema será abordado pela pesquisadora e doutoranda em Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia Nathalia Stephanie Oliveira. O evento será realizado no auditório da Unidade, no campus Pampulha. A entrada é gratuita, mas requer inscrição prévia por meio de formulário on-line.
Nathalia Oliveira é a primeira embaixadora não europeia do Laboratório de Referência da União Europeia para Alternativas à Experimentação Animal (EURL ECVAM), organização dedicada ao desenvolvimento, à validação e à promoção de métodos para substituição, redução e refinamento do uso de animais em pesquisas e testes de segurança química. A nomeação da pesquisadora está alinhada a agendas globais de inovação e ética na ciência, especialmente no avanço de metodologias alternativas, além de marcar a expansão internacional da iniciativa e a participação do Brasil, por meio da UFMG.
“Essa palestra é minha primeira atuação como embaixadora do EURL ECVAM. Quando a ciência desenvolve medicamentos e produtos, a gente costuma usar animais nos testes. Porém, estamos caminhando para o fim do uso desses animais e a substituição por abordagens computacionais. Trata-se de uma maneira inovadora de fazer essa substituição, principalmente no desenvolvimento de fármacos”, afirma a doutoranda.
A pesquisadora vai apresentar exemplos práticos e uma visão aplicada da área com base em experiências desenvolvidas no Laboratório de Toxicologia (ToxLab) da Faculdade de Farmácia. Ela também vai abordar implicações éticas e avanços regulatórios recentes, além de apresentar a pesquisa que a credenciaou como finalista do Lush Prize 2026, iniciativa que premia estudos que dispensam o uso de animais em testes científicos. O método, retratado em reportagem publicada no Portal UFMG, ganhou destaque internacional ao possibilitar a avaliação do potencial cancerígeno de fármacos e danos ao DNA sem utilizar seres vivos.
Nathalia explica que debater o tema no ambiente universitário possibilita que estudantes de graduação e pós-graduação que atuam em laboratórios conheçam alternativas preditivas e centradas em humanos para a realização de testes.
“A ciência busca deixar de usar animais não apenas por questões éticas, mas também científicas. Métodos mais próximos dos seres humanos são mais baratos e éticos. Além disso, os animais funcionam como uma caixa-preta: é possível observar o dano, mas não compreender exatamente como ele ocorreu. As novas abordagens possibilitam entender esses mecanismos, o que assegura maior eficácia no desenvolvimento de produtos e fármacos”, argumenta a embaixadora.
Curiosidade se transformou em carreira
Primeira pessoa de sua família a ingressar no ensino superior, Nathalia concluiu a graduação e o mestrado na Faculdade de Farmácia. Ela conta ter sido uma criança curiosa e lembra que, aos três anos, teve contato com histórias sobre a clonagem da ovelha Dolly.
“Naquela época, fiquei com isso na cabeça. Cresci, então, com esse interesse por laboratório e ciência. Além disso, eu sempre tive amor pelos animais e interesse por essa causa, mas nunca pensei em cursar Medicina Veterinária porque não conseguiria conviver com animais doentes e em sofrimento. Cheguei a pensar em fazer Medicina também, mas depois percebi que sempre quis impactar a vida das pessoas por meio da ciência”, relata.
Na graduação, Nathalia atuou como monitora de toxicologia e começou a ter contato com métodos de teste que não utilizavam animais. No mestrado, durante experimentos com fígados de camundongos em sua pesquisa, passou a se sentir incomodada com esse tipo de procedimento. “Foi quando tive um caso de câncer na minha família, o que também me fez questionar como novas substâncias e fármacos eram testados nos laboratórios”, relata.
A pesquisadora afirma sentir-se realizada por contribuir para a redução do uso de animais em laboratórios. “Eu acredito que estamos caminhando para essa substituição. Nos Estados Unidos, uma lei federal aprovada em 2023 retirou a obrigatoriedade do uso de animais no desenvolvimento de medicamentos em alguns contextos. No Brasil, o fim dessa prática também avança no setor de cosméticos. A sociedade tem pressionado por essa pauta. A ciência está evoluindo, e essa causa não é apenas científica, mas sobretudo social”, conclui.
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