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Reparação

Perseguida pela ditadura, Elza Pereira é homenageada pela UFMG

Servidora de 82 anos que não pode participar da sessão solene do Conselho Universitário, em 2024, recebeu uma placa em sua casa no interior paulista

Por Vinícius Matias | Sindifes-MG

Elza Melo, com o diploma, e Wellington Marçal: “queria estar lá”
Foto: Wellington Marçal | UFMG

No dia 10 de agosto, o vice-diretor da Biblioteca Universitária da UFMG, Wellington Marçal de Carvalho, chegou à Iperó, no interior de São Paulo, a 649 quilômetros de Belo Horizonte, com a missão de concluir a cerimônia de reparação histórica, iniciada em 2024, pela UFMG. Com uma placa de homenagem à mão, bateu na porta da casa da técnica-administrativa em educação Elza Pereira da Costa, 82 anos, que foi exonerada do cargo de servidora e expulsa como estudante da Universidade, na década de 1960, pelo regime militar.

Problemas de saúde e questões familiares impediram Elza de estar no auditório da Reitoria em 2024 e adiaram a entrega da homenagem, que, enfim, se concretizou naquela manhã. “Dedico essa placa aos mortos, aos desaparecidos na luta e aos que continuam a luta. O que mais quero é que a luta continue, porque não dá para parar”, declarou Elza. Sobre a homenagem da UFMG há dois anos, acompanhada a distância, ela enfatizou: “Recebi com muito carinho, muito amor. Fiquei muito feliz, embora não tivesse condição física de estar lá [na UFMG]”. Queria estar”, afirmou a servidora, que atuou no laboratório central da Faculdade de Medicina, foi estudante do curso de Odontologia e um dia sonhou em trabalhar com cirurgia maxilofacial.

Wellington Marçal, que é servidor técnico-administrativo do quadro da UFMG, disse estar alegre e honrado por ter sido o portador da homenagem. “Como naquela ocasião, por questões familiares, você não pôde estar presente, firmamos o compromisso de que, quando fosse possível, traria a placa e também um abraço do coletivo que lutou bastante para que isso acontecesse”, afirmou ele, ao entregar a placa.

Nascida em Sorocaba (SP), em 1944, Elza Pereira chegou a Minas depois de ter passado no vestibular de Odontologia da UFMG e decidiu ficar, mesmo depois de ser aprovada em Medicina em São Paulo. Trabalhava no laboratório central da Faculdade de Medicina de manhã e à tarde. À noite, cursava Odontologia. “Consegui tudo em Minas: trabalho, carro, bolsa e muitos amigos”, recorda-se. “Se eu procuro a época em que fui feliz, Belo Horizonte entra em primeiro lugar.”

Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), ela foi presa duas vezes. Na segunda, em Belo Horizonte, foi levada ao presídio feminino. Solta, voltou a ser procurada porque a polícia vistoriou seu armário na Universidade e listou os livros que ali encontrou. Eles viraram peça do processo administrativo de rito sumário de que foi alvo. Irany Campos, servidor técnico-administrativo em educação da UFMG, colega do campus Saúde e também homenageado em 2024, avisou para ela não entrar na faculdade naquele dia.

Elza saiu da cidade disfarçada e, pelo Uruguai, chegou ao Chile, onde conheceu o marido Pedro França Viegas, exilado do Brasil. Eles estão juntos há mais de 54 anos. A notícia da expulsão do curso – com base no Decreto 477 – e do cargo chegou por telefone e pelos jornais, já no exílio. Do período na prisão, ela resume o que repete há décadas: “Atinge a alma e nunca se esquece. É ferida que não seca.”

A reparação
Em 24 de setembro de 2024, a UFMG, em sessão solene do Conselho Universitário, homenageou os servidores técnico-administrativos em educação Elza Pereira e Irany Campos e os professores Marcos Magalhães Rubinger (in memoriam) e João Batista dos Mares Guia, que foram afastados de suas funções pelo regime. Quatro estudantes mortos pela ditadura receberam diplomas póstumos: Gildo Macedo Lacerda, Idalísio Soares Aranha Filho, Walkíria Afonso Costa e José Carlos Novais da Mata Machado. Esses nomes constam no relatório final da Comissão da Verdade de Minas Gerais (Covemg).

Diferentemente dos professores e dos estudantes, Elza e Irany nunca tiveram a readmissão reconhecida oficialmente depois da exoneração, lacuna preenchida por essa ação. Em 2024, Elza, outros homenageados e familiares deram depoimentos ao Portal UFMG. Além disso, a Rádio UFMG Educativa produziu a série Retratos sonoros sobre a trajetória de cada homenageado.

Localizar Elza quase seis décadas depois de sua exclusão dos quadros da UFMG foi uma tarefa abraçada pelo Sindifes-MG em acordo com a Universidade. O Sindicato montou uma comissão composta por Anália das Graças Gandini Pontelo, Cristina del Papa, Helder de Castro Bernardes Barbosa, Neide da Silva Dantas Mendes e Wellington Marçal de Carvalho. Eles rastrearam notícias sobre o casal até chegar a uma reportagem de 2023 com o indicativo de sua residência em Iperó, município de 37 mil habitantes localizado na Região Metropolitana de Sorocaba. Wellington Marçal fez o contato e foi incumbido pela própria Elza de receber a placa em seu nome.

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