‘Inventores de um gênero’: Milton Nascimento e Toninho Horta se tornam doutores pela UFMG
Tomada pela emoção, cerimônia de outorga do título aos músicos ocorreu na noite desta segunda-feira no auditório da Reitoria
Por Ewerton Martins Ribeiro
“Na vida, tudo tem sua hora, mas eu nunca esperei por um momento como esse. Quando soube, pelo Wilson, que receberia o título de Doutor Honoris Causa, eu quase caí duro. ‘Você está brincando comigo?’, eu disse a ele, sem poder acreditar.” Foi dessa forma que Toninho Horta puxou pela memória o momento em que soube, pelo professor da Escola de Música e amigo Wilson Lopes, que receberia o principal título honorífico da UFMG, por indicação da Congregação da Escola de Música.
“É que essa nomeação significa mesmo muito para mim. É um reconhecimento de uma ralação com a música a vida inteira. Como muitos sabem, sou autodidata – e sempre fugi um pouco das escolas. Ao mesmo tempo, pela vida inteira eu tentei ser criativo. Então, agora, eu recebo esse reconhecimento, ao mesmo tempo que, já há algum tempo, muitas pessoas têm estudado a minha música… É um momento único. A ficha realmente ainda não caiu.”
Toninho recebeu o título em uma cerimônia realizada no auditório da Reitoria na noite desta segunda-feira, 22 de dezembro, tomada pela emoção. E a honra não poderia ser maior: além de essa ser a mais alta outorga oferecida pela UFMG, a Universidade também conferiu, na mesma noite, o título a Milton Nascimento, o grande fundador do movimento musical que, a partir dos anos 1970, passaria a ter em Toninho Horta o seu mais sofisticado representante – o Clube da Esquina.
Um é o inventor (ao lado de Lô Borges, recentemente falecido e muito homenageado nas falas da noite) de um grupo, um movimento – um “gênero musical”, talvez, como já se começa a dizer em círculos de pesquisa internacionais, segundo Wilson Lopes. O outro, o seu mais proeminente reinventor contemporâneo. Em razão dessa confluência, esta foi a primeira vez na história que a UFMG conferiu o título de Doutor Honoris Causa a duas pessoas ao mesmo tempo, em uma mesma cerimônia.
Patrimônio coletivo
“Milton Nascimento e Toninho Horta são duas pessoas que representam um patrimônio coletivo, que é a música de Minas Gerais. Assim, por meio deles, a UFMG homenageia também um coletivo que representa a história e um legado para Minas, o cultuado Clube da Esquina”, disse a reitora Sandra Goulart Almeida em seu pronunciamento. Conforme preconiza o Regimento Geral da UFMG, o título de Doutor Honoris Causa é conferido em reconhecimento a personalidades que prestaram contribuições relevantes para a ciência, a tecnologia ou a cultura.
“De certa forma, para a UFMG é que é uma honra, na verdade, poder homenagear dois nomes tão significativos da música mineira, da cultura mineira, que têm uma repercussão enorme não apenas no Brasil, mas também no exterior”, disse a reitora. “A UFMG vive hoje uma de suas noites mais gloriosas, em seus quase cem anos de existência. Uma noite que não acabará neste 22 de dezembro histórico; ficará perpetuada para sempre em nossas memórias”, disse, confessando-se tiete de ambos os músicos.
Antes mesmo de o evento começar, o auditório da Reitoria já havia alcançado sua ocupação máxima, de quase trezentos lugares. Assim, a cerimônia foi transmitida também para o auditório Nobre do CAD 1, onde se reuniram mais algumas dezenas de fãs e amigos de Milton e Toninho. Ao fim dos discursos e da formalização dos títulos, professores e alunos da Escola de Música se juntaram ao homenageado para uma apresentação musical em tributo a Milton Nascimento, ao Clube da Esquina e à própria obra de Toninho Horta, tornando a festa completa.
