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Por atuação na pandemia, Ana Paula Fernandes vence prêmio da embaixada e consulados dos EUA

Publicado em 7 abril 21 às 19:43 por admin

Pesquisadora do CTVacinas dividiu a conquista com outras seis mulheres

Ana Paula Fernandes pesquisa doenças negligenciadas e atua na Rede Vírus Foca
Lisboa | UFMG

A professora da Faculdade de Farmácia Ana Paula Salles Moura Fernandes, pesquisadora do Centro de Tecnologia em Vacinas e Diagnóstico (CTVacinas) da UFMG e coordenadora da área de diagnóstico de covid-19 da Rede Vírus do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), é uma das sete vencedoras do prêmio Mulheres brasileiras que fazem a diferença, edição 2021, concedido pela embaixada e consulados dos Estados Unidos no Brasil.

Segundo o embaixador norte-americano no Brasil, Todd Chapman, a premiação é uma forma de “reconhecer as importantes contribuições dessas sete mulheres excepcionais, cujas ideias, trabalho duro e inovações estão fazendo a diferença em todo o Brasil”. “Cada uma delas tem enfrentado desafios, seja pesquisando a covid-19, seja trabalhando para tornar as comunidades mais seguras, combatendo a violência de gênero ou protegendo os direitos dos indígenas. Elas perseveraram, superaram seus desafios e agora servem de inspiração para todos nós”, ressaltou.

O prêmio reconhece mulheres que se destacam em suas áreas de atuação. Com ousadia e pioneirismo, elas compartilham sua experiência e criatividade, gerando transformações estruturais em várias frentes. O resultado foi anunciado no último dia 31.

Ana Paula Fernandes trabalha como pesquisadora e gestora de inovação e transferência tecnológica e participou da criação do curso de Biomedicina e do Centro de Tecnologia em Vacinas e Diagnósticos da UFMG (CTVacinas). Desde fevereiro de 2020, ela atua na Rede Vírus, do MCTI, que vislumbrou a necessidade de criação de um teste nacional para diagnóstico da covid-19 antes mesmo de o país registrar o primeiro caso de contaminação pelo novo coronavírus.

Entrevista | Ana Paula Fernandes

‘Em um ano, quebramos um gargalo e construímos pontes’

Nesta entrevista ao Portal UFMG, Ana Paula Fernandes fala de sua satisfação com o reconhecimento da diplomacia norte-americana, do trabalho da Rede Vírus no desenvolvimento de tecnologias de testes diagnósticos e do seu perfil de pesquisadora, que mistura características pessoais com as da instituição, no caso a UFMG, que a acolheu.  

O que representou para a senhora a conquista do prêmio Mulheres brasileiras que fazem a diferença, concedido também a outras seis mulheres?
Senti-me muito feliz e honrada por representar o trabalho das mulheres pesquisadoras em todas as frentes relacionadas com a pandemia. Neste momento em que a população está passando por tanto sofrimento, com a falta de atendimento médico adequado e a pobreza aumentando no país, a valorização da atuação das mulheres é muito significativa. Representar as mulheres nessa premiação é motivo de muito orgulho e só aumenta minha responsabilidade como cientista, educadora e professora desta instituição tão importante que é a UFMG.

Quais fatores a senhora e sua equipe levaram em conta para vislumbrar, no âmbito da Rede Vírus, a necessidade de desenvolver um teste nacional para o diagnóstico da covid-19?
Em fevereiro de 2020, já sabíamos que a pandemia iria chegar, embora não tivéssemos a dimensão de sua gravidade. Mas já sabíamos que o Brasil tinha potencial muito grande para que a pandemia se transformasse na tempestade que estamos vivendo, especialmente nos últimos meses. Então, começamos a pesquisar, porque, diante de qualquer pandemia, é necessário muito diagnóstico, vacina e tratamento. Estudamos o genoma do vírus, acompanhamos de perto toda a literatura que estava sendo divulgada e estudamos o que havia ocorrido em pandemias anteriores nos países asiáticos. Muitas pesquisas feitas fora do Brasil serviram para nos orientar em relação a formas de conter esse problema.

Como mantemos interface com o setor de diagnóstico há muito tempo, começamos a perguntar se no país existiam insumos e kits diagnósticos e quais empresas os forneciam. Nessa sondagem, concluímos que tudo é importado, o que gerava o risco de escassez de diagnóstico no Brasil.

A partir daí, entendemos que deveríamos investir em insumos nacionais para produção dos testes e aproveitar essa oportunidade para produzir ciência e transferência de tecnologia, cumprindo toda a cadeia desse processo – dos experimentos iniciais até o escalonamento da cadeia industrial do produto. Os testes diagnósticos sorológicos já estão na Anvisa para aprovação e uso da população.

