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Pesquisadoras da UFMG lançam calculadora de risco para a covid-19

Publicado em 27 janeiro 21 às 18:55 por admin

Sistema pode auxiliar profissionais que atuam na linha de frente a identificar precocemente pacientes com maior risco de morte

Calculadora permite escore preditivo de manifestação grave e de mortalidade da Covid-19
Profissionais de saúde em ação em UTI: calculadora avalia risco de morte por covid-19
Rovena Rosa | Agência Brasil

Com o objetivo de auxiliar profissionais que atuam na linha de frente no combate à pandemia, um grupo de pesquisadoras da UFMG, liderado pelas professoras Milena Marcolino, da Faculdade de Medicina, e Magda Pires, do Departamento de Estatística do ICEx, acaba de lançar a calculadora de risco para covid-19. O sistema é baseado em um escore, avaliação estatística de risco de morte que utiliza dados clínicos dos pacientes.

Segundo Milena Marcolino, a calculadora, que já pode ser usada em unidades de saúde hospitalares de todo o território nacional, vale-se de dados objetivos e amplamente disponíveis gerados durante a admissão dos pacientes com covid-19 nos hospitais. Essas informações possibilitam identificar o subgrupo de pacientes com maior risco de morte. “Elas podem, por exemplo, auxiliar a equipe a identificar pessoas que necessitam de reavaliações mais frequentes, além de ajudar a decidir a alocação de vagas de UTI”, explica a professora. 

O escore foi desenvolvido com base nas informações de quase 4 mil pacientes, e sua eficiência para descrever o risco de morte foi confirmada em outro grupo com mais de 1 mil pacientes. Segundo a professora Magda Pires, “o trabalho em conjunto da medicina e da estatística foi fundamental para o bom desenvolvimento do projeto, pois propiciou a aplicação eficiente de métodos estatísticos modernos na prática clínica em um cenário ímpar e relevante como o que estamos vivenciando com a covid-19”.

Esforço colaborativo
A pesquisa contou com o esforço colaborativo de 150 profissionais de saúde de 36 hospitais, assim como de estatísticos, administradores e estudantes de medicina e de enfermagem. 

Inicialmente, foram coletados dados de prontuários de pacientes internados devido à covid-19 nos hospitais. Em um segundo momento, dados clínicos e laboratoriais já demonstrados na literatura como os relacionados ao maior risco de mortalidade foram selecionados para serem testados no escore. “Os testes identificaram os dados mais importantes e sua força de associação com a mortalidade, a qual chamamos de ‘pesos’, responsáveis por gerar os pontos atribuídos na calculadora”, explica Marcolino. A última etapa do estudo testou a capacidade do escore de descrever o risco de morte em outro conjunto de pacientes de hospitais brasileiros participantes e de um grupo em hospital da Espanha. 

Além disso, a equipe de pesquisadoras fez uma revisão da literatura para identificar outros escores já publicados para a covid-19, pneumonia e sepse. Os escores foram comparados, e o resultado indicou que o novo sistema apresentou melhor desempenho.

Milena Marcolino sustenta que a calculadora, apesar de muito eficiente, não deve ser considerada uma substituta para a avaliação médica. “A calculadora foi validada no Brasil e em um grupo de pacientes da Espanha, mas não deve ser usada em outras populações até que sejam feitos estudos que garantam bom desempenho. A interpretação deve levar em conta o julgamento do médico assistente. Além disso, é essencial ressaltar que o risco foi calculado levando-se em conta o tratamento recebido no hospital. Portanto, se a calculadora mostra que um paciente apresenta baixo risco, isso não quer dizer que ele deva receber alta”, observa a professora.

Segundo Milena Marcolino, identificar pacientes admitidos com potencial de agravamento da doença e mortalidade com base apenas no julgamento clínico pode não ser suficiente. “O curso clínico pode se agravar rapidamente. Por isso, um escore que avalie variáveis na admissão hospitalar e auxilie a equipe de saúde a identificar os pacientes com maior risco de evolução para a forma grave pode ser muito útil no contexto de sobrecarga dos serviços de urgência”, afirma.

Da esquerda para direita: a médica Maíra Viana, o enfermeiro Rafael Carvalho, as professoras Milena Marcolino (coordenadora geral) e Magda Pires (coordenadora da análise estatística) e a doutoranda Luana Monteiro (coordenadora administrativa)
Da esquerda para direita: a médica Maíra Viana, o enfermeiro Rafael Carvalho, as professoras Milena Marcolino (coordenadora geral) e Magda Pires (coordenadora da análise estatística) e a doutoranda Luana Monteiro (coordenadora administrativa)
Ana Freitas | Instagram@renomeana

Sem tratamento
Neste mês, o Brasil alcançou mais de 8 milhões de casos de covid-19. Já são mais de 215 mil mortos no país em decorrência de uma doença para a qual não existe medicamento de eficácia comprovada. Desde que a vacinação começou no Brasil, no dia 17 de janeiro, pouco mais de 1 milhão de pessoas receberam a primeira dose do imunizante. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), dificilmente o país conseguirá vacinar toda a sua população até o fim do ano, o que indica a necessidade de elaboração de novas metodologias que auxiliem no tratamento da infecção.

“A produção de evidências relacionadas à covid-19 tem sido intensa, e pesquisadores do mundo todo têm-se aplicado no estudo de diferentes aspectos da doença. Ainda não há tratamento específico estabelecido, e muitos têm dificuldade em lidar com essa incerteza, lançando mão de terapias não comprovadas, que podem acarretar sérios efeitos adversos. Basear as decisões em evidências é essencial para evitar expor a população a riscos adicionais desnecessários”, afirma Marcolino.

A professora acrescenta que o projeto que deu origem à calculadora de risco para a covid-19 foi concretizado graças à parceria entre a UFMG e hospitais públicos, privados e filantrópicos, além do apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e do Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde, constituído pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Todo esse trabalho gerou produção e disseminação de conhecimento científico”, diz Milena Marcolino. 

Escore prognóstico para predição de doença grave e mortalidade causada pelo vírus Sars-Cov-2 (covid-19) foi um dos dez projetos da UFMG aprovados em programa da Fapemig que ofereceu apoio financeiro a ações emergenciais de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus.

(Luana Macieira)