Saiba mais sobre a ascensão de artistas queer femininas na música pop internacional
02 de junho de 2026

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Por Rebeca Júlia,
graduanda em Relações Públicas pela UFMG e estagiária de comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG
Para ocuparem os palcos, por muito tempo, artistas sáficas precisaram manter a sua sexualidade em segredo, longe dos holofotes. Nos anos 2000, com o lançamento de “I kissed a girl” (2008), de Katy Perry, a indústria da música abriu espaço para representações femininas LGBTQIAPN+, especialmente na cultura pop. Mesmo com controvérsias, o sucesso da canção deu visibilidade ao debate relacionado ao apagamento de mulheres sáficas no meio musical, já que o número de celebridades assumidas com reconhecimento na área era minúsculo. A sua letra icônica não só fala da curiosidade de quem está se descobrindo, mas instiga o ouvinte a se questionar e se identificar:
I kissed a girl and I liked it (Eu beijei uma garota e gostei)
The taste of her cherry chapstick (Do gosto do seu brilho labial de cereja)
I kissed a girl just to try it (Eu beijei uma garota só para experimentar)
I hope my boyfriend don’t mind it (Espero que meu namorado não se importe)
Apesar da cantora não ter se declarado ao público, a música tornou-se um símbolo da cultura sáfica. E, embora a própria artista tenha afirmado em entrevista que escreveria a canção de forma diferente nos dias atuais (evitando estereótipos de gênero), pode-se dizer que foi uma das pioneiras a tratar o amor entre mulheres de forma não fetichizada ou cômica. A normalização da sexualidade na letra abriu caminho para que artistas LGBTQIAPN+ se permitissem criar produções a partir das suas próprias afetividades, fora da normatividade heterossexual.

Duas adolescentes pintando as unhas, sentadas no chão do banheiro, no videoclipe “Girls like Girls”. (Créditos: Hayley Kiyoko | YouTube).
Se “I kissed a girl” inflamou o debate sobre sexualidade feminina, “Girls like Girls” levou a transformação adiante, sete anos depois, com uma declaração à altura:
Girls like girls like boys do (Garotas gostam de garotas como os garotos gostam)
Nothing new (Nada novo)
Se você foi adolescente nos anos 2000, provavelmente já ouviu esse refrão. O impacto da música de Hayley Kiyoko, lançada em 2015, ultrapassou a viralização midiática, se tornando um marco musical de representatividade para muitas jovens mulheres LGBTQIAPN+.
O clipe acompanha a história de duas adolescentes que se apaixonam no decorrer de cinco minutos de curta-metragem. Ao abordar o amor entre garotas de forma natural e cotidiana, algo ainda incomum no pop mainstream do início dos anos 2000, repercutiu nas redes sociais da época e conquistou mais de 150 milhões de visualizações no YouTube. Com takes intimistas, das personagens nadando, trocando de roupa, pintando as unhas e se divertindo juntas, o vídeo mostra a construção da relação romântica das duas de maneira leve e sensível. Para muitas jovens, a música funcionou como acolhimento durante o processo de formação de identidade e suporte na descoberta da própria sexualidade, assim como “I kissed a girl” foi para Hayley Kiyoko, de acordo com a artista em entrevista.
O single obteve tanto sucesso nas redes sociais que se tornou livro em 2023: “Girls Like Girls: Uma história de amor entre garotas”. Ao ganhar uma adaptação na literatura, a história conseguiu atingir uma visibilidade ainda maior no público jovem. Mas, o sucesso não parou por aí: neste ano de 2026, a narrativa está prestes a virar um filme, dirigido pela própria Hayley Kiyoko, alcançando até mesmo as telas dos cinemas!

Casal de mãos dadas na floresta, no videoclipe “we fell in love in october”. (Créditos: girl in red | YouTube).
Junto a Hayley Kiyoko, outra artista consolidou a nova era de pop sáfico: Girl in Red. A cantora norueguesa Marie Ulven conquistou as plataformas digitais no ano de 2018, com “we fell in love in october”, obtendo mais de 1,5 bilhões de plays no Spotify. Com a explosão da música no TikTok, dois anos depois, em 2020, a canção ganhou destaque internacionalmente. Milhares de pessoas utilizaram o seu refrão em trends da rede:
You will be my girl (Você vai ser a minha garota)
My girl, my girl, my girl (Minha garota, minha garota, minha garota)
You will be my world (Você vai ser o meu mundo)
De início, era usada em vídeos curtos de casais sáficos. Mas, depois, rompeu a bolha e passou a ser utilizada na trilha de conteúdos variados, por pessoas de fora da comunidade. Ao se expandir para públicos diversos e sair fora do seu nicho, mostrou ao mundo um pouco das produções musicais feitas por mulheres sáficas. Nesse período, o nome da artista funcionava como o novo “anel de coco”: código para identificar quem era LGBTQIAPN+, sem se expor demais. Ou seja, na época, se você gostava de girl in red, tinha grandes chances de também gostar de outras mulheres.

Duas mulheres, sendo uma delas a cantora King Princess, se abraçando ao dançar em um baile, no videoclipe “1950”. (Créditos: King Princess | YouTube).
Pouco tempo depois, ainda em 2018, outra cantora LGBTQIAPN+ entrou em cena, com a música “1950”: King Princess! Mikaela Straus quebrou as barreiras impostas a artistas sáficas com o lançamento do seu primeiro single, aos 19 anos, que falava publicamente sobre o amor entre mulheres. Segundo a artista, a canção foi inspirada no livro “The Price of Salt”, de Patricia Highsmith, que revolucionou a literatura sáfica, ao dar um final feliz para o casal protagonista, o que era inédito em obras que retratavam o amor lésbico. “O amor queer só pôde existir em privado por muito tempo, sendo expresso na sociedade por meio de formas de arte codificadas.”, afirma a cantora em entrevista. Como referência queer da geração Z, King Princess segue produzindo canções que abordam abertamente temas românticos e a sua sexualidade nas letras.
Além dela, muitas outras cantoras LGBTQIAPN+ têm se estabelecido no mercado musical. Billie Eilish, Clairo, Chappel Roan, Doechii e Reneé Rapp são alguns exemplos de cantoras que, nos últimos anos, têm marcado a indústria com seus trabalhos recentes e reduzido o déficit queer no ramo. Hits como Lunch, Sofia, Pink Pony Club e Pretty Girls demonstram o avanço da presença sáfica no cenário mundial do pop. Com a ascensão dessas artistas na mídia, ampliou-se também o número de inspirações para jovens que enfrentam questões identitárias e dificuldades no processo de autoaceitação, o que torna a representatividade queer extremamente importante nessa fase da vida. Assim, essa geração de artistas permitiu que não apenas suas vozes ressoassem nas músicas, mas também seus afetos, que antes não tinham espaço de existência nas mídias.
Referências
Hayley Kiyoko’s ‘Girls Like Girls’ & Other Songs That Defined the Decade.
You probably know her debut single “1950”; now get to know King Princess.
Hayley Kiyoko’s “Girls Like Girls” Primer.
Q&A: Meet girl in red, aka Marie Ulven – the Norwegian teenager making vulnerable catchy bedroom pop.
Hayley Kiyoko on her lesbian pop: “This is bigger than I thought it was”.