Como avalia essa empreitada?
Tem sido extremamente positiva. Por mais que pareça demorado, uma vez que também estamos envolvidos com a produção de vacinas e o atendimento emergencial da população, o resultado está aí: após um ano de registro do primeiro caso, temos kits nacionais prontos para uso. E como sabemos que a pandemia ainda vai durar, o desenvolvimento de insumos nacionais é fundamental, porque novamente estamos vendo o quanto testar, testar e testar é importante.

O processo de desenvolvimento científico gera frutos que, às vezes, não são vistos pela sociedade. Quando desenvolvemos pesquisa de um produto, formamos recursos humanos e criamos competências que serão aplicadas na solução de outros problemas. Em um laboratório, pesquisadores experientes trabalham na formação e qualificação de outros menos experientes, que no futuro terão todas as condições para auxiliar o país. Temos os frutos imediatos e a formação de uma cadeia de desenvolvimento. Em um ano, quebramos um gargalo e construímos pontes, que poucas vezes tinham sido construídas no Brasil. Sou muito otimista e sempre gosto de ver boas alternativas e de enxergar de forma positiva as dificuldades e entraves pelos quais a gente passa, buscando transformá-los em perspectivas positivas.

Quais as perspectivas para o teste nacional de diagnóstico molecular e qual sua importância no diagnóstico da covid-19?
A produção de insumos para o desenvolvimento dos testes moleculares é um processo um pouco mais demorado, mas que em breve também vai gerar frutos. Mais recentemente, a equipe que coordeno na Rede Vírus Diagnóstico buscou métodos alternativos para detecção rápida de variantes, que já estão sendo replicados para protocolos, testes e ensaios e repassados para universidades e laboratórios. Assim, teremos capacidade de vigilância mais rápida, precisa e adequada do surgimento e disseminação de variantes no Brasil.

Em sua carreira, a senhora tem-se destacado por desenvolver pesquisas com foco em doenças negligenciadas, que muito afetam populações vulneráveis, incluindo leishmaniose visceral canina – seu trabalho gerou, inclusive, método de diagnóstico, tratamento e vacina contra a doença. Esse percurso pelas doenças negligenciadas foi uma escolha natural ou as circunstâncias a atraíram para esse campo? 
Há uma mistura de minha personalidade com o perfil da UFMG, onde me formei e atuo como professora e pesquisadora. Por muito tempo, parte do investimento em pesquisa no Brasil era destinada às doenças negligenciadas, como leishmaniose, chagas e esquistossomose. Quando comecei a fazer estágios nos laboratórios da UFMG, meus professores e orientadores trabalhavam com essas doenças. Aos poucos, fui descobrindo que, de fato, elas tinham complexidade e eram problemas realmente desafiadores. Aí, entra um traço da minha personalidade, pois gosto de desafios e de usar metodologias científicas para lidar com questões complexas. O leishmania, por exemplo, é um parasita com ciclo de vida complexo e diversidade de espécies. Essa diversidade também caracteriza os aspectos imunopatológicos da doença. 

Outra característica muito importante desse processo é que fui influenciada pela UFMG, que sempre trabalhou na fronteira do conhecimento. Mesmo instalada em um país com inúmeras dificuldades de recursos para ciência, pesquisa e educação, a Universidade busca inovar e trabalhar na transposição da inovação para a sociedade.  

Quando eu ainda estava na graduação, um dos meus primeiros estágios foi em um laboratório que trabalhava com vacina recombinante por engenharia genética para esquistossomose. Mais tarde, quando passei a atuar na UFMG, já como professora, vi que a questão da inovação era um desafio a ser superado no Brasil, porque a maior parte da pesquisa ficava retida intramuros e não alcançava a sociedade por meio de produtos, tratamentos e vacinas. E isso ainda é um gargalo. Estamos vendo agora a importação de vacinas, essa dependência para proteger nossa população e reverter o quadro de paralisação de nossa economia.

Como a senhora avalia a gestão das políticas públicas, em especial o financiamento da educação e da ciência?
Essa questão da disponibilidade de recursos para educação e ciência sempre foi muito vulnerável –  é a primeira área que sofre cortes quando a economia não vai bem. E também é vulnerável ao entendimento de cada governo que entra. Tivemos um período de bastantes investimentos, mas, na sequência, vieram problemas econômicos e cortes drásticos para ciência e educação.

Mas, no momento em que temos um quadro como este, a duras penas constatamos que a única solução é o investimento em educação, com transmissão de conhecimento científico sólido, de informações corretas, e o resgate do papel da ciência. Apesar dos problemas econômicos que devem persistir, espero que haja sensibilidade para entender que essa é uma questão de segurança nacional, de cuidado e controle de situações sanitárias como a que vivemos.

(Teresa Sanches)