Por Ana Carolyna Gonçalves | Assessoria de Comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG

 

 

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A descoberta de 31 novos aglomerados de estrelas na Via Láctea foi reportada em artigo aceito para publicação na prestigiosa revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (confira o manuscrito disponível aqui). O trabalho foi realizado por Filipe Andrade Ferreira, astrônomo do Espaço do Conhecimento e doutor em Física pela UFMG, a partir de dados da missão Gaia, iniciada em 2013 pela Agência Espacial Europeia (ESA). Os resultados reforçam que a Via Láctea pode ser uma galáxia espiral floculenta, com braços espirais segmentados, ao contrário de uma galáxia espiral com braços densos e bem definidos. Nesse sentido, pesquisas como essa ampliam a compreensão da estrutura galáctica e permitem desenhar graficamente os contornos da Via Láctea.

 

Em azul, a figura acima mostra um mapa do céu com todas as estrelas da região em as buscas foram realizadas. O azul escuro indica densidade maior de estrelas e as cores mais fracas, como ciano e amarelo, menos estrelas. Aglomerados conhecidos são pontos pretos e os UFMG’s são os pontos vermelhos. (Acervo Filipe Andrade Ferreira).

 

O artigo, que conta com os coautores Mateus de Souza Ângelo (CEFET Nepomuceno), João Francisco Coelho dos Santos Jr. (UFMG), Wagner José Corradi Barbosa (Laboratório Nacional de Astrofísica e UFMG) e Francisco Ferreira de Souza Maia (UFRJ), também demonstra que os objetos recém descobertos são relativamente jovens, pouco densos e possuem poucas estrelas. Os pesquisadores se basearam em informações disponibilizadas pela missão Gaia, como brilho, posições e velocidades das estrelas em suas análises. O método utilizado consiste na inspeção manualmente supervisionada de gráficos construídos a partir desses dados para análise de estrelas contidas em pequenas regiões do céu, permitindo que os cientistas encontrem aglomerados com poucas estrelas ou dificilmente identificados por procedimentos automáticos e que utilizam inteligência artificial para análise de enormes quantidades de dados.

 

Representação artística de Gaia. Gaia é uma missão ambiciosa da Agência Espacial Europeia que busca traçar um mapa tridimensional da Via Láctea, revelando o processo, a composição, a formação e a evolução da galáxia. (Créditos: ESA – D. Ducros).

 

UFMG entre estrelas

Desde 2018, durante o doutorado em Física, Ferreira tem se dedicado ao estudo de aglomerados abertos, que possuem desde dezenas até poucos milhares de estrelas e tendem a ser jovens. O pesquisador conta que inicialmente utilizou os dados da missão Gaia para analisar o aglomerado NGC 5999, como uma forma de estabelecer e organizar métodos para trabalhos posteriores. Foi quando se deparou, por acaso, com algo surpreendente: além da concentração de estrelas esperada para o NGC 5999, outras três concentrações de estrelas surgiram.

 

“Eu já sabia que não existia nenhum objeto na região, então analisei essas três novas concentrações e me dei conta de que eram três aglomerados de estrelas desconhecidos na literatura. Eles foram rigorosamente analisados, comparados com objetos conhecidos e tiveram propriedades como idade, distância e composição química determinadas para validar as descobertas. Esses primeiros aglomerados foram batizados de UFMG 1, UFMG 2 e UFMG 3, em homenagem à Universidade. A partir da primeira descoberta, em conjunto com o projeto inicial do doutorado, mantive uma vertente na minha pesquisa voltada à procura de conjuntos abertos de estrelas. Além de um trabalho com UFMG 1, UFMG 2 e UFMG 3, que foi publicado em 2019, tivemos outros três trabalhos reportando descobertas em 2020, 2021 e este mais recente de 2026, totalizando 93 aglomerados descobertos”, conta o astrônomo. 

 

A figura acima mostra um mapa da Via Láctea, em uma visão superior. As linhas pretas indicam a direção em que os aglomerados foram procurados. Em cinza e azul estão os aglomerados conhecidos na literatura e os que estão em preto e vermelho são os novos UFMG’s. O Sol se encontra na união das linhas pretas, demonstrado pela estrela vermelha. (Acervo Filipe Andrade Ferreira).

 

Reconhecimento global

Diversos grupos de pesquisa ao redor do mundo, com metodologias variadas, têm contribuído para o aumento no número de objetos conhecidos. Esse é o caso de outros 35 aglomerados que foram encontrados simultaneamente por pesquisadores brasileiros, incluindo Ferreira, e outros autores. Tal descoberta, ainda que não seja exclusiva, ocasionou a ampliação do catálogo de aglomerados UFMG para um total de 128 objetos. De acordo com o pesquisador, os dados da missão Gaia são fundamentais para o aumento da produção científica acerca dos aglomerados, que fornecem informações precisas relacionadas à distância entre as estrelas presentes na Via Láctea.

 

Aglomerado UFMG107, próximo da Nebulosa da Alma IC1848. (Acervo Filipe Andrade Ferreira).

 

Filipe também considera que essas descobertas, além de abrirem uma nova linha de pesquisa no departamento de Física da UFMG, têm contribuído para outros trabalhos realizados por pesquisadores do grupo de Astrofísica. “O reconhecimento e a circulação desse conhecimento reafirmam que as pesquisas feitas dentro da UFMG ou por pesquisadores formados na Universidade têm alcance mundial e merecem investimento”, afirma. Como parte da UFMG e em diálogo permanente com a sociedade, o Espaço do Conhecimento reúne profissionais que, além da pesquisa, atuam diretamente com o público e mobilizam esse repertório acadêmico na concepção e realização de atividades de divulgação científico-cultural, fortalecendo a circulação do conhecimento e ampliando as possibilidades de acesso da população à produção científica da Universidade.

 

Filipe Andrade Ferreira – Astrônomo do Espaço do Conhecimento UFMG. (Créditos: Fernando Silva).

 

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O Espaço do Conhecimento UFMG estimula a construção de um olhar crítico acerca da produção de saberes. Sua programação diversificada inclui exposições, sessões de planetário, debates, oficinas e ações educativas diversas. O Espaço integra a Pró-reitoria de Cultura (Procult) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e conta com a Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade (FRMFA) e a Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) no desenvolvimento de seus projetos. Integrante do Circuito Liberdade, o museu é fruto da parceria entre a Universidade e o governo do estado de Minas Gerais. As ações do Espaço do Conhecimento UFMG são viabilizadas por Leis de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Instituto Unimed-BH e da Cemig, e apoio da Supermix, da Blip e da Construtora Ápia.