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Obituário

Morre, aos 94 anos, a professora emérita Glaura Vasques de Miranda

Ex-diretora da FaE e ex-secretária de Educação de Belo Horizonte, ela foi uma das idealizadoras do projeto Escola Plural e também foi reconhecida por suas contribuições para o movimento feminista e estudos de gênero

Por Matheus Espíndola

Durante o período em que atuou como secretária de Educação de Belo Horizonte, Glaura participou da implantação da Escola Plural, considerado o primeiro projeto pedagógico de rede que discutiu de forma criativa a universalização do ensino
Como secretária de Educação de Belo Horizonte (1993 – 1996), Glaura participou da implantação da Escola Plural, projeto pedagógico que discutiu de forma criativa a universalização do ensino
Foto: Arquivo de família (expandida com uso de IA)

Faleceu na noite da quarta-feira, dia 22, aos 94 anos de idade, a professora Glaura Vasques de Miranda. Entre 1974 e 1993, ela integrou o quadro de docentes da Faculdade de Educação (FaE). De 1986 a 1990, Glaura foi diretora da FaE, unidade que a homenageou com a outorga do título de emérita, concedido em 2003. A docente também foi pró-reitora de Pesquisa de 1983 a 1986.

Glaura de Miranda foi figura central na criação do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), na própria Faculdade de Educação, em 1990. Doutora pela Stanford University (1978), ela ainda atuou como secretária de Educação de Belo Horizonte de 1993 a 1996, onde foi uma das idealizadoras do projeto Escola Plural no âmbito da rede municipal de educação. “Foi o primeiro projeto pedagógico de rede que discutiu de forma criativa a universalização do ensino”, definiu a professora Samira Zaidan, uma das muitas figuras ligadas à Faculdade de Educação que lamentaram a morte de Glaura por meio de mensagens trocadas com colegas. “O nome Escola Plural foi sugerido por ela. O formato atual das escolas de educação infantil tem muito de suas ideias, ela adorava mexer na arquitetura”, comentou.

A atual diretora da FaE, Shirley de Miranda, conta que conheceu Glaura Vasques nos anos 1990, quando era professora da rede municipal de Belo Horizonte. “Ainda estávamos implantando a Escola Plural, e uma das coisas que me impressionavam na Glaura era a firmeza com que defendia uma proposta que era polêmica e arrojada. Ela acreditava nesse arrojo, que depois deu tantos frutos na educação”, explica Shirley, lembrando que à época várias propostas de educação democrática estavam sendo construídas em outros lugares do país, como São Paulo, Porto Alegre e Vitória. Belo Horizonte entrava nesse circuito por meio de educadores como a própria Glaura Vasques e Miguel Arroyo.

De acordo com Shirley de Miranda, Glaura “não só endossou a proposta como fortaleceu a relação dinâmica de democratização do acesso à escola”. Mais tarde, ao ingressar no mestrado na própria FaE, Shirley compreendeu a origem desse espírito arrojado, que, segundo ela, “tinha a ver com o método de valorização dos saberes construídos nas lutas sociais que era próprio do nosso programa de pós-graduação”. “Glaura foi uma dessas pessoas que apostaram na educação não só como mobilidade social, mas como mudança para uma sociedade mais justa e igualitária. É um legado que ela deixa, e que precisamos continuar”, defende a diretora.

A própria Glaura Vasques de Miranda relatou a experiência da Escola Plural em artigo publicado em 2007 na Revista Estudos Avançados, da USP. No texto, ela abordou a concepção, a história, a estrutura e os desafios de implementação do programa na rede de ensino de Belo Horizonte. Glaura relatou o contexto do início dos anos 1990, marcado pela expansão das matrículas no ensino fundamental por exigência da nova Constituição e pela busca por garantir o acesso e a permanência de todas as crianças na escola pública.

Elaborada coletivamente sob a inspiração do projeto de Escola Cidadã, formulado por Paulo Freire, e nas discussões da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), a proposta buscava substituir a lógica tradicional e a cultura da reprovação por um ordenamento organizado em três ciclos de formação por faixa etária: infância (seis a nove anos), pré-adolescência (nove a 12 anos) e adolescência (12 a 14 anos).

A mudança envolveu a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos, a incorporação de temas transversais e atividades culturais, a introdução de uma avaliação formativa e contínua e a adoção do critério de três professores para cada duas turmas.

A implantação da Escola Plural iniciou-se em 1994 e passou por avaliação da FaE, por recomendação do Conselho Estadual de Educação. Apesar das críticas, especialmente em relação à progressão automática, o relatório e os dados do Ideb apontaram pontos positivos e melhorias no ensino.

Frente feminista
Outra frente de atuação de Glaura Vasques foi o movimento feminista. Ela foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos sobre a Mulher (Nepem), da Fafich, na década de 1980. A socióloga Silvana Coser, que foi sua orientanda no mestrado, definiu Glaura como “uma mulher excepcional”: “Glaura foi palestrante sobre o [tema] ‘mulher e trabalho’ no seminário Mulher em Debate, realizado em 1975 pelo DCE”. Era uma época, segundo ela, em que a questão feminista ainda não estava posta.

A professora Mirian Chrystus, aposentada do Departamento de Comunicação Social da UFMG, também fez alusão ao evento ocorrido no DCE, e classificou Glaura Vasques como “uma voz muito importante no apoio à luta feminista em Minas Gerais e no Brasil”. 

“Minha relação com ela vem de 1975, [designado pela ONU como] o Ano Internacional da Mulher. Na ocasião, nós, um grupo de jovens jornalistas, resolvemos promover o primeiro seminário de cunho feminista em Belo Horizonte. Era um momento político muito delicado, muito difícil. O seminário se realizou em novembro e, cerca de dez dias antes, o jornalista Vladimir Herzog tinha sido morto sob tortura nas dependências do Doi-codi, em São Paulo. Havia muito medo no ar, mas Glaura, corajosa, defendeu as ideias desse grupo de feministas – que criaria, mais tarde, o movimento Quem ama não mata. Glaura foi uma voz muito importante naquele momento, quando a questão da mulher não existia para a esquerda. A esquerda só reconhecia como temas a luta de classe e a derrubada da ditadura. Qualquer coisa fora disso era considerado desvio de forças”, testemunhou Mirian Chrystus.

O Nepem se manifestou por meio de nota nas redes sociais, em que também caracterizou a professora Glaura Vasques como “figura pioneira na pesquisa feminista e educacional no Brasil”. “Ela desempenhou papel fundamental no desenvolvimento e na institucionalização dos estudos de gênero e relações de trabalho na academia latino-americana. Suas investigações destacam o descompasso social vivido pelas mulheres, sendo uma referência contínua na história do movimento feminista brasileiro. Foi autora de obras de referência, como o clássico estudo Diagnóstico da mulher brasileira nos anos 80, lançado em parceria com o Nepem e publicado pela Revista da FaE. 

O diagnóstico também lembrou que a professora, no âmbito do Ceale, atuou fortemente na busca por verbas junto ao Ministério da Educação, sendo homenageada, em 2007, durante o 1º Seminário Internacional sobre Política e Feminismo, com o Premio Lúcia Tosi. A honraria homenageia a cientista, química, pesquisadora e ativista feminista argentina Lúcia Piave Tosi (1917–2007), reconhecida por seus estudos pioneiros sobre o papel da mulher na ciência.

O corpo de Glaura Vasques de Miranda foi velado nesta quinta-feira, dia 23, no Funeral House, no bairro Funcionários, na região centro-sul de Belo Horizonte.

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