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TRATAMENTO ANTIOFÍDICO

Tecnologia do ICB propõe abordagem inovadora para reduzir complicações do envenenamento por serpentes

Anticorpo monoclonal é empregado no desenvolvimento de antivenenos com 100% de capacidade neutralizante, eliminando a dependência de grandes animais e a variação entre lotes dos métodos convencionais

Por Janaína Coelho | CTIT

Com Matheus Espíndola

Equipe de pesquisadores em laboratório com o professor Carlos Olórtegui, coordenador do estudo
Equipe de pesquisadores em laboratório com o professor Carlos Orlótegui, coordenador do estudo
Foto: Gustavo Henrique | CTIT

Com o propósito de reduzir a hemorragia, a necrose tecidual e outros efeitos dos envenenamentos causados por picadas de serpentes do gênero Bothrops – grupo que inclui as espécies popularmente conhecidas como jararacas –, pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) desenvolveram um anticorpo monoclonal capaz de reconhecer e neutralizar as toxinas desses animais. 

Segundo o professor Carlos Olórtegui, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB e coordenador do estudo, o anticorpo monoclonal funciona como uma chave altamente precisa, capaz de reconhecer e se ligar a um alvo específico – neste caso, as toxinas hemorrágicas do veneno. “Anticorpos monoclonais são ferramentas biotecnológicas produzidas em laboratório que se distinguem por serem capazes de reconhecer um único epítopo de um antígeno (a parte específica do antígeno reconhecida pelo anticorpo), oferecendo uma precisão muito superior à dos métodos convencionais”, explica o pesquisador. 

Olórtegui detalha que os anticorpos monoclonais são gerados a partir de hibridomas – células híbridas resultantes da fusão entre células B de um animal imunizado, que secretam o anticorpo, e células de mieloma, que garantem a sobrevivência e a produção contínua em cultura. “Por serem derivados de um único clone de célula B individualizada, esses anticorpos formam um lote homogêneo e sem variações, permitindo, por exemplo, a criação de antivenenos com 100% de capacidade neutralizante contra toxinas específicas”. 

A tecnologia já é amplamente empregada no tratamento de alguns tipos de câncer e de doenças inflamatórias e pode representar uma alternativa promissora para o tratamento de envenenamentos causados por animais peçonhentos.

Animal do gênero Bothrops, responsável por 90% dos acidentes com serpentes no Brasil
Foto: Léo Noronha | Funed

Vantagens
Segundo o professor, a principal vantagem dos anticorpos monoclonais em relação aos métodos convencionais – como a produção de soro em cavalos – está na precisão e na eficiência, uma vez que eles possibilitam a criação de antivenenos compostos integralmente por anticorpos neutralizantes direcionados às toxinas de interesse. Já a técnica tradicional produz anticorpos policlonais, que incluem defesas contra diferentes antígenos aos quais o animal foi exposto e exigem doses elevadas para alcançar eficácia, além de apresentar maior variação entre lotes. Os anticorpos monoclonais, por sua vez, garantem uma ação mais específica e padronizada.

“Além disso, o método laboratorial é mais ético e sustentável, pois o uso de animais ocorre apenas uma única vez para a coleta inicial de células, que são então “imortalizadas” em cultura para secretar os anticorpos indefinidamente”, acrescenta Olórtegui.

Desenvolvida no Laboratório de Imunoquímica de Proteínas, a tecnologia está protegida e disponível para licenciamento pela UFMG. Os acidentes com serpentes ainda representam um importante desafio de saúde pública no Brasil e em outras regiões tropicais. No país, nove em cada dez ocorrências desse tipo estão associadas a serpentes do gênero Bothrops.

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