‘A serviço da emoção’
“As interpretações e composições desses dois grandes mestres da música, bem como de seus colegas do Clube da Esquina, é assim: fluida, espontânea, descomplicada, sem perder, porém, um nível de sofisticação técnica que fez com que sua obra alcançasse um reconhecimento mundial”, explicou o diretor da Escola de Música, Renato Tocantins Sampaio, em uma fala mais técnica sobre a relevância musical da produção dos homenageados. “Uma coisa importante a se ressaltar, em se falando de música e de cultura, é que tal sofisticação técnica sempre esteve a serviço da emoção”, disse o professor, ao situar o caráter ao mesmo tempo particular e universal, simples e rebuscado, elegante e terreno, sofisticado e popular da música de ambos.
“Podemos citar, como exemplo, o prestigiado, estudado, dissecado solo de guitarra de Toninho Horta na gravação original de O Trem Azul, composição de Lô Borges (música) e Ronaldo Bastos (letra). Trata-se de um solo muitas vezes descrito como tecnicamente simples, mas extremamente bem construído musicalmente”, introduziu o professor. Em seguida, ele listou alguns aspectos dessa construção: “o timbre diferente que é dado pelo uso de oitavas; a influência do guitarrista de jazz Wes Montgomery; a melodia que reflete e destaca o encadeamento harmônico, construído com empréstimos modais pouco usuais na música popular urbana daquela época – enfim, trata-se de uma obra-prima, entre outras tantas com que Toninho Horta nos brindou ao longo de sua trajetória”, disse.
Essa complexidade parece ser reflexo tanto de uma vocação quanto da formação de Toninho, cujas influências vão da tradição da cultura popular à música de concerto, do rock à música latina, do choro ao jazz. O músico nasceu em família fortemente musical; no evento, ele não se furtou de agradecer aos vários parentes que, presentes ou ausentes na cerimônia, tiveram participação decisiva em sua formação. “A gente teve essa sorte de ter tido o barroco mineiro como uma cultura nossa. A influência dos cantos religiosos, essa mistura de culturas que nossa história nos forneceu. Tudo isso, de certa forma, estava ali, no disco que começa isso tudo, o álbum Clube da Esquina”, demarcou.
Mais ou menos nesse momento de sua fala (tomada pela emoção, ela navegou em idas e vindas), Toninho falou – sempre meio a sério, sempre meio em tom de piada – de sua “teoria” de que a música mineira acompanha, em sua tradição melódica, o contorno das montanhas do estado, em seus altos e baixos, suas ascendências súbitas, seus mergulhos repentinos. “A maioria dos compositores de Minas Gerais, desde o pessoal do regional ao do pop rock, tem um pouco disso. A gente não faz melodia linear”, disse, retomando a anedota a que sempre costuma retornar. “Fazemos melodias audaciosas, montanhosas; aí o pessoal de fora fica desbundado”, arrematou, divertindo a plateia.
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O melhor exemplo dessa tradição? Outra vez, as músicas do citado Clube da Esquina, disco de 1972, pedra fundamental do próprio movimento musical a que deu nome, responsável por projetar pelos ares montanheses a sonoridade inovadora de seus músicos. Duplo, o álbum inaugura de uma só vez pelo menos dez grandes hits no ambiente musical brasileiro; nele, despontam canções como Tudo que você podia ser, Cais, O trem azul, Cravo e Canela, Um girassol da cor do seu cabelo, San Vicente, Clube da Esquina nº 2, Paisagem na janela, Um gosto de sol e Nada será como antes, além da emblemática regravação de Me deixa em paz, eternizada nas vozes de Milton Nascimento e Alaíde Costa.
‘Quem sabe isso quer dizer: amor’
Em seu pronunciamento, a reitora da UFMG lembrou que Milton Nascimento, mesmo discreto em suas falas públicas, deu uma contribuição decisiva, por meio de sua arte e de sua voz, para a luta pelo avanço da democracia brasileira. “Milton não é apenas uma figura central na moderna canção brasileira. Com seu estilo sereno, sempre discreto, ele marcaria desde os anos 1960 sua presença nos momentos críticos da história nacional. É dele, por exemplo, e do parceiro Wagner Tiso, outro integrante do Clube da Esquina, o hino não oficial do movimento Diretas Já, a canção Coração de estudante, um tributo à juventude e ao desejo por dias melhores”, lembrou a reitora. “Além de bela e divina, a voz de Milton é também engajada e corajosa – sempre esteve a serviço da democracia e da liberdade”, disse a dirigente, lembrando outras canções que se colocaram a favor das lutas contra o racismo, a favor dos povos indígenas, defensoras da democracia e da urbanidade.
