Pesquisadores associam bactérias isoladas do leite materno à prevenção e tratamento da obesidade
Descoberta resultou em uma das 95 patentes depositadas pela UFMG no ano passado; estudo também relaciona bactérias à compulsão alimentar
Por Luana Macieira
Ao avaliarem a microbiota presente no leite materno, pesquisadores da UFMG identificaram que determinadas bactérias ali encontradas têm potencial para prevenir e tratar a obesidade, além de contribuir para a redução da compulsão alimentar. Iniciado em 2017, o estudo envolveu 47 lactantes do Hospital Sofia Feldman e 24 do Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte.
Os pesquisadores observaram que o leite materno de mães com diferentes Índices de Massa Corporal (IMC) apresentava perfis bacterianos distintos. O professor Flaviano dos Santos Martins, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, explica que as bactérias Lactobacillus gasseri e Bifidobacterium breve foram identificadas apenas em lactantes do Hospital Sofia Feldman com IMC entre 18,5 e 24,9 – faixa que, segundo a Organização Mundial da Saúde, caracteriza mulheres magras. No Hospital Madre Teresa, a bactéria Lacticaseibacillus rhamnosus também foi encontrada exclusivamente nesse grupo.
“Já sabíamos que a microbiota intestinal é diferente em mulheres magras e em mulheres obesas. As bactérias da classe Lactobacillus são facilmente encontradas em produtos probióticos e já são conhecidas como aliadas no controle da obesidade. A partir disso, surgiu o questionamento: se uma mãe com sobrepeso ou obesidade não apresenta essas bactérias em seu leite, elas não serão transmitidas ao bebê durante a amamentação. Dessa forma, aumentam as chances de esse bebê também ficar acima do peso”, explica Martins.
O grupo isolou essas bactérias tanto do leite quanto do colostro – produzido pela mãe logo após o nascimento do bebê – e passou a investigar de que forma esses microrganismos influenciam a obesidade.
No laboratório
Para obter as respostas desejadas, os pesquisadores realizaram testes com camundongos em um laboratório do ICB. Inicialmente, foram avaliadas algumas linhagens de Lactobacillus gasseri – extraídas de mães com IMC considerado normal – em camundongos obesos. Os resultados mostraram que apenas uma das amostras contribuiu para a perda de peso dos animais, indicando que o efeito depende da linhagem probiótica. No caso da bactéria Lacticaseibacillus rhamnosus, duas linhagens foram testadas, mas somente uma apresentou impacto positivo na redução do peso dos animais.
“Tratamos os animais com as bactérias e, por meio dos testes, constatamos que o efeito do probiótico depende da linhagem da bactéria. Isso quer dizer que nem todas as bactérias da mesma espécie são capazes de tratar ou prevenir a obesidade induzida nos animais”, afirma o professor.
Após essa etapa, o grupo realizou testes relacionados à dosagem das bactérias que apresentaram efeito positivo, avaliando também a compulsão alimentar e os processos inflamatórios observados nos animais. “Quando uma pessoa está obesa, a permeabilidade intestinal se altera, permitindo que bactérias do intestino migrem para a corrente sanguínea – processo conhecido como translocação bacteriana –, o que gera inflamação sistêmica, inclusive no sistema nervoso. Esse quadro pode alterar o comportamento do indivíduo, provocando neuroinflamação e favorecendo a compulsão alimentar”, explica o professor Flaviano.
Probiótico como tratamento
Ao concluírem que a efetividade do tratamento da obesidade está relacionada à linhagem bacteriana, os pesquisadores pretendem reproduzir as bactérias que apresentaram os melhores resultados para a realização de testes clínicos em humanos. Assim, esses microrganismos poderão ser utilizados como probióticos no auxílio ao tratamento da obesidade e na prevenção do ganho de peso.
“Sabemos que a obesidade humana é multifatorial, pois está relacionada à genética, à alimentação e aos hábitos das pessoas. Porém, se a lactante não tem essas bactérias, elas não serão passadas para o bebê durante a amamentação. A pesquisa nos mostrou que é importante que os bebês recebam suplementos alimentares com essas bactérias. Assim, conseguiremos diminuir a incidência da obesidade nessas crianças”, conclui.
A patente foi depositada pela UFMG com o nome Composições com atividade contra obesidade e compulsão alimentar compreendendo bactérias isoladas do leite materno humano e usos. Além do professor Flaviano dos Santos Martins, também figuram como inventores a professora Jacqueline Isaura Alvarez Leite, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB, e o pesquisador Bruno Gallotti Costa, que defendeu tese sobre o tema, sob orientação dos professores Flaviano e Jacqueline.
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