UFMG, Governo de Minas e Fapemig anunciam patentes e investimentos na vacina Calixcoca
Recursos deverão viabilizar testes em humanos da terapia inovadora contra dependência em cocaína; cartas-patentes foram concedidas à Universidade e à Fundação, cotitulares
Por Itamar Rigueira Jr.
•Com Assessoria de Comunicação da Fapemig
A Calixcoca, vacina desenvolvida pela UFMG contra a dependência em cocaína e crack, está patenteada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) e também nos Estados Unidos. O anúncio foi feito hoje, 28 de agosto, em solenidade de comemoração aos 40 anos da Fundação de Apoio à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) pelo governador Romeu Zema, pela reitora Sandra Regina Goulart Almeida e pelo presidente da Fapemig, Carlos Arruda. A Universidade e a Fundação são cotitulares da patente.
Na ocasião, foram anunciados também investimentos de R$ 18,8 milhões do governo do estado que vão viabilizar a fase de testes da Calixcoca em humanos. Os avanços no desenvolvimento da vacina pioneira já são reconhecidos nacional e internacionalmente, por meio de prêmios como o Euro Inovação em Saúde e o Veja Saúde e Oncoclínicas, ambos em 2023.
Diferentemente de outras vacinas, a Calixcoca é não proteica e tem como base a molécula V4N2 (calixareno). Ela induz o organismo a produzir anticorpos que se ligam à cocaína no sangue, o que impede sua entrada no cérebro e bloqueia seus efeitos. Os estudos pré-clínicos em ratos confirmaram a produção de anticorpos, o bloqueio da passagem da droga para o sistema nervoso central, a redução de abortos espontâneos em fêmeas prenhes expostas à droga e o nascimento de filhotes mais saudáveis e resistentes.
O aporte do governo de Minas Gerais no desenvolvimento da Calixcoca é de R$ 18.844.168,81, em parcelas de R$ 14,56 milhões, repassados em 2024, R$ 1,6 milhão previsto para 2025, R$ 2,5 milhões previstos para 2026 e R$ 94 mil previstos para 2027. Por meio de chamadas públicas da Fapemig, outros R$ 500 mil já foram investidos na pesquisa.
Pesquisa básica
Sandra Goulart Almeida destacou a importância da Calixcoca dos pontos de vista científico e social e da parceria com o governo de Minas e da Fapemig. “Esse é um dos inúmeros casos de sucesso das pesquisas realizadas pelas universidades do estado. Vale sempre ressaltar que esse trabalho nasce da pesquisa básica – e é mais uma demonstração de que é fundamental investir na ciência básica –, e o esforço feito nos laboratórios da UFMG por nossos pesquisadores vai propiciar que essa inovação chegue aos cidadãos de Minas e de todo o país”, afirmou a reitora.
O governador Romeu Zema parabenizou a todos os envolvidos no desenvolvimento da Calixcoca, que ele classificou como “passo importantíssimo para a solução de um problema que não é só de Minas e do Brasil, mas de todo o mundo”. Carlos Arruda ressaltou a participação da Fapemig no projeto da vacina e a trajetória da Fundação, enfatizando seu papel no financiamento da ciência e na formação de pesquisadores. O secretário de Saúde, Fábio Baccheretti, citou episódio de anos atrás, quando a reitoria Sandra Goulart mencionou a “grande oportunidade” da parceria para investir na vacina que então já era bastante promissora.
Estima-se que 20 milhões de pessoas no mundo sejam usuárias regulares de cocaína ou crack e que 25% desenvolvem dependências ou transtornos relacionados. A produção global de cocaína cresceu 34% de 2022 para 2023, e esse número é provavelmente subestimado, em razão da dificuldade de mensurar uma atividade ilegal. Não há tratamento farmacológico eficaz consolidado para a dependência de cocaína. Pesquisas em diversos países não avançaram em humanos.
Mais testes antes dos humanos
Na apresentação da Calixcoca, o professor Ângelo de Fátima, do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, contou que o processo para construir a molécula V4N2 e validar sua síntese levou quatro anos, e a formulação feita para atender ao regulamento da Anvisa manteve a eficácia observada inicialmente. Está sendo avaliado, segundo o pesquisador, se a vacina poderá ser armazenada em temperatura ambiente, o que é uma grande vantagem, considerando a logística de transporte em longas distâncias, por exemplo.
Em entrevista à imprensa, o pró-reitor de Pesquisa da UFMG, Fernando Reis, explicou que toda pesquisa tem resultado incerto e que só uma parte pequena das vacinas passa da fase em que está a Calixcoca para a seguinte. “Esperamos ter sucesso na fase pré-clínica para avançar às fases de pesquisa clínica. A previsão inicial é fazer essa transição em um prazo de dois a quatro anos, a depender dos resultados”, ele disse, adicionando que a patente se baseou na síntese e caracterização da molécula e na prova de conceito em animais, e que agora são necessários mais testes em condições certificadas antes de fazer a transição para os testes em humanos.
“Estamos caminhando a passos firmes para atingirmos o ponto de pleitear autorização para os estudos clínicos”, disse Ângelo de Fátima, acrescentando que a sequência da pesquisa vai contar com laboratórios certificados como os do CTVacinas, da UFMG. O professor anunciou também que outra molécula desenvolvida pelo grupo de pesquisa para o combate a dependência de cocaína oferece indícios de produção ainda mais factível.
Os pesquisadores da UFMG iniciaram parceria com a Universidade de Washington (EUA) para o combate a metanfetaminas e estão trabalhando também em direção a uma vacina bivalente para o crack e a nicotina, duas drogas fumadas. Ângelo de Fátima ressaltou que todas essas pesquisas têm a participação de dezenas de alunos. “Temos o forte compromisso de seguir formando recursos humanos”, afirmou.
Além da Fapemig e do governo de Minas Gerais, as pesquisas relacionadas à Calixcoca têm apoio da Capes, do CNPq, da Finep, da Senad, secretaria do Ministério da Justiça para políticas antidrogas, e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Investimentos robustos e perenes
Ao se referir ao aniversário da Fapemig, a reitora Sandra Goulart Almeida parabenizou toda a equipe da Fundação, “a instituição que mais fomenta a pesquisa em Minas Gerais, com investimentos robustos e perenes”. Ela afirmou que o papel da Fapemig é inestimável para o ecossistema tecnológico de um estado que “tem vocação para o conhecimento e tradição em ciência e desenvolvimento”.
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