Rodrigo Patto lança coletânea sobre ditaduras e a extrema direita no Brasil
Livro de historiador da UFMG reúne artigos que examinam a resiliente ameaça de golpe militar que paira sobre o país
Por Ewerton Martins Ribeiro
Cinco anos após lançar a edição mais recente de Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil (1917-1964), livro pioneiro na análise das campanhas empreendidas para criar ambientes propícios à emergência de ditaduras no Brasil, o professor Rodrigo Patto Sá Motta, do Departamento de História da UFMG, lança agora a coletânea No olho do furacão: estudos de história política. O livro reúne artigos que tratam da resiliente ameaça sob a qual se vive, no Brasil, de se ter a qualquer momento um novo golpe militar.
“Trata-se de uma coletânea de textos meus, na maioria inéditos no Brasil, sobre temas como ditaduras, cultura política, anticomunismo, historiografia, ultradireitas e o lugar (perigoso) ocupado pelos historiadores/as no quadro recente”, informa o autor.
Outros temas abordados nos textos são o papel político da imprensa frente aos golpes militares, a polícia política e suas estruturas de repressão e a guerra cultura bolsonarista, em sua virulenta disputa pela história recente. No olho do furacão: estudos de história política será lançado nesta segunda-feira, 11, às 16h, no hall do Centro de Atividades Didáticas 2 (CAD 2), no campus Pampulha, com a presença do autor.
Para compor o livro, Patto priorizou textos sobre a história política do Brasil nunca antes publicados por aqui ou que haviam sido publicados anteriormente apenas em línguas estrangeiras – além, é claro, de inéditos. O critério adotado foi o de selecionar textos que, coligidos, pudessem “contribuir para a compreensão de alguns dos nossos grandes dilemas”, como se anota na apresentação do volume – a começar pela incapacidade do país de superar a imorredoura ameaça golpista, que teve seu mais recente recrudescimento em 2023, “quando forças de ultradireita saíram das margens a que estiveram relegadas desde o fim da ditadura [de 1964-1985] e passaram a ocupar o centro da cena pública e as estruturas governamentais”.
O que Rodrigo Patto vai demonstrar é que, se as elites sociais e políticas diuturnamente lançam mão de recursos autoritários e violentos, o objetivo é sempre o de manter a ordem tradicional, impedindo avanços de justiça social e democracia: “O Brasil tem uma história política marcada por vários problemas estruturais, que geraram intensas disputas e conflitos, por sua vez conectados a questões de ordem social e econômica. Uma das contendas mais marcantes envolve as demandas e mobilizações por democratização, a ampliação da participação política de grupos excluídos e a redução das desigualdades sociais.” As intentonas autoritárias dos setores dominantes surgiriam justamente como resposta a essas mobilizações, na intenção de abafá-las.
Dessa equação decorre o grande número de golpes (e tentativas) e ditaduras por que passou o país ao longo da nossa história – “inclusive a tentativa de golpe mais recente, de janeiro de 2023”, lembra o autor. Patto também explica que, paralelamente às investidas mais explícitas, as elites sociais e políticas também utilizaram, ao longo de nossa história, estratégias mais sutis para manter o domínio, envolvendo acomodação e integração parcial de algumas demandas, assim como o investimento em figuras carismáticas capazes de atrair apoio popular. “Toda a minha pesquisa tem sido dedicada a estudar esses temas em perspectiva histórica, na expectativa de contribuir para que as pessoas possam se posicionar de maneira bem-informada frente às disputas políticas – de preferência, optando por caminhos democráticos.”
Nos ensaios ora reunidos, o autor também focaliza a história brasileira sem se restringir a “perspectivas nacionais estreitas”, como ele informa na apresentação; ao contrário, o historiador da UFMG busca analisá-la considerando conexões em cenários amplos, sejam regionais, no contexto da América Latina, seja levando em conta o quadro global. Nos estudos, ele também manifesta preocupação em lançar um olhar transdisciplinar para seus temas de interesse, buscando incorporar contribuições das suas “ciências sociais vizinhas”, como a Ciência Política e a Antropologia. “Tais diálogos interdisciplinares inspiraram a adoção de certas construções teóricas e conceituais que têm sido fundamentais para o estudo de fenômenos históricos, entre elas cultura política, imaginário e modernização conservadora”, explica.
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Um lugar perigoso
Sobre o citado “lugar perigoso” ocupado pelos colegas de profissão no quadro recente, Rodrigo Patto Sá Mota escreve o seguinte, já em altura mais avançada de seu livro: “Em lugar de se manter em posição defensiva, questionando o valor do conhecimento universitário e indicando formas alternativas de discurso sobre o passado, os historiadores deveriam se esforçar mais para mostrar ao público as razões que tornam a História produzida em instituições acadêmicas a forma de conhecimento mais confiável, entre as outras disponíveis. Vale a pena ressaltar com mais ênfase, no debate público, que a História é o melhor recurso que temos para revelar a falsidade e a manipulação politicamente interessada do passado praticadas pelos defensores de ditaduras.”
Na apresentação do volume, ele situa o contexto que justifica essa sua preocupação. “O empoderamento da ultradireita implicou graves consequências para diferentes setores, mas significou um desafio particularmente complexo à historiografia acadêmica. A História como forma de conhecimento sempre teve implicações políticas, portanto, invariavelmente ela é objeto e agente de disputas políticas. No entanto, no cenário recente, devido à radicalização dos conflitos e sobretudo à ascensão da ultradireita, a politização da história alcançou grau mais elevado, gerando desde as tentativas de censura e de intimidação promovidas pelo bolsonarismo e outras forças de direita, até o investimento em narrativas sobre o passado que enaltecem os regimes autoritários e a repressão aos movimentos progressistas.”
O autor
Rodrigo Patto Sá Motta é especialista em história do Brasil República e em história contemporânea, atuando principalmente no campo da história política. De 2013 a 2015, foi presidente da Associação Nacional de História (ANPUH). É autor e organizador dos livros Jango e o golpe de 1964 na caricatura (Zahar, 2006), As universidades e o regime militar: Cultura política brasileira e modernização autoritária (Zahar, 2014), Ditaduras militares: Brasil, Argentina, Chile e Uruguai (Editora UFMG, 2015) e Passados presentes: O golpe de 1964 e a ditadura militar (Zahar, 2021).
Um dos destaques de sua produção é o livro Em guarda contra o perigo vermelho (2020, Eduff), cuja última edição conta com posfácio com análises do período recente, marcado pela apropriação moderna, por grupos antipetistas, da tradição anticomunista. Na obra, Rodrigo Patto vai demonstrar que essa tradição serviu de sustentáculo ideológico dos processos que resultaram na deposição da presidente Dilma Rousseff, em 2016, e na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. Pioneira, a obra desdobra os achados da tese de doutorado defendida pelo historiador em 2000 na Universidade de São Paulo (USP).
Livro: No olho do furacão: estudos de história política
Autor: Rodrigo Patto Sá Motta
Sagga Editora
R$ 69 / 200 páginas
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