Em palestra no Festival de Inverno, artista afirmou que uma de suas missões é lutar para que os povos indígenas assumam lugar de protagonismo

Denilson Baniwa defendeu a escuta e empatia para descolonização | Raphaella Dias/UFMG

Na apresentação que fez do convidado da terceira noite do 52º Festival de Inverno UFMG, a professora Lúcia Pimentel, da Escola de Belas Artes, resumiu: “Ele é um ser indígena do tempo presente, um artista antropófago, que abre caminhos para o protagonismo indígena”.

Se hoje é reconhecido como um expoente da arte produzida no Brasil, Denilson Baniwa, nascido na aldeia Darí, no Rio Negro, no estado do Amazonas, não imaginava que iria tão longe. Na palestra A arte moderna já nasceu antiga – o título alude a uma de suas obras em exposição na Pinacoteca de São Paulo –, proferida nesta quarta-feira, dia 16, ele relatou que nunca planejara ser artista, fazer lives ou receber prêmios.

“Em meus planos, pensava em ter minha família e ficar perto dela, mas as circunstâncias desse país me levaram a esse lugar, onde falo sobre as mesmas coisas que eu falava quando atuava nos movimentos indígenas sobre a vida, a memória e a resistência”, disse. Durante essa trajetória, ele conta que firmou uma convicção: “Não existem coincidências, mas tudo que acontece deve ter o propósito de deixar um lugar melhor para os que ainda não nasceram”.

Para ele, quando os indígenas reivindicam espaços de artes, como a exposição da qual participa em São Paulo, com outros 22 artistas e coletivos indígenas, “é porque entendemos que a arte construiu a história do mundo, e, por ela, nós podemos propor contrastes do discurso indígena e não indígena, até para que haja o direito de escolha”.

Baniwa descobriu o impacto e a potência da arte ainda no ensino fundamental, quando foi apresentado às gravuras e ilustrações dos livros didáticos que retratam a presença dos povos tradicionais indígenas na história do Brasil. Ele olhou para a gravura da primeira missa realizada no país e acreditou que aquele quadro tinha sido pintado por um artista presente na cena. Anos depois, veio a revelação carregada de alguma decepção. “Descobri que era uma obra encomendada pelo Estado brasileiro a um artista francês”, comentou.

Fragmentos de população
Na avaliação de Denilson, os indígenas ainda são retratados como na Semana de Arte Moderna de 1922 ou na época do descobrimento. “Em obras como A primeira missaBatalha do Avaí [sobre a Guerra do Paraguai] e Macunaíma, as populações tradicionais indígenas, mas também as negras, as marginalizadas, como as de rua e sem teto, são retratadas de forma idílica, romantizada, sensual ou dramática. Servem de inspiração para a arte, mas ocupam um lugar de saberes simplórios, de intelectualidade selvagem. São fragmentos de uma população transformados em conhecimento ocidental”, argumentou.

Ele se disse investido de uma missão: “Meu trabalho é questionar esse lugar, ocupado por modelos vivos, ou mortos, que não tiveram direito de negociar para estarem ali. É a luta pelo direito de resposta às artes que são como simulacros, que simulam as realidades indígenas, negra, dos pobres, dos que vivem à margem. Não é esse espelho que queremos, que retrata nossa imagem, mas queremos ser corpos presentes, convidativos para uma reflexão que reerga os resquícios de nossa ancestralidade”, provocou.

Ferramentas de sobrevivência
Durante o debate, ao ser indagado sobre o que é ser indígena na contemporaneidade, especialmente diante da apropriação das novas tecnologias desenvolvidas pelos não indígenas, Denilson confessou que é uma definição difícil, diante da diversidade de povos presentes no Brasil – mais de 300, cada um com sua própria cultura. Mas arriscou: “ser indígena na contemporaneidade é ser fruto da resistência e insistência na própria vida. E todas as modernidades tecnológicas adquiridas pelos indígenas servem como ferramentas para nossa própria sobrevivência”.

Ele continuou: “Um indígena não deixa de ser indígena porque usa tecnologias modernas, ou mesmo um facão. Hoje vejo como é verdadeira a máxima ‘quem com ferro fere, com ferro será ferido’. Os mesmos colonizadores que tentaram nos destruir com suas tecnologias agora recebem de volta produções incríveis, dos povos indígenas. As tecnologias são ferramentas para fortalecer nossa luta, para registrar e manter a memória e fazer que a cultura indígena chegue ao maior número possível de pessoas”.

Escuta e empatia
Ainda durante o debate com os participantes do 52º Festival de Inverno UFMG, ao ser solicitado a dar “dicas para se descolonizar”, Denilson destacou a escuta e o diálogo como pontos de partida. “Tudo começa pelo diálogo, pela negociação. Antes de levar soluções prontas para os indígenas, deveríamos escutá-los, pois nem sempre precisam ou querem as soluções pré-elaboradas. Desse diálogo podem nascer parcerias mais incríveis do que as que pensávamos oferecer”, propôs.

E concluiu dizendo que, ao se colocar no lugar do outro nessa escuta, “a gente entende que não é tão sábio quanto se imagina, pois o que existe são diferentes níveis de conhecimento, de entendimento do mundo, cada qual com sua importância. Quando a gente se coloca no lugar do outro, começa a entender os próprios equívocos e a se perceber ainda mais parecida com o outro”.

A arte moderna já nasceu antiga foi transmitida pelo canal UFMG Cultura no YouTube, onde ficará disponível para quem não acompanhou a palestra em tempo real até as 19h desta quinta-feira, 17.

A professora Lúcia Pimentel, da EBA, fez a mediação da palestra | Raphaella Dias/UFMG