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A sorte é da banca

Grupo de Probabilidades no Futebol une ciência, divulgação e combate à desinformação

Referência nacional, projeto do Departamento de Matemática da UFMG agora investe na produção de vídeos para as redes sociais para alertar sobre os riscos das apostas digitais

Por Matheus Espíndola

Site da rádio Itatiaia: previsões feitas pelo Departamento de Matemática da UFMG são comumente usadas no noticiário esportivo brasileiro
Print de notícia do site da Rádio Itatiaia: previsões do Departamento de Matemática são largamente usadas no noticiário esportivo brasileiro
Imagem: site da Rádio Itatiaia, modificada por Matheus Espíndola (com uso de IA)

Criado em 2004, o Grupo de Probabilidades no Futebol surgiu de um incômodo compartilhado por professores que acompanhavam o noticiário esportivo. O projeto, que ao longo dos anos se tornou referência nacional, agora expande sua atuação ao produzir vídeos para o TikTok e o Instagram e ao assumir missão de usar a ciência no combate à ilusão das apostas esportivas.

A ideia nasceu de conversas informais na sala de café do Departamento de Matemática. Na época, os professores Gilcione Nonato da Costa e Bernardo Nunes demonstravam inconformismo com as análises numéricas publicadas pela imprensa esportiva local. Segundo eles, as estimativas anunciadas pelos veículos não tinham qualquer fundamento matemático.

“Um grande jornal de Minas Gerais tinha uma figura chamada analista de números que falava coisas do tipo: ‘a probabilidade de o Atlético ser campeão é 93%, a do Flamengo é de 97%, a do São Paulo é de 94%’. Mas aquilo não fazia nenhum sentido; era um desserviço”, relembra o professor Bernardo Nunes, especialista em probabilidade e um dos coordenadores do projeto.

Assim, unindo a habilidade de Gilcione em programação de computadores à especialidade de Bernardo Nunes em teoria probabilística, o grupo desenvolveu um programa próprio para calcular as chances reais dos times. O grupo de cinco professores que fundou a iniciativa também incluía Fábio Brochero, Marcelo Terra Cunha e Francisco Satuf.

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Nova demanda
Até recentemente, o grupo tinha como único foco abastecer torcedores e a imprensa com dados precisos sobre as chances de rebaixamento e de título das equipes. No entanto, os pesquisadores identificaram uma nova demanda social decorrente da proliferação das plataformas de apostas no ambiente digital e passaram a produzir vídeos curtos para as redes sociais.

A estudante Luiza Bueno, do terceiro período da graduação em Matemática, é responsável pela criação dos perfis digitais, pela gravação e edição dos vídeos e pela elaboração coletiva dos roteiros. “Embora o alcance das redes ainda esteja em expansão, o retorno na seção de comentários de plataformas como o TikTok tem-se mostrado altamente positivo e elogioso, o que nos motiva a planejar a entrega de pelo menos um conteúdo audiovisual inédito por semana”, informa Bernardo Nunes.

No Instagram, Bernardo Nunes explica o raciocínio que fundamenta os jogos de azar: "é calculado de modo que a banca sempre ganhe"
No Instagram, Bernardo Nunes explica o raciocínio que fundamenta os jogos de azar: “é calculado de modo que a banca sempre ganhe”

A principal aposta pedagógica do grupo é explicar, de forma simples, um dos pilares da teoria da probabilidade: a Lei dos Grandes Números, teorema publicado postumamente pelo matemático Jacob Bernoulli em 1713.

O conceito estabelece que, se um experimento probabilístico é repetido inúmeras vezes, a média observada na prática acaba convergindo para a média teórica. Bernardo Nunes ilustra o fenômeno: “Se você lançar um dado honesto apenas seis vezes, é baixíssima a chance de cada número (de 1 a 6) figurar exatamente uma vez. Se esse mesmo dado for lançado milhares de vezes, a frequência com que determinado número aparece, dividida pelo total de lançamentos, vai se aproximar de 1/6, que é a probabilidade teórica”, explica o professor.

“Nesse teorema está a base que garante que todo jogo de azar, do tipo em que vários jogadores enfrentam a banca, dê lucro certo para a banca. O que é equivalente a dizer que, se o jogador for compulsivo, ele terá prejuízo infinito”, adverte o especialista.

Ao longo de duas décadas, dezenas de estudantes passaram pelo projeto como bolsistas, produzindo artigos científicos publicados em veículos de prestígio, como as revistas Ciência Hoje e Matemática Universitária (da Sociedade Brasileira de Matemática). “Coincidentemente, os estudantes envolvidos são alunos de excelência no curso de Matemática, o que nos deixa muito felizes, pois mostra que a extensão e a divulgação científica enriquecem a formação”, conclui Bernardo Nunes.

Em 2024, a TV UFMG produziu uma reportagem sobre o trabalho do Grupo. Relembre:

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