Impossibilitado de comparecer, Milton Nascimento recebeu o título pelas mãos do professor Wilson Lopes, seu amigo há mais de quarenta anos e parceiro musical há mais de trinta. Coincidentemente, o professor o conheceu justamente no casamento de Toninho Horta, em 1983, quando ainda era adolescente. Ao ver Milton passar em sua frente, o jovem Wilson não resistiu e se saiu com a seguinte sacada, batendo no ombro do desconhecido: “Ô Milton doidão”. Obviamente, arrependeu-se imediatamente de ter capitulado ao pensamento intrusivo. Sem dar muita bola, Milton seguiu seu caminho. Mais tarde, contudo, Milton voltou e, ao passar novamente em frente ao rapazote, falou então, após uma breve pausa dramática: “Quem que é o doidão aqui, rapaz?”. Foi nesse momento que Wilson teve a certeza: “ele estava me sacaneando”.
Wilson contou a história em tom emocionado e bem-humorado, ao receber a título pelo amigo. “Aí não deu outra: depois disso, viramos imediatamente ‘melhores amigos de infância’. Nunca mais nos largamos.”
Wilson se tornaria músico da banda de Milton em 1993 e tocaria com ele até as últimas apresentações, realizadas em 2022. “Toquei no mundo inteiro com ele, compus músicas, trabalhei em trilhas de filmes, e posso garantir: o Milton é uma das pessoas mais maravilhosas que tem nesse mundo. Talvez alguém possa escrever sobre isso um dia. Escrever sobre ele, sobre a relação dele com o planeta. Entre todos que conheço, o Milton é a pessoa mais diferente que existe. Só fala de amor, de amizade. Nisso, ele me lembra muito o John Lennon. Diz que tudo tem de ser por aí, senão não vale.” Em conversa com jornalistas da UFMG antes do evento, o professor falou também do desafio de representar o amigo na cerimônia. “É uma responsabilidade imensa estar aqui no lugar dele. Fica um pouco de tristeza, claro, por ele não poder estar. Mas depois poderei entregar para ele o diploma. Tenho certeza de que ele ficará muito feliz.”
Aos 83 anos, Milton tem enfrentado graves problemas de saúde, o que impossibilita sua participação em eventos. Em outubro, a família revelou que ele foi diagnosticado com demência por corpos de lewy, doença neurodegenerativa progressiva. Sem cura, a doença provoca sintomas mentais parecidos aos da Doença de Alzheimer e sintomas físicos parecidos com os da Doença de Parkinson, como tremores e rigidez muscular. Antes de receber o título de Doutor Honoris Causa da UFMG, o cantor e compositor já tinha sido agraciado pela Universidade do Estado de Minas Gerais, em 2012, pela Berklee College of Music, de Boston, nos EUA, em 2016, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2024, pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), também em 2024, e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2025, alguns dias atrás.
Ainda em sua conversa com jornalistas, Wilson comentou do que leu, certa vez, num cartaz que anunciava um show de Milton Nascimento nos Estados Unidos. “Eu viajei com o Milton por trinta anos e posso dizer de como ele é reverenciado em todo o planeta. Ele e o Clube da Esquina. É uma música que é muito estudada fora do Brasil, pois ela tem uma característica muito única. Lembro que, num cartaz que estava na entrada de um show que o Milton Nascimento faria nos Estados Unidos, estava escrito o seguinte: ‘Milton Nascimento, o gigante que criou um gênero’. Então, lá fora, já estão entendendo que se trata de um gênero musical. Isso é muito rico para Minas Gerais e também para a Universidade. O estudo dessa música – que demanda muita atenção, muita dedicação – é algo que colabora para o desenvolvimento social e intelectual do nosso estado”, finalizou o professor.
A TV UFMG e a Rádio UFMG Educativa também acompanharam a cerimônia.
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