UFMG participa de diagnóstico inédito de saúde mental nas universidades brasileiras
Pesquisa envolve estudantes e servidores de 50 instituições públicas de ensino superior de todo o país; segunda etapa vai investigar população de fora das universidades
Por Luana Macieira
A UFMG é uma das 50 instituições de ensino superior brasileiras que participarão do 1º Estudo Nacional de Saúde Mental nas Universidades (Enasam-U), responsável pelo mapeamento das condições de saúde mental de estudantes e servidores com idades entre 18 e 75 anos.
A pesquisa busca compreender os efeitos e os desafios relacionados à saúde mental no ambiente universitário, com o objetivo de subsidiar ações para a construção de espaços mais acolhedores e inclusivos. Para isso, os pesquisadores vão coletar informações em duas etapas. Na primeira, estudantes e servidores selecionados por sorteio aleatório receberão um questionário on-line. Em seguida, parte dos participantes será convidada para entrevistas diagnósticas por telessaúde, destinadas à avaliação das condições de saúde mental.
A pesquisa integra a campanha Rede brasileira em saúde mental: um inquérito sobre a saúde mental na população brasileira e nas universidades públicas, coordenada por especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na UFMG, o estudo é conduzido pelo professor Humberto Corrêa da Silva Filho, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina.
Corrêa explica que os convites para participação no inquérito serão enviados, a partir desta semana, a cerca de 3 mil integrantes da comunidade universitária da UFMG. Na primeira etapa do estudo, a expectativa é reunir 15 mil voluntários de todo o país. O professor afirma que o levantamento segue todos os critérios éticos e assegura a privacidade e a confidencialidade dos participantes. Segundo ele, o início da pesquisa em cada instituição está condicionado à aprovação do respectivo comitê local de ética em pesquisa.
“Nessa primeira etapa, a comunidade acadêmica receberá um convite por e-mail, com termo de consentimento e convite para participar. Aceitando integrar o estudo, o participante vai responder a um questionário com 60 perguntas. Posteriormente, entre os participantes que responderem ao questionário, haverá um sorteio de 60 pessoas em cada universidade (30 homens e 30 mulheres), sendo 10 discentes, 10 docentes e 10 técnicos-administrativos. Esses 60 sorteados farão, então, uma entrevista on-line conduzida por um psiquiatra ou psicólogo”, detalha o professor.
Diagnóstico ampliado fora das universidades
Após a realização da pesquisa nas 50 universidades públicas brasileiras, o estudo será estendido à população em geral por meio do Enasam. Humberto Corrêa explica que a expectativa é concluir, até 2027, a coleta de questionários e entrevistas nas universidades. Em seguida, terá início a etapa do censo nacional, cuja conclusão está prevista para 2029.
“Essa vertente com a população geral, fora das universidades, vai levar em conta uma amostra da população dos 47 maiores municípios brasileiros, além de alguns municípios com mais de cinco mil habitantes. Ao todo, participarão cerca de 10 mil pessoas, o que é uma amostra representativa dos brasileiros com idade entre 18 e 75 anos”, avalia Corrêa.
Nessa fase do estudo, os participantes serão visitados em seu domicílio por um profissional de saúde mental integrante do grupo de pesquisa. “Os dados dessa etapa, somados aos obtidos anteriormente nas universidades públicas, nos ajudarão a conhecer a realidade da prevalência de doenças mentais na população brasileira. A maioria dos estudos que temos e usamos quando falamos de doenças mentais são de prevalência internacional, realizados na Europa e nos Estados Unidos. Portanto, a pesquisa nos permitirá conhecer a nossa realidade”, projeta o professor.
Humberto Corrêa acrescenta que o conhecimento produzido por meio do inquérito será essencial para a formulação de políticas públicas regionalizadas dedicadas ao diagnóstico, à prevenção e ao tratamento de transtornos mentais. “A pandemia ajudou na percepção de que a saúde mental é muito importante. Há populações mais vulneráveis quando se fala em doença mental? Ao terminarmos o projeto, teremos um verdadeiro diagnóstico da saúde mental da população brasileira, e isso é de extrema relevância. Além disso, durante a realização das entrevistas, se for percebida a necessidade de atendimento, os participantes serão informados e encaminhados para o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).”
O coordenador da pesquisa na UFMG acrescenta que o estudo também contribui para a consolidação da Rede Nacional de Saúde Mental (Renasam), responsável por articular grupos de pesquisa voltados ao desenvolvimento e à inovação na área, além de conduzir estudos inéditos e disseminar informações atualizadas para ampliar a conscientização sobre o tema e combater o estigma associado aos transtornos mentais. Criada em 2024, a Renasam reúne 50 pesquisadores de todas as regiões do país. “A Rede também vai nos possibilitar ter pesquisadores treinados em todas elas”, conclui o professor Corrêa, ao destacar outro legado do estudo.
A pesquisa tem como coordenador nacional o pró-reitor de Pesquisa da UFRGS, Flávio Kapczinski, e conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Na região Sudeste, além da UFMG, participarão outras 13 universidades públicas: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e Universidade Federal de Itajubá (Unifei).
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