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Taxa do coronavírus nos esgotos de BH é quase duas vezes a do período mais crítico da pandemia

Publicado em 29 janeiro 21 às 19:30 por admin

Projeto de monitoramento coordenado na UFMG anuncia, em novo boletim, mudanças na metodologia de estimativa de pessoas infectadas

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Pesquisadores e técnicos fazem a coleta nas sub-bacias de esgotamento
Thiago Bressani

A carga viral (quantidade de cópias do novo coronavírus) detectada nas amostras de esgoto de Belo Horizonte (MG) atingiu seu segundo maior nível desde o início da pandemia, segundo o Boletim de Acompanhamento nº 29 do projeto-piloto Monitoramento Covid Esgotos, divulgado nesta sexta-feira, 29 de janeiro. Na segunda semana de pesquisa em 2021 (de 11 a 15 de janeiro), os níveis de carga viral encontrados nos esgotos são inferiores apenas ao que a pesquisa apurou na semana 52 do estudo (21 a 25 de dezembro de 2020), quando foi registrada a maior carga desde o início da pandemia. (veja o gráfico abaixo).

Em Belo Horizonte, as cargas virais continuam elevadas, cerca de aproximadamente 30 trilhões de cópias por dia. Esse patamar é quase o dobro do valor encontrado no período mais crítico da pandemia, no mês de julho de 2020, quando atingiu cerca de 18 trilhões de cópias por dia.

Os resultados fazem parte da nova fase de comunicação do projeto-piloto para 2021. A partir deste boletim, os pesquisadores passam a apresentar os valores em termos da carga viral detectada no esgoto, atendendo ao intuito principal do projeto, que é o de possibilitar avaliação comparativa do nível de circulação do vírus em relação às semanas anteriores.

O projeto-piloto Monitoramento COVID Esgotos tem o objetivo de monitorar a presença do novo coronavírus nas amostras de esgoto coletadas em diferentes pontos do sistema de esgotamento sanitário das cidades de Belo Horizonte e Contagem, inseridos nas bacias hidrográficas dos ribeirões Arrudas e do Onça. A iniciativa une a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o INCT ETEs Sustentáveis e a UFMG, e tem apoio da Copasa, empresa de saneamento de Minas Gerais, da Secretaria de Saúde do estado e do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam).  

Novas evidências
A quantidade de pessoas infectadas estimada com base nessa carga viral passou por reformulação metodológica, após a incorporação de novos dados e pesquisas ao longo do projeto, nas 53 semanas de trabalho realizado em 2020. Esses achados incluem, por exemplo, novas evidências de que o período de secreção do vírus nas fezes de pessoas infectadas pode durar até sete semanas e varia de indivíduo para indivíduo.

Essa nova metodologia resulta em valores (de população infectada estimada) de quatro a seis vezes inferiores àqueles calculados com a metodologia anterior e guardam mais coerência com a população que contribui com esgoto para as duas estações de tratamento de esgotos (ETEs) da cidade de Belo Horizonte. Segundo os coordenadores do projeto, embora a nova metodologia de cálculo tenha resultado em menor população infectada estimada, isso não significa que houve redução das cargas virais determinadas a partir do monitoramento do esgoto e, portanto, da circulação do vírus em Belo Horizonte.

A variação dessa estimativa também passa a ser considerada nos boletins, que informam a população infectada por faixas, representando valores mínimo, médio e máximo.

A estimativa de população total infectada para o conjunto de regiões (sub-bacias de esgotamento) que contribuem com esgoto para as ETEs Arrudas e Onça tem valor mediano de cerca de 250 mil pessoas (entre 190 e 345 mil pessoas, considerando os cenários) na semana epidemiológica 02/2021.

Em Contagem, a população infectada estimada na última semana de monitoramento foi de cerca de 45 mil pessoas – na semana anterior, a estimativa foi de cerca de 30 mil pessoas.

Os resultados das amostras de esgotos coletadas durante todo o projeto estão acessíveis no Painel Dinâmico Monitoramento Covid Esgotos.

Alerta para novos surtos
Os pesquisadores participantes no estudo reforçam que não há evidências da transmissão do vírus através das fezes (transmissão feco-oral) e que o objetivo da pesquisa é mapear os esgotos para indicar áreas com maior incidência da doença e usar os dados obtidos por meio de análise do esgoto como uma ferramenta de aviso precoce para novos surtos, por exemplo.

Com os dados, é possível saber como está a ocorrência do novo coronavírus por região, o que pode determinar a adoção ou não de medidas de relaxamento consciente do distanciamento social. Também pode possibilitar avisos precoces dos riscos de aumento de incidência da covid-19 de forma regionalizada, embasando a tomada de decisão pelos gestores públicos.

(Com Